  Fascinado
    Entranced
    Nora Roberts


Famlia donovan - 02 (Sebastian)

      Ele com certeza era um impostor, e ela no o deixaria explorar a ingenuidade de seus amigos.
       A detetive Mary Ellen Sutherland estava desesperada para encontrar um beb desaparecido, mas no dispunha de uma pista sequer. Por isso, apesar de relutante,
se viu forada a aceitar a ajuda de Sebastian Donovan... e seus poderes paranormais. Em pouco tempo, Mary foi obrigada a admitir, ainda que de m vontade, que aquele
homem misterioso tinha alguns dons notveis... E, entre eles, estava uma extraordinria habilidade de derrubar suas barreiras... e chegar a seu corao...


      Digitalizao: Marelizpe
      Formatao: Simone R.




    PRLOGO



       Desde muito cedo Sebastian percebeu seu poder. Aquilo que corria em seu sangue, transformando-o no que ele era, nunca precisou ser-lhe explicado. Nem precisaram
lhe dizer que este era um dom que bem poucos possuam.
       Ele podia ver.
       As vises nem sempre eram agradveis, mas eram sempre fascinantes. Quando chegavam, mesmo quando chegaram a uma criana pequena, cujas pernas ainda nem se
firmavam, ele as aceitava com a mesma facilidade com que aceitava o nascer do sol todas as manhs.
       Muitas vezes sua me sentava-se no cho com ele, o rosto prximo do seu, 0s olhos perscrutando os dele. Mesclada com seu grande amor, havia a esperana de
que Sebastian sempre aceitasse o dom, que jamais fosse ferido por ele.
       Embora ela soubesse que no seria assim, nos dois aspectos.
       Quem  voc? Ele podia ouvir seus pensamentos com tanta clareza como se ela falasse em voz alta. Quem voc ser?
       Havia perguntas que ele no podia responder. Mesmo ento, j compreendera que era mais difcil enxergar dentro de si mesmo do que enxergar nas outras pessoas.
       Com o passar do tempo, seu dom no impediu as brincadeiras, as disputas e provocaes com as primas mais novas. Embora com freqncia, com muita freqncia,
ele tentasse ir alm de seus limites e experimentasse sempre mais, isto no o impedia de desfrutar de uma casquinha de sorvete nas tardes de vero, nem de rir assistindo
desenhos nas matins de sbado.
       Sebastian era um menino normal, ativo e travesso, com uma aguada e, s vezes, tortuosa inteligncia, e um rosto notavelmente belo, realado pelos hipnticos
olhos azul-acinzentados e pelos lbios cheios e de sorriso fcil.
       Passou por todos os estgios que levam um menino na direo da masculinidade. Os joelhos esfolados e ossos quebrados, as pequenas e grandes rebeldias, o primeiro
e excitante sorriso recebido de uma garota bonita. Como todas as crianas, tornou-se adulto, saiu do territrio de seus pais e criou o seu prprio.
       E o poder cresceu, na mesma medida que ele.
       Considerava sua vida como bem ajustada e confortvel.
       E aceitava, como sempre fizera, o simples fato de que era um feiticeiro.



    CAPTULO 1


       Mel sonhava com um homem que estava sonhando com ela. Mas ele no estava dormindo. Podia ver, com uma nitidez to perfeita que nem parecia ser um sonho, que
ele estava parado junto a uma grande e escura janela, com os braos relaxados ao longo do corpo. Mas seu rosto era tenso, determinado. E os olhos... Eram to profundos,
inexorveis. Cinzentos, ela pensou enquanto virava-se no sono. Mas no exatamente cor de cinza. Havia neles um toque de azul, tambm. Tal cor a fazia pensar em rochas
arrancadas de um alto penhasco num momento, e nas guas calmas e suaves de um lago, no outro.
       Era estranho, muito estranho, que ela soubesse que seu rosto estava tenso e rgido, embora fosse incapaz de v-lo. Via apenas aqueles olhos fascinantes e
perturbadores.
       E sabia que estava pensando nela. No somente pensando mas, de alguma forma, enxergando-a. Como se ela tivesse ido para o outro lado daquela janela e ficasse
parada ali, olhando-o atravs da imensa vidraa. Por algum motivo, tinha certeza de que, se levantasse a mo para tocar a vidraa, seus dedos a atravessariam e encontrariam
os dele.
       Se ela quisesse.
       Em vez disso, ela rejeitou-o, enroscando-se nos lenis e murmurando no sono. At mesmo em seus sonhos Mel Sutherland no gostava do que era ilgico. A vida
tinha suas regras, regras muito bsicas. E ela acreditava firmemente que todos estariam em melhor situao se as seguissem.
       Assim, no estendeu a mo para a vidraa, nem para ele.
       Virou-se na cama, quase com violncia, atirando o travesseiro no cho e desejando que o sonho se dissipasse.
       Ele dissipou-se e, to aliviada quanto desapontada, Mel mergulhou profundamente num sono sem sonhos.

       Poucas horas depois, com a viso noturna relegada ao seu subconsciente, ela acordou com o estardalhao produzido pelo despertador de Mickey Mouse, em seu
criado-mudo. Uma nica e experiente pancada o silenciou. No havia o perigo de enroscar-se na cama e deslizar novamente para o sono. A mente de Mel era to disciplinada
quanto seu corpo.
       Sentou-se, entregando-se ao prazer de um enorme bocejo enquanto afundava os dedos nos cabelos loiros e embaraados. Seus olhos, de um verde-escuro e intenso,
herdados do pai de quem no se lembrava, ficaram enevoados por apenas um instante. Depois, focalizaram-se nas cobertas reviradas.
       Noite agitada, pensou, desenroscando as pernas dos lenis. E por que no? Seria bem difcil esperar que tivesse dormido como um beb, com o que teria de
fazer naquele dia. Depois de respirar fundo, pegou o short de ginstica que estava no cho e vestiu-o, sem trocar a camiseta com que havia dormido. Cinco minutos
depois, saa ao encontro do ar ameno da manh, para sua corrida diria de quatro quilmetros. .
       Ao passar pela porta, beijou a ponta dos dedos e encostou-os na madeira do batente. Porque ali era o seu lar, a sua casa. Dela. E, mesmo depois de quatro
anos, ainda no o tinha como certo.
       No era grande coisa, pensou enquanto fazia um rpido aquecimento. Apenas um prdio de tijolos espremido entre uma lavanderia e um escritrio de contabilidade
que se esforava para progredir. Mas ela no precisava de muito mais do que isso.
       Mel ignorou o assovio vindo de um carro que passava, o motorista sorrindo com apreciao para suas pernas longas, esguias e musculosas. Ela no se exercitava
para ficar mais bonita, mas sim porque a corrida rotineira disciplinava a mente e o corpo. Um detetive particular que se entregasse  preguia e indolncia acabaria
encrencado. Ou desempregado. Mel no tinha inteno de enquadrar-se em nenhuma dessas categorias.
       Comeou com uma corrida leve, apreciando o barulho que seus tnis faziam quando batiam na calada, adorando ver a luz perolada do cu, que indicava o incio 
de um lindo dia. Era o ms de agosto, e Mel pensou no calor miservel que devia estar fazendo em Los Angeles. Mas ali, em Monterey, havia aquela eterna primavera. 
No importava o que dizia o calendrio, o ar era sempre fresco como um boto de rosa.
       Ainda era muito cedo para que o trfego estivesse intenso.
       E, ali no centro da cidade, era raro que ela encontrasse algum companheiro de corrida. Se tivesse escolhido correr em qualquer uma das praia.s, seria bem 
diferente. Porm, Mel preferia correr sozinha.
       Seus msculos comearam se aquecer. Uma fina camada de suor brilhava saudavelmente em sua pele. Ela acelerou os passos aos poucos, at alcanar o ritmo conhecido, 
que se tornara to automtico quanto respirar.
       Pelo primeiro quilmetro, manteve a mente vazia, limitando-se a observar os arredores. Um carro com o escapamento aberto passou ruidosamente por um sinal 
de "Pare", fazendo apenas uma breve e hesitante pausa.
       Um sed Plymouth 82, azul-escuro. A anotao mental era apenas para manter a prtica. Porta do motorista arranhada. Placas da Califrnia, Able Charlie Robert 
2289.
       Havia um homem deitado de bruos na grama do parque.
       No instante em que Mel interrompeu a corrida, ele sentou-se, espreguiou e pegou o rdio porttil ao seu lado.
       Um estudante universitrio viajando de carona atravs do pas, ela concluiu enquanto retomava novamente o passo, embora fizesse mais uma anotao mental da 
mochila... Azul, com um emblema da bandeira americana... A cor dos cabelos dele...castanhos... e... Qual  a msica. perguntou-se enquanto a melodia comeava a enfraquecer 
atrs de si.
       Bruce Springsteen. Cover Me.
       Nada mau, congratulou-se com um sorriso, quando virou numa esquina.
       Podia sentir o cheiro de po fresco vindo da padaria. Um aroma matinal, agradvel e pungente. E o perfume de rosas. Mel aspirou o ar profundamente, embora 
preferisse submeter-se  tortura antes de admitir que tinha uma fraqueza por flores. As rvores agitavam-se levemente sob a brisa e, se ela se concentrasse, se concentrasse 
de verdade, poderia sentir o cheiro do mar.
        E era bom sentir-se forte, alerta e sozinha. Era bom conhecer aquelas ruas e saber que este era o seu lugar. Que poderia ficar ali pelo tempo que quisesse. 
Que no precisaria mais perambular no meio da noite num carro velho e amassado, seguindo os caprichos de sua me.
       Est na hora de ir embora, Mary Ellen.  hora de seguir em frente. Estou com o pressentimento de que devamos seguir para o norte durante algum tempo.
       E, assim, elas iriam, ela e a me que adorava, aquela me que sempre seria mais infantil e imatura do que a filha que. encolhia-se no assento rasgado. e remendado 
ao seu lado. Os faris do carro cortariam a estrada, abrindo caminho para uma nova cidade, com uma nova escola e novas pessoas.
       Mas elas nunca ficavam o bastante para se acomodar, jamais tinham tempo para tornar-se parte de qualquer coisa que no fosse a estrada. Logo sua me seria 
atacada pelo que sempre chamava de "comicho nos ps". E l iriam elas novamente.
       Mas por que Mel sempre sentia que estavam fugindo, em vez de estarem indo ao encontro de algo diferente?
       Isso tudo,  claro, havia acabado. Alice Sutherland tinha agora seu prprio e confortvel trailer, que Mel ainda teria vinte e seis prestaes para pagar, 
e vivia feliz como um passarinho, saltitando de um Estado para outro, de uma aventura para outra.
       Mel, por sua vez, estava se fixando num lugar. Era verdade que no havia dado certo em Los Angeles, mas ela sentira o gostinho de como seria criar razes. 
E passara dois anos muito frustrantes e educativos no Departamento de Polcia de Los Angeles. . Dois anos que lhe ensinaram que o cumprimento da lei era exatamente 
o que gostava de fazer, ainda que preencher multas de trnsito e formulrios interminveis no fosse.
       Assim, mudara-se para o norte e abrira a sua prpria firma, a Investigaes Sutherland. Ainda preenchia formulrios, aos, montes, geralmente, mas eram os 
seus formulrios.
       Chegou  metade de sua corrida, e fez a volta para retomar.
       Como sempre, sentia um rpido fluxo de satisfao ao saber que seu corpo reagia to automaticamente. Nem sempre fora assim, no na poca em que era uma criana 
alta demais, desajeitada demais, com cotovelo  e joelhos que pareciam implorar para ser batidos e esfolados. Havia exigido muito tempo e disciplina de sua parte, 
mas agora, com vinte e oito anos, ela tinha seu corpo sob controle. Sim, senhor. Mel jamais ficara desapontada pelo fato de no ter desabrochado e adquirido formas 
curvilneas. Ser magra e esguia era bem mais eficiente. E suas longas e geis pernas, que no passado sugeriam apelidos como "Varapau" e "Magrela", agora estavam 
fortes, atlticas e, ela admitia em segredo, valendo a. pena um olhar mais demorado.
       Foi ento que ela ouviu o choro do beb. Um choro nervoso e impaciente, que jorrava atravs da janela de um dos apartamentos do prdio por onde ela estava 
passando. Seu estado de esprito, animado pela corrida, afundou de repente.
       O beb. O beb de Rose. O doce David com suas bochechas rosadas.
       Mel continuou a correr, pois o hbito era arraigado demais para ser quebrado. Mas sua mente encheu-se de imagens.
       Rose, a inocente e ligeiramente amalucada Rase, com os cabelos vermelhos e crespos e seu sorriso fcil. Mesmo com a natural reserva de Mel, havia sido impossvel 
recusar sua amizade.
       Rose trabalhava como garonete no pequeno restaurante italiano que ficava a duas quadras do escritrio de Mel. Tinha sido bem fcil iniciarem uma conversa 
casual, especialmente considerando-se que Rose era quem mais falava, enquanto Mel saboreava um prato de espaguete ou uma xcara de cappuccino.
       Mel lembrava-se do quanto admirava o desembarao com que Rose equilibrava as bandejas cheias, mesmo com a barriga de oito meses de gravidez esticando-lhe 
o avental. E lembrava-se de Rose lhe dizendo o quanto ela e seu marido Stan estavam felizes por esperar o primeiro filho.
       Mel at havia sido convidada para o ch de beb e, embora estivesse certa de que se sentiria deslocada e estranha numa reunio deste tipo, divertira-se ao 
ouvir as exclamaes admiradas de Rose diante de cada pecinha de roupa ou bichinho de pelcia. E havia simpatizado imediatamente com Stan, tambm, com seus olhos 
tmidos e sorrisos lentos.
       Quando David nascera, oito meses atrs, ela fora visitar Rose no hospital. Enquanto olhava para os bebs que dormiam, choravam ou agitavam-se nos bercinhos 
de grades, ela entendera porque as pessoas rezavam, lutavam e sacrificavam-se para ter filhos.
       Eles eram to perfeitos. To perfeitamente adorveis.
       Ao sair do hospital, estava feliz por Rose e Stan. E mais solitria do que jamais se sentira em toda sua vida.
       Acabara tornando-se um hbito passar pelo apartamento deles de vez em quando, sempre levando um brinquedinho para David. Como desculpa,  claro, uma desculpa 
para ficar com o beb por uma hora ou mais. Havia se enchido de amores pela criana, de forma que no se sentia nada tola ao deslumbrar-se com o nascimento do primeiro 
dentinho, nem por ficar atnita quando ele aprendera a engatinhar.
       Ento, houvera aquele telefonema desesperado, dois meses atrs. A voz de Rose, estridente e quase incoerente.
       - Ele desapareceu. Ele desapareceu...
       Mel percorrera o trajeto entre seu escritrio e a casa dos Merrick num tempo recorde. A polcia j havia chegado. Stan e Rose estavam juntos no sof, agarrados 
um ao outro como duas almas perdidas num naufrgio. E ambos chorando.
       David desaparecera. Havia sido seqestrado quando estava dormindo no cercadinho, que Rose levara para a sombra no pequeno quintal dos fundos do apartamento 
trreo.
       Dois meses tinham se passado, e o cercadinho continuava vazio.
       Tudo o que Mel aprendera, tudo o que fora treinada para fazer e que os instintos lhe ensinaram, no foram o suficiente para trazer David de volta.
       Agora, Rose queria tentar algo mais, algo to absurdo que Mel teria achado risvel, se no fosse pelo duro brilho de determinao que vira nos olhos de Rose, 
normalmente to dceis.
       Rose no se importava com o que Stan dizia, com o que a polcia dizia, com o que Mel dizia. Ela iria tentar qualquer coisa, tudo, para ter seu filho de volta.
       Mesmo se isso significasse procurar um mdium.
       
       Enquanto seguiam rapidamente pela estrada costeira de Big Sur no velho e desengonado MG de Mel, ela fez uma ltima tentativa de convencer Rose a recuperar 
o bom senso.
       - Rose...
       - Nem adianta tentar fazer-me mudar de idia. - Embora Rose falasse em voz baixa, havia nela uma dureza que s viera  tona naqueles ltimos dois meses. - 
Stan j tentou.
       - Isso  porque ns dois nos preocupamos com voc. No queremos v-Ia sofrendo ao deparar-se com mais um beco sem sada.
       Embora tivesse somente vinte e trs anos, Rose sentia-se to velha quanto o mar que se abria diante delas. To velha quanto o mar, e to dura quanto as pedras 
que se projetavam dos rochedos nas margens da estrada.
       - Sofrer? Nada mais  capaz de me fazer sofrer, agora. Sei que voc se preocupa, Mel, e sei que  pedir demais que me acompanhe hoje...
       - No ...
       - , sim. - Os olhos de Rose, antes to luminosos e alegres, estavam turvos pela dor 'e medo que pareciam no ter fim. Sei que voc acha que isso  bobagem, 
e talvez at se sinta ofendida, desde que est fazendo tudo o que pode para encontrar David. Mas eu preciso tentar. Tenho de tentar qualquer coisa.
       Mel ficou em silncio por um instante, pois se envergonhava ao perceber que realmente sentia-se ofendida. Ela era uma pessoa treinada, uma profissional, e 
l estavam elas, cruzando a costa para consultar algum doutor em feitiaria.
       Porm, no fora ela quem perdera o filho. No era ela quem tinha de enfrentar a tortura de ver o bero vazio, dia aps dia.
       - Ns vamos encontrar David, Rose. - Mel tirou a mo do cmbio crepitante pelo tempo suficiente de dar um aperto nos dedos frios da amiga. - Eu juro.
       Em vez de responder, Rose limitou-se a assentir e virou a cabea na direo dos altos penhascos. Se no encontrassem seu beb, e logo, seria fcil demais 
simplesmente saltar de um destes rochedos e libertar-se do mundo.
       
       Sebastian sabia que elas viriam, mas isso nada tinha a ver com seus poderes. Ele prprio atendera o telefonema daquela mulher cuja voz estava trmula, suplicante. 
E ainda se maldizia por isso. No fora para evitar este tipo de coisas que seu nmero no constava da lista telefnica? Que comprara uma daquelas maquininhas to 
teis que atendiam os chamados sempre que algum conseguia descobrir o seu nmero?
       Mas ele havia atendido o telefonema. Porque sentira que devia. Soubera que devia. Portanto, sabia que elas estavam chegando e preparou-se para recusar qualquer 
coisa que viessem lhe pedir.
       
       Diabos, ele estava cansado. Mal acabara de voltar para casa, para sua vida, depois de trs angustiantes semanas em Chicago, onde ajudara a polcia a seguir 
os rastros daquele que a imprensa, com muita esperteza, havia apelidado de "Fatiador da Zona Sul".
       E ele havia visto coisas que esperava nunca mais ver novamente.
       Sebastian aproximou-se da janela, a ampla janela de onde avistava um extenso e ondulante gramado, o colorido jardim de pedras e, mais adiante, o vertiginoso 
vertedouro das rochas que mergulhavam at as profundezas do mar.
       Gostava daquele cenrio dramtico, dos declives perigosos, do mar agitado, e at mesmo da faixa de asfalto que cortava as rochas como uma prova do esforo 
humano, da determinao humana de abrir caminhos e seguir em frente.
       Mas, acima de tudo, gostava da distncia, a distncia que lhe proporcionava alvio, afastando-o daqueles que invadiriam no apenas seu espao; mas tambm 
sua mente.
       No entanto, algum cruzara aquela distncia e j havia invadido, e ele ainda se perguntava o que isto significaria.
       Sebastian tivera um sonho na noite anterior, um sonho no qual ele havia ficado parado ali, exatamente onde estava agora.
       Mas houvera uma mulher no outro lado da vidraa, uma mulher a quem ele queria muito.
       Porm, estava to cansado e exaurido que no conseguira reunir as foras para concentrar-se em seu foco. E ela desaparecera.
       O que, naquele momento, no o preocupava nem um pouco.
       Tudo o que ele realmente queria era dormir e passar alguns dias entregue  preguia, simplesmente cuidando de seus cavalos, divertindo-se com seus negcios 
e interferindo na vida de suas primas.
       Sebastian sentia falta de sua famlia. J fazia um bom tempo desde a ltima vez que fora para a Irlanda visitar seus pais, seus tios e tias. Suas primas estavam 
mais perto, apenas a alguns quilmetros alm da sinuosa estrada que contornava os penhascos, mas parecia que fazia anos, e no apenas algumas semanas, que no se 
encontravam.
       Morgana estava ficando cada vez mais arredondada, com o filho que carregava no ventre. No, com os filhos. Sebastian sorriu consigo mesmo, imaginando se ela 
j. saberia que eram gmeos.
       Anastsia devia saber. Sua prima mais delicada e bondosa sabia de tudo o que havia para saber sobre mtodos de cura e medicamentos naturais. Mas Ana no diria 
nada, a no ser que Morgana lhe perguntasse diretamente.
       Sebastian queria v-Ias. Agora. Sentia at um anseio de passar algum tempo com o marido de Morgana, embora soubesse que Nash estava totalmente absorvido com 
um novo roteiro. Queria pular na sua moto, acelerar e correr em disparada at Monterey, cercando-se de sua famlia e das coisas que conhecia. Queria, a todo custo, 
evitar as duas mulheres que naquele exato instante seguiam pelas colinas, vindo na direo dele. Vindo a ele com suas necessidades, seus pedidos e sua desesperana.
       Mas ficaria ali mesmo.
       Ele no era um homem altrusta, e jamais afirmara ser. No entanto, realmente compreendia as responsabilidades que andavam de mos dadas com seu dom.
       Mas no podia dizer sim a todos. Se dissesse, acabaria enlouquecendo aos poucos. Havia vezes em.que dizia sim, depois descobria que o caminho estava bloqueado. 
Era o destino. Havia outras vezes em que queria dizer no, queria desesperadamente dizer no, por motivos que nem ele prprio entendia. E ainda havia vezes em que 
seu desejo no significava nada, se comparado com a grandeza da tarefa que teria de empreender.
       Isso, tambm, era o destino.
       E agora Sebastian sentia medo, um medo incmodo, de que aquela era uma das ocasies em que seus desejos no significavam nada.
       Ouviu o carro forando o motor na subida da colina, antes mesmo de avist-la. E quase sorriu. Ele construra a casa bem no alto, no ponto mais ermo, e a 
estradinha estreita e pedregosa que levava at l no era um sinal de boas-vindas. Porm, mesmo um vidente tinha direito  privacidade. Ele viu o carro, um borro 
cinzento e feio, e suspirou.
       Elas estavam ali. E quanto mais depressa as despachasse, melhor seria.
       Saiu do quarto e desceu as escadas, um homem alto, quase um metro e noventa contando as botas de montaria, esguio nos quadris e largo nos ombros. Os cabelos 
pretos afastados dramaticamente da testa e caindo pelo colarinho da camisa jeans, curvando-se um pouco nas pontas. Um rosto cujos traos, ele esperava, indicavam 
que era um homem educado, mas inacessvel. Os ossos fortes e proeminentes, herdados de seus ancestrais clticos, projetavam-se sob a pele escurecida graas ao seu 
amor pelo sol.
       Enquanto descia a escadaria, passou a mo pela madeira sedosa do corrimo. Tinha um carinho especial pelas texturas, tanto s macias como as mais speras. 
O anel de ametista que usava numa das mos reluziu intensamente.
       No instante em que o carro acabou de abrir seu caminho ruidosamente at o topo da colina, e quando Mel superou seu primeiro espanto ao ver a estrutura excntrica 
e fluda de madeira e vidro que Sebastian chamava de casa, ele j estava parado na varanda. . .
       Era como se uma criana tivesse jogado para o alto um punhado de blocos de montar e eles tivessem cado ao acaso, formando uma profuso de cores e formas 
que, depois, se fundiram. Pelo menos foi isso que Mel pensou, quando saiu do carro e foi assaltada pelos cheiros das flores, dos cavalos e do vento que vinha do 
mar.
       O olhar de Sebastian pousou em Mel, demorando-se por um momento enquanto seus olhos estreitavam-se. Com. um leve franzir de testa, ele desviou a ateno, 
focalizando-a em Rose.
       - Senhora Merrick?
       - Sim, senhor Donovan. - Rose sentiu um aperto na garganta, ameaando transformar-se num soluo. - E muita bondade sua me receber.
       - No sei se  bondade ou no.
       Sebastian prendeu os dedos nos bolsos da cala jeans e observou-as. Rose usava um vestido azul simples, dolorosamente bem passado, que pendia um pouco nos 
quadris. Era como se tivesse emagrecido recentemente. Havia aplicado a maquiagem com todo cuidado mas, a julgar pela maneira como seus olhos brilhavam, esta no 
duraria muito tempo.
       Ele lutou contra uma onda de simpatia.
       A outra mulher no parecia incomodar-se muito com a aparncia, o que a tornava ainda mais intrigante. Como Sebastian, ela estava usando jeans e botas, ambos 
j bastante gastos. A camiseta que enfiara na cintura da cala jeans provavelmente fora vermelha algum dia, mas agora parecia desbotada depois de muitas lavagens. 
No usava jias, nem maquiagem. Mas o que ela realmente exibia, e Sebastian viu to nitidamente quanto via as cores de seus cabelos e olhos, era sua opinio. Uma 
opinio negativa.
       Voc  do tipo durona, no ... Procurou mentalmente o nome dela, e foi atingido por um redemoinho de emoes, uma espcie de esttica mental, que o avisou 
de que aquela mulher estava to envolvida por um turbilho emocional quanto Rose Merrick.
       Fantstico.
       Rose j se adiantava na direo dele. Sebastian estava tentando manter-se distante e desinteressado, mas sabia que estava perdendo. Rose lutava contra as 
lgrimas, aquelas que ele era capaz de sentir queimando-lhe o corao.
       No havia nada no mundo que mais enfraquecesse um homem do que uma mulher corajosa.
       - Senhor Donovan, no pretendo tomar muito de seu tempo.
       S preciso que...
       No instante em que a voz de Rose perdeu a fora, Mel j estava ao seu lado. o' olhar que enviou a Sebastian era qualquer coisa, menos amigvel.
       - Voc vai nos deixar entrar e sentar um pouco, ou teremos de...
       Agora, foi ela quem ficou sem palavras. Mas no foi a ameaa das lgrimas que calou sua voz. Foi o choque absoluto.
       Os olhos dele. Isso era tudo que Mel conseguiu pensar por um instante e, de fato, pensou com tal nitidez, com tal violncia, que Sebastian ouviu as palavras 
ecoando em sua prpria mente.
       Ridculo, ela disse a si mesma, recuperando o controle. Tinha sido um sonho, s isso. Algum sonho bobo, que ela estava confundindo com a realidade. A verdade 
era que ele possua mesmo olhos lindos. Os olhos mais incomodamente lindos que ela j vira.
       Sebastian observou-a por mais um instante e, apesar de curioso, no foi alm do seu rosto. Mesmo sob a inclemente luz do sol ela era bem bonita. Talvez fosse 
o desafio que ele enxergou com tanta clareza naqueles firmes olhos verdes, ou a maneira como ela empinou o queixo, com a covinha leve e estranhamente sensual. Bonita, 
sim, ele concluiu, mesmo tendo os cabelos alguns centmetros mais curtos que os dele. Mesmo se eles dessem a impresso de terem sido cortados por ela prpria, com 
uma tesoura de cozinha.
       Sebastian desviou os olhos e ofereceu um sorriso  Rose.
       - Vamos entrar, por favor - disse, estendendo-lhe a mo. Deixou que Mel os seguisse.
       Foi o que ela fez, e Sebastian teria se divertido se visse o ar arrogante com que subiu os degraus da varanda e entrou na sala principal; com teto alto, as 
clarabias e os balces abertos. Mel fez uma leve careta, desejando no achar tudo to bonito, como aquelas paredes quentes, em tons amarelados que produziam uma 
atmosfera acolhedora e sensual. Havia um sof baixo e largo, comprido como um rio e. forrado de um reluzente azul-royal. Sebastian guiou Rose. at ali, cruzando 
um tapete em tons pastis do tamanho de um lago, e Mel aproveitou para observar o ambiente onde ele morava.
       Tudo estava impecavelmente arrumado, mas sem parecer organizado demais. Esculturas modernas em mrmore, madeira e bronze intercalavam-se com peas que, certamente, 
eram valiosas antigidades. Tudo ali era grande e, como resultado, a sala parecia acolhedora apesar do tamanho.
       Aqui e ali, dispostos com aparente casualidade sobre os antigos mveis de madeira polida, havia agrupamentos de cristais, alguns grandes o bastante para arquear 
as costas de um homem que os erguesse, outros to pequenos que caberiam na mo de uma criana. Mel. viu-se encantada por eles, pela maneira como brilhavam e reluziam, 
em formatos que lembravam antigas cidades, estreitos bastes, esferas polidas ou montanhas escarpadas.
       Reparou que Sebastian a olhava com um ar de paciente divertimento e encolheu os ombros.
       - So bem bonitos.
       Os lbios dele curvaram-se, acompanhando o humor em seus olhos.
       - Obrigado. Sente-se, por favor.
       O sof podia parecer to longo quanto um rio, mas ela escolheu uma poltrona no outro lado da ilha formada pela mesa de centro entalhada.
       Os olhos dele pousaram em Mel por mais um instante, depois se voltaram para Rose.
       - Posso lhe oferecer um caf, senhora Merrick? Ou um refresco?
       - No, obrigada. Por favor, no se incomode. - A gentileza dele era pior pois, de alguma forma, abalava seu desesperado autocontrole. - Reconheo que nossa 
visita  quase uma imposio, senhor Donovan. Eu li alguns artigos sobre o senhor. E minha vizinha, a senhora Ott, disse o quanto o senhor ajudou a polcia no ano 
passado, quando aquele garoto desapareceu. O caso da fuga.
       - Joe Cougar. - Sebastian sentou ao lado dela. - Sim, ele achou que poderia tentar a sorte em San Francisco e quase enlouqueceu os pais. Suponho que a juventude 
goste de correr riscos.
       - Mas ele tinha quinze anos. - A voz de Rose entrecortou-se e, pressionando os lbios, ela tentou falar novamente. - Eu... eu no quero dizer que seus pais 
no deveriam ter-se preocupado, mas o rapaz tinha quinze anos. O meu David  apenas um beb. Ele estava no cercadinho, dormindo. - Ela enviou a Sebastian um olhar 
de desespero. - Deixei-o sozinho por apenas um minuto, quando o telefone tocou. Ele estava bem ali, perto da porta, dormindo. No estava na rua, nem foi deixado 
sozinho num carro... Estava perto de mim, com a porta aberta, e eu o deixei por s um minuto.
       - Rose. - Embora preferisse manter a maior distncia possvel de Sebastian, Mel levantou-se e foi sentar ao lado da amiga. - No foi culpa sua. Todos entendem 
isso.
       - Eu o deixei - Rose falou, inerte. - Deixei meu beb sozinho, e agora ele desapareceu.
       - Senhora Merrick. Rose. Voc no se considera uma boa me? - Sebastian fez a pergunta num tom descuidado, e viu o horror emergir nos olhos de Rose. E a fria 
acender-se nos de Mel.
       - Sim,  claro que sou boa me. Eu amo David. Sempre quis fazer o melhor por ele. Eu s...
       - Ento, no faa isso. - Ele tomou-lhe a mo, e o toque foi to delicado, to reconfortante que a ameaa das lgrimas recuou um pouco. - Voc no tem culpa 
do que aconteceu. E tentar jogar a culpa em si mesma no ir ajud-la a encontrar David.
       A fria de Mel apagou-se como um pavio molhado. Ele dissera exatamente a coisa certa, do jeito certo.
       - Voc pode me ajudar? -Rose murmurou. - A polcia est tentando. E Mel... Mel est fazendo tudo o que pode, mas David ainda est desaparecido.
       Mel, ele refletiu. Um nome interessante para aquela loira alta e esguia, com uma ndole agressiva.
       - Ns vamos trazer David de volta. - Agitada, Mel levantou-se outra vez. - Temos algumas pistas. Podem no ser muito consistentes, mas...
       - Ns? - Sebastian interrompeu. Captou uma imagem rpida, como num flash, de Mel segurando uma arma com as duas mos, os olhos to frios quanto duas esmeraldas 
congeladas. - Trabalha na polcia, srta...
       - Sutherland. Sou detetive particular. - Ela disparou as palavras para ele. - Voc no deveria saber estas coisas?
       - Mel... Rose falou baixinho, em tom de aviso.
       - Est tudo bem.  Sebastian deu uma palmadinha na mo de Rose. - Eu posso olhar, ou posso perguntar. Com pessoas relativamente estranhas, acho mais educado 
perguntar do que invadir, no concorda?
       - Sim, est certo. - Com um resmungo de desprezo, Mel atirou-se novamente na poltrona.
       - Sua amiga  uma ctica - Sebastian comentou. - O ceticismo pode ser muito valioso, mas tambm muito grosseiro.
       Ento, preparou-se para dizer a Rose que no poderia ajud-la. Simplesmente no poderia abrir-se para o trauma e para os riscos de procurar outra criana 
perdida.
       Porm, Mel mudou isso tudo. Exatamente, ele supunha, como tinha de ser.
       - Pois eu no considero ceticismo o fato de reconhecer um charlato disfarado de bom samaritano. - Os olhos dela faiscavam, quando se inclinou para frente. 
- Essa histria de mediunidade  to falsa quanto um mgico barato tirando coelhos da cartola.
       Ele arqueou a sobrancelha. Foi o nico sinal de interesse ou irritao.
       - Acha mesmo?
       - Um charlato  um charlato, senhor Donovan. O futuro de uma criana est em jogo, e no vou admitir que voc faa seus "passes de mgica" apenas para ter 
o nome publicado nos jornais. Sinto muito, Rose. - Ela levantou-se, quase vibrando de raiva. - Gosto muito de voc, e gosto muito de David. Mas no posso ficar aqui 
parada e vendo este sujeito engan-la.
       -  o meu beb. - As lgrimas que Rose tanto tentara conter, agora corriam soltas. - Preciso saber onde ele est. Preciso saber se ele est bem. Se est com 
medo, ou se est feliz. Ele nem levou o ursinho de pelcia. - Rose escondeu o rosto nas mos. - Nem levou o ursinho de pelcia...
       Mel amaldioou a si mesma, ao seu temperamento explosivo, amaldioou Sebastian Donovan e o mundo em geral. Porm, quando se ajoelhou ao lado da amiga, tanto 
a voz como as mos eram gentis e delicadas.
       - Desculpe-me, Rose. Por favor, me desculpe. Eu entendo o medo que voc est sentindo. Eu tambm estou com medo. E se quiser que o senhor Donovan... - Ela 
quase engasgou com a palavra --..ajude, ento ele vai ajud-la. - Levantou o rosto furioso e desafiador para Sebastian. - No vai?
       - Sim. - Ele assentiu devagar, sentindo que o destino tomava-lhe as mos. - Eu vou ajudar.
       
       Sebastian conseguiu convencer Rose a tomar um pouco d'gua e enxugar os olhos. Enquanto Mel olhava pela janela com uma expresso carregada, Rose tirou um 
ursinho amarelo de dentro da bolsa.
       -  de David. O seu preferido. E esta... - Remexeu na carteira e pegou uma foto. - Esta  a fotografia dele. Pensei que... bem, a senhora Ott disse que talvez 
voc precisasse de alguma coisa que pertence a ele.
       - Ajuda bastante. - Sebastian pegou o brinquedo e sentiu um puxo violento no estmago, que reconheceu como sendo a dor de Rose. Teria de passar por aquilo, 
e ir mais alm. Mas no olhou para a fotografia. Ainda no. - Deixe isso comigo. Entrarei em contato. - Ajudou-a a levantar. - Voc tem minha palavra, Rose. Farei 
tudo o que puder.
       - Nem sei como lhe agradecer. Por tentar. S o fato de saber que voc ... Bem, isso me d um pouco de esperana. E ns, Stan e eu, temos algumas economias.
       - Conversaremos sobre isso depois.
       Rose, espere por mim no carro - Mel falou num tom tranqilo, mas Sebastian podia ver que ela estava sentindo tudo, menos tranqilidade. - Vou passar as informaes 
que tenho ao senhor Donovan. Talvez possa ajud-lo.
       - Tudo bem. - Um fraco sorriso perpassou os lbios de Rose. Obrigada. .
       Mel esperou at que Rose sasse, depois se virou e disparou:
       . -.Quanto voc acha que conseguir arrancar dela para este tipo de trapaa? Ela  garonete, e o marido  mecnico.
       Sebastian recostou preguiosamente no batente da porta.
       - Srta. Sutherland, est parecendo que eu preciso de dinheiro? Ele emitiu um som de desprezo.
       - No,  claro que voc tem rios de dinheiro. Tudo isso  s uma brincadeira para voc, no ?
       Sebastian segurou-a pelos braos, com tal fora que a pegou de surpresa. .
       - No  brincadeira. - A voz dele era baixa, e to repleta de violncia contida, que ela piscou. - O que eu tenho, o que eu sou, no  brincadeira. E uma 
criana seqestrada tambm no  brincadeira.
       - No quero que ela sofra ainda mais.
       Nisso ns concordamos. E se voc  to contrria a esta idia, por que a trouxe at aqui?
       - Porque ela  minha amiga. Porque ela me pediu.
       Sebastian aceitou a resposta com um leve assentir de cabea. A lealdade era algo que ele podia sentir pulsando dentro dela.
       - E quanto ao meu nmero de telefone particular? Foi voc que descobriu?
       Os lbios dela formaram algo bem parecido com um sorriso de triunfo.
       -  o meu trabalho.
       - E voc  boa no que faz?
       - Muito boa.
       - timo. Eu tambm sou muito bom no que fao, e estaremos trabalhando juntos.
       - O que o leva a pensar que...
       - Porque voc se importa de verdade. E se houver uma chance ah, at mesmo a mnima chance, de que eu seja o que afirmo ser, voc no vai querer arriscar-se 
a ignorar minha ajuda.
       Mel podia sentir o calor que emanava dos dedos dele. Parecia fluir atravs de sua pele, at os ossos. Ento, ocorreu-lhe que estava com medo. No fIsicamente. 
Era um medo mais profundo.Tinha medo porque nunca antes sentira aquele tipo de poder.
       - Eu trabalho sozinha.
       - Eu tambm - ele retrucou calmamente. - Como regra geral. Mas ns vamos quebrar as regras. - Sebastian penetrou em sua mente, rpido como uma cobra. Queria 
apenas uma coisa, uma coisinha qualquer, para esfregar no nariz dela. Ao encontrar, sorriu. - Entrarei em contato muito em breve, Mary Ellen.
       Teve o prazer de v-Ia abrir a boca de espanto, de ver seus olhos estreitarem-se enquanto pensava, esforando-se para lembrar se Rose dissera seu nome completo. 
Mas no conseguiu lembrar-se, no podia ter certeza. Abalada, Mel desvencilhou-se dele.
       - No me faa perder tempo, Donovan. E no me chame assim. - Erguendo a cabea, saiu com passos duros. E, mesmo no sendo "mdium", soube que ele estava sorrindo.
       
       
       
       
       
       
    CAPTULO 2
       
       
       
       Sebastian no voltou para dentro, nem mesmo depois de ver O carrinho cinzento desaparecer pela faixa asfaltada da Rodovia 1. Ficou ali na varanda divertido 
e ligeiramente irritado pelas fascas de raiva e frustrao que Mel deixara brilhando no ar.
       Voluntariosa, ele pensou. E transbordando energia. Uma mulher como aquela seria capaz de exaurir um homem pacfico. E Sebastian considerava-se um homem pacfico. 
Mas no se incomodaria de espica-la um pouco, do mesmo jeito que um menino cutuca as brasas em uma fogueira a fim de ver quantas vezes consegue fazer com que as 
chamas se acendam novamente.
       s vezes valia a pena correr o risco de se queimar um pouco, para se acender um fogo.
       Naquele momento, no entanto, ele estava cansado demais para ter prazer nisso. J estava zangado consigo mesmo por ter concordado em se envolver. Havia sido 
a combinao das duas mulheres que levaram-no a concordar, pensou agora. Uma delas com a expresso to cheia de medo e esperana desesperada, e a outra to vvida 
de fria e descrena zombeteira. Ele teria conseguido lidar com uma ou outra, concluiu enquanto descia os degraus da varanda. Mas, ao ser apanhado no meio de todas 
aquelas emoes to profundas e conflitantes, fora derrotado.
       Portanto, iria olhar: Embora tivesse prometido a si mesmo um longo e tranqilo intervalo antes de aceitar outro caso iria olhar. E rezaria, para qualquer 
deus que estivesse ouvindo que seria capaz de viver com o que talvez visse. 
       Mas, antes disso, precisava tirar uma folga, uma longa e preguiosa manh de folga, para curar a mente fatigada e a alma em frangalhos.
       Havia um cercado para animais atrs da casa, anexado ao estbulo pintado de branco reluzente e de telhado baixo. No instante em que Sebastian se aproximou, 
ouviu o relinchar de boas-vindas. O som era to normal, to simples e receptivo que ele sorriu.
       E l estavam eles, o esguio garanho preto e a orgulhosa gua branca, numa postura to imvel que o fez pensar em duas peas de xadrez esculpidas com perfeio, 
uma em bano, outra em alabastro. Ento a gua sacudiu a cauda, num gesto galante, e empertigou-se sobre a cerca.
       Eles poderiam saltar a cerca, Sebastian sabia. Ambos j haviam feito isso mais de uma vez, com ele na sela. Porm, havia uma confiana entre eles, uma espcie 
de entendimento de que aquele cercado no era uma priso, mas sim um lar.
       - Vejam s que beleza. - Sebastian ergueu a mo e afagou-lhe o focinho, o pescoo longo e gracioso. - Voc est mantendo seu marido na linha, Psique?
       A gua arfou em sua mo. Nos seus olhos negros ele viu o prazer, e o que gostava de pensar que fosse bom humor. Ela relinchou suavemente quando Sebastian 
pulou sobre a cerca. Depois, esperou pacientemente enquanto ele passava as mos pelos seus flancos, descendo at a barriga intumescida.
       - Faltam apenas algumas semanas - ele murmurou.
       Quase podia sentir a vida palpitando dentro dela, adormecida. Mais uma vez pensou em Morgana, embora duvidasse que sua prima gostaria de ser comparada a uma 
gua prenhe, mesmo se fosse uma bela gua da raa rabe como Psique.
       - Ana cuidou bem de voc? - Sebastian roou o. rosto contra o pescoo do animal, reconfortado por sua ndole dcil e tranqila. -  claro que sim.
       Sempre murmurando, ele afagou-a por mais algum tempo, dando-lhe a ateno da qual ambos tinham sentido falta em sua ausncia. Depois, virou-se e olhou para 
o garanho, que permanecia em alerta, com a bela cabea empinada.
       - E voc, Eros, tem tratado bem da sua esposa?
       Ao ouvir o som do seu nome, o cavalo chutou a pata traseira para o ar, emitindo um relincho que era intenso em poder e quase humano. Tal demonstrao de orgulho 
fez com que Sebastian risse, enquanto encaminhava-se para o animal.
       - Voc sentiu minha falta, seu bicho maravilhoso, admita ou no.
       Ainda rindo, Sebastian deu uma palmada no flanco lustroso, fazendo com que Eros bailasse em torno do cercado. Na segunda volta, Sebastian agarrou-se num punhado 
da crina do cavalo e, num salto, montou em seu lombo, fornecendo-lhes o que ambos queriam: uma corrida rpida e imprudente.
       Enquanto os dois voavam ao longo do cercado, Psique os observava, com a mesma expresso indulgente, e superior, de uma me que v os filhos pequenos brincando 
de "luta".
       
       Sebastian sentia-se bem melhor  tarde. A sensao de vazio que trouxera consigo de Chicago aos poucos estava sendo preenchida. Porm, continuava evitando 
o ursinho de pelcia amarelo que permanecia sentado no longo sof da sala. E ainda no olhara para a fotografia.
       Na biblioteca, com o teto abobadado e as paredes repletas de estantes de livros, ele sentou-se na escrivaninha de mogno macio e distraiu-se examinando alguns 
documentos. De uma hora para outra, Sebastian possua entre cinco e dez empresas, das quais era o nico proprietrio ou scio majoritrio. Mas os negcios eram um 
hobby para ele, imobilirias, empresas de importao-exportao, revistas, uma fazenda de criao de peixes no Mississpi que o divertia muito, e seu mascote preferido 
atualmente, um time de beisebol de segunda diviso, em Nebraska.
       Ele era perspicaz o bastante para obter lucros considerveis inteligente o bastante para deixar o gerenciamento cotidiano nas mos de especialistas, e caprichoso 
o bastante para comprar e vender aes quando bem entendia.
       Gostava do que o dinheiro podia lhe propiciar, e geralmente era prdigo no uso desses lucros. Mas fora criado em meio  riqueza, e quantias de dinheiro que 
poderiam espantar muitas pessoas, para ele no passavam de nmeros escritos num papel.Considerava o simples jogo da matemtica, de somar ou diminuir, como uma inesgotvel 
fonte de divertimento.
       Era generoso com instituies de caridade porque acreditava nelas. Seus donativos no visavam a reduo de impostos, nem a filantropia, mas eram uma questo 
de moral. 
       Distraiu-se com o trabalho at o entardecer, lendo, redigindo documentos, brincando com um novo encantamento que esperava ser perfeito. A magia era especialidade 
de sua prima Morgana e Sebastian jamais almejaria igualar-se ao poder que ela possua. No entanto, sua natureza competitiva fazia com que estivesse sempre tentando.
       Ah, sim, ele sabia acender o fogo, mas esta era a primeira e ltima habilidade de qualquer feiticeiro. Podia levitar, mas este tambm era um talento elementar. 
Alm disso, e de alguns truques com a cartola, ele no era nenhum mago. O seu dom era o da vidncia.
       Porm, como um ator brilhante que anseia por saber danar e cantar, Sebastian ansiava por fazer encantamentos.
       Depois de passar duas horas sem obter muito sucesso ele acabou desistindo, desgostoso. Preparou uma elaborada refeio apenas para si mesmo, ps um CD de 
baladas irlandesas no aparelho de som e abriu uma garrafa de vinho de trezentos dlares, com a mesma displicncia de qualquer outro homem abrindo uma latinha de 
cerveja.
       Tomou um demorado banho na banheira de hidromassagem, com os olhos fechados e a mente mergulhada num vazio abenoado, enquanto sentia os jatos de gua pelo 
corpo. Depois de vestir um calo de seda, entregou-se ao prazer de ver o sol se pr em uma profuso de tons vermelhos. E ento esperou que a noite se esgueirasse 
atravs do cu.
       Finalmente, decidiu que no podia mais adiar. Com alguma relutncia, Sebastian desceu novamente para a sala. Em vez de acender as luzes, acendeu velas. No 
porque precisasse dos ornamentos para evocar suas artes, mas sim porque havia um certo conforto na tradio.
       As velas exalavam um perfume de sndalo e baunilha. E, por faz-lo lembrar do quarto de sua me no Castelo Donovan tais aromas jamais deixavam de acalm-lo. 
A luz era difusa convidando ao poder.
       Por vrios minutos, ficou parado junto ao sof. Com um suspiro, bem parecido com o som que um trabalhador braal faria antes de erguer uma picareta, ele olhou 
para a fotografia de David Merrick.
       Era um rostinho feliz e encantador, que teria provocado um sorriso em Sebastian se sua concentrao no estivesse focalizada. As palavras avolumavam-se em 
sua mente, palavras antigas, secretas. Quando teve certeza, deixou a foto no sof e pegou o urso amarelo de olhinhos tristes.
       - Muito bem, David - murmurou, e sua voz ecoou pelos cmodos vazios. - Deixe-me ver.
       No aconteceu com um claro de luz, nem com um lampejo de compreenso, embora pudesse ter sido assim. Sebastian simplesmente deixou-se levar, flutuando  
deriva. Seus olhos se modificaram, da cor de cinza para a cor. de ardsia, depois para a cor das nuvens de tempestade. Fixaram-se, sem piscar, para alm da sala, 
para alm das paredes, para alm da noite.
       Imagens. Imagens formando-se e dissolvendo-se como cera por toda sua mente. Seus dedos seguravam o brinquedo com delicadeza, mas seu corpo ficara rgido como 
pedra. A respirao mantinha-se firme, diminuindo aos poucos at chegar num ritmo estvel, como no sono.
       No incio, Sebastian teve de lutar contra a dor e o medo que vibravam atravs do brinquedo. Sem perder a concentrao, teve de afastar as vises da me que 
abraava o ursinho chorando, e do pai de olhos vidrados que a amparava.
       Ah, eram fortes, muito fortes estas emoes de dor, terror e raiva. Porm, mais forte que tudo, como sempre, era o amor E at mesmo o amor desvaneceu-se quando 
Sebastian deslizou por ele, aprofundando-se, voltando para trs.
       Ele viu, ento, com os olhos de uma criana e o espanto de uma criana.
       Um rosto bonito, o rosto de Rose, inclinando-se sobre o bero.
       Um sorriso, palavras doces, mos delicadas. Muito amor. Depois outro rosto, de um homem jovem e simples. Dedos hesitantes, speros e calejados. Aqui tambm 
havia amor. Ligeiramente diferente do amor da me, mas com idntica profundidade. Este parecia mesclado com um tipo de admirao reverente. E... Sebastian sorriu. 
Um desejo de jogar bola num belo quintal gramado.
       As imagens passaram gradativamente, uma sobre a outra. O choro manhoso  noite, temores disformes, logo aliviados pelas mos fortes e carinhosas. A fome incmoda 
saciada pelo leite quente da me, vindo do seio acolhedor. E os prazeres, tantas delcias nas cores, nos sons, no calor do sol.
       Sade robusta sade num corpo esforando-se para crescer, como fazem os bebs no primeiro e vertiginoso ano de vida. 
       Ento o calor e uma dor surpreendente, atordoante. Doendo, latejando nas gengivas. O conforto de ser ninado, aquecido, de ouvir doces cantigas.
       E um outro rosto, suavizado por um tipo diferente de amor. Mary Ellen, fazendo o ursinho amarelo danar diante de seus olhos. Rindo, as mos ternas e hesitantes 
enquanto o pegava no colo, erguendo-o para o alto e pressionando beijinhos ruidosos em sua barriga.
       Vindo dela, um anseio, disforme demais em sua prpria mente para ser visto com clareza. Muita emoo e confuso.
       O que  que voc quer?, Sebastian desejava lhe perguntar. O receia que no possa ter?
       Ento ela desapareceu, como um desenho a giz lavado por uma pancada de chuva.
       Dormindo. Sonhando leves sonhos, com um raio de sol aquecendo-lhe a mo cerrada, e a sombra fresca como um beijo. Paz, paz absoluta.
       Quando a paz foi rompida, houve uma irritao sonolenta. Os pequenos e saudveis pulmes encheram-se para chorar, mas o som foi interrompido pela mo em sua 
boca. Mos desconhecidas cheiros desconhecidos, e a irritao transformou-se em medo. 0 rosto... Havia apenas um relance, e Sebastian esforou-se para congelar a 
imagem na mente, para mais tarde.
       Sendo carregado, apertado demais, e enfiado dentro de um carro. O carro tem outros cheiros, de comida velha, caf derramado e do suor do homem.
       Sebastian via, sentia, enquanto uma imagem sobrepunha-se  outra. Mas perdeu trechos inteiros quando o terror e as lgrimas da criana o exauriram, levando-o 
ao sono.
       Mas ele viu. E sabia por onde comear.
       
       Morgana abriu a loja s dez em ponto. Luna, sua enorme gata branca, esfregou-se entre suas pernas, depois se acomodou no centro da sala para lambera cauda. 
Sabendo como era o movimento no vero, Morgana foi direto para o balco e verificou o troco na caixa registradora. Sua barriga bateu levemente contra o vidro do 
balco, e ela deu uma risadinha.
       Estava ficando do tamanho de uma casa. E estava adorando! Adorava a sensao plena e pesada de carregar uma vida. Uma vida que ela e Nash haviam criado.
       Lembrou-se de como naquela mesma manh seu marido tinha pressionado beijos na crescente protuberncia e depois pulara para trs, com os olhos arregalados, 
ao sentir o chute de quem quer que estivesse adormecido l dentro.
       - Meu Deus, Morgana, um p! - Nash havia espalmado a mo sobre o calombo, sorrindo. - Quase consigo contar os dedos!
       Contanto que fossem cinco dedos em cada p, ela pensou agora, e estava sorrindo quando a sineta da porta tocou. 
       - Sebastian! - Um puro prazer estampou-se em seu rosto, quando estendeu os braos para ele. - Voc voltou.
       - Uns dois dias atrs. - Ele tomou-lhe as mos, beijou-as sonoramente e depois se afastou, franzindo a testa enquanto a observava. - Meu Deus, voc est imensa!
       -No estamos? - Morgana afagou a barriga e contornou o balco, indo ao encontro dele.
       A gravidez no ofuscara a sua sensualidade. Pelo contrrio, parecia t-la intensificado. Ela, como se dizia das noivas e futuras mames, parecia iluminada. 
A cascata de cabelos pretos caa pelas costas de um indesculpvel vestido vermelho, que deixava  mostra as pernas fantsticas.
       - Nem preciso perguntar se voc est bem - ele comentou.- Posso ver com meus prprios olhos.
       - Ento eu pergunto. J ouvi dizer que voc ajudou a fazer uma limpeza em Chicago - Morgana falou com um sorriso, mas havia uma silenciosa preocupao em 
seus olhos. - Foi muito difcil?
       - Sim. Mas acabou. - Antes que pudesse dizer mais, antes que ele tivesse certeza de que queria falar mais, trs freguesas entraram na loja e comearam a explorao 
dos cristais, das ervas e das esculturas. - Voc est trabalhando aqui sozinha?
       - No, Mindy deve chegar a qualquer momento.
       - Mindy j chegou - sua assistente anunciou, deslizando para dentro da loja usando um macaco branco e um sorriso sedutor para Sebastian. - Ol, bonito.
       - Ol, beleza.
       Em vez de sair da loja, ou esconder-se na sala dos fundos como era seu hbito quando os fregueses apareciam, Sebastian ficou andando por ali, mexendo inquietamente 
nos cristais, cheirando as velas perfumadas. Morgana aproveitou a primeira pausa para ir falar com ele novamente.
       - Est procurando alguma magia?
       Ele franziu a testa, com uma esfera de pedra obsidiana na mo.
       - No preciso de estmulos visuais.
       Morgana estalou a lngua.
       - Est encontrando problemas com outro encantamento, querido?
       Embora tivesse gostado da esfera, Sebastian deixou-a onde estava. Por nada no mundo daria a ela essa satisfao.
       - Deixo os encantamentos por sua conta.
       - Ah, bem que voc queria. - Morgana pegou a esfera e entregou-a a. ele. Conhecia muito bem o seu primo. - Tome,  um presente. No h nada como a obsidiana 
para bloquear as ms vibraes.
       Sebastian deixou a esfera rolar na mo.
       - Imagino que, tendo um estabelecimento comercial, voc deve estar a par de quem  quem nesta cidade.
       - Mais ou menos. Por qu?
       - J ouviu falar na Investigaes Sutherland?
       - Sutherland? - Morgana ficou pensativa. - O nome no me  estranho. O que , uma agncia de detetives?
       - Aparentemente.
       - Eu acho que... Mindy, o seu namorado no teve algum negcio com a Investigaes Slitherland?
       Mindy mal ergueu os olhos da mquina registradora.
       - Qual namorado?
       - Aquele com ar intelectual, dos cabelos compridos. Trabalhava com seguros.
       - Ah, est falando de Gary. - Mindy enviou um largo sorriso para a freguesa. - Espero que goste. Volte sempre, por favor.
       Gary  um ex-namorado - acrescentou. - Possessivo demais. A Sutherland faz uma poro de coisas para a empresa de seguros onde ele trabalha. Gary diz que 
ela  a melhor que j tiveram.
       - Ela? - Morgana olhou de volta para Sebastian, com um sorrisinho maroto. - Ah...
       - No tem nada de "ah". - Ele torceu lhe o nariz de leve. - Acontece que concordei em ajudar uma pessoa, e Sutherland est envolvida no caso.
       - Humm. Ela  bonitinha?
       - No - ele respondeu, com toda sinceridade.
       - Ento  feia.
       - No. Ela ... incomum.
       - O melhor tipo. Com o que voc est ajudando?
       - Um seqestro. - O ar brincalho desapareceu dos olhos dele. - De um beb.
       - Oh... - Automaticamente, Morgana cobriu a boca com as mos. Sinto muito. E o beb... ele est... Voc sabe...
       - Ele est vivo. E bem.
       - Graas a Deus. - Quando fechou os olhos com alvio, Morgana lembrou-se. - O beb?  aquele que foi tirado do cercadinho, no quintal de casa, uns dois meses 
atrs?
       - Exatamente.
       Morgana tomou-lhe as mos.
       - Voc vai encontr-lo, Sebastian. Vai encontr-lo em breve.Ele assentiu.
       - Estou contando com isso.
       
       Acontece que, naquele exato momento, Mel estava justamente digitando a nota de servios para a empresa Underwriter Seguros. Eles a mantinham na folha de pagamento, 
o que impedia que o lobo da falncia batesse  sua porta, mas no ms anterior ela tivera algumas despesas extras. Tinha tambm uma mancha roxa no ombro esquerdo, 
j comeando a desaparecer, que um homem supostamente sofrendo de hrnia de disco e torcicolo lhe causara, ao apanh-la tirando fotos enquanto ele trocava um pneu.
       Um pneu que ela mesma, muito discretamente, havia furado.
       Manchas roxas  parte, havia sido uma boa semana de trabalho.
       Se ao menos tudo fosse assim to simples.
       David. Simplesmente no conseguia tirar David dos pensamentos. Mas sabia que no devia, fora treinada para isso. Os envolvimentos pessoais significam que 
voc estragou tudo. At agora, ela apenas provara que esta regra estava certa.
       Mel havia feito uma investigao completa no bairro de Rose, interrogando as pessoas que j tinham sido entrevistadas pela polcia. E, como a polcia, ela 
acabara com trs diferentes descries do carro que ficara estacionado a meio quarteiro de distncia do apartamento de Rose. Conseguira tambm quatro descries 
notadamente diversas de um "elemento suspeito".
       O termo provocou-lhe um leve sorriso. Era to "detetivesco". Ela, sem dvida, aprendera que a vida era muito mais tediosa do que a fico. Na realidade, o 
trabalho investigativo consistia' em montanhas de papis para preencher, horas sentada num carro parado lutando contra o tdio enquanto se esperava que algo acontecesse, 
fazer um telefonema atrs do outro, falar com pessoas que no queriam falar. Ou, quase sempre pior, pessoas que falavam demais e no tinham nada a dizer.
       E, de vez em quando, havia a excitao extra de ser intimidada por uma "gravata" aplicada por um gorila de quase duzentos quilos.
       No entanto, Mel no trocaria isso nem por uma montanha de ouro.
       Mas do que serviria isso, ela perguntou-se, o que adiantava ganhar a vida fazendo o que se gosta, e ter o talento para se fazer um bom trabalho, se no podia 
ajudar uma amiga? No existiram muitos amigos em sua vida com os quais ela pudesse contar, como acontecia com Rose e Stan. Eles tinham lhe dado alguma coisa apenas 
pelo fato de estarem presentes, de compartilhar David com ela. A conexo com uma famlia que sempre lhe faltara.
       Ela seria capaz de andar em brasas para trazer David de volta para eles.
       Depois de deixar a nota de despesas de lado, Mel pegou uma pasta que no sara da sua mesa nos ltimos dois meses. Havia uma etiqueta pregada na capa com 
todo cuidado, com o nome David Merrick, e seu contedo era tristemente escasso.
       Todas as estatsticas vitais da criana estavam ali: o peso, altura e cor... Mel tinha as impresses digitais das mos e dos ps. Sabia seu tipo sangneo 
e estava ciente da minscula covinha no lado esquerdo de sua boca.
       Porm, os relatrios no diziam que a covinha aprofundava-se lindamente quando ele ria. No podiam descrever o som contagiante daquele riso, ou a sensao 
provocada quando ele pressionava aquela boquinha macia e suave num beijo. No informava como os lindos olhinhos castanhos brilhavam quando ele era erguido para o 
alto, brincando de avio.
       Mel sabia o quanto estava se sentindo vazia, triste e amedrontada. Exatamente como sabia que; mesmo se multiplicasse suas emoes por um milho, no chegaria 
nem perto do que Rose estava sentindo a cada hora de cada dia.
       Abriu a pasta e retirou a foto de David aos seis meses. Havia sido tirada num estdio fotogrfico especializado, apenas uma semana antes do seqestro. Ele 
estava sorrindo para a cmera,o queixo rechonchudo dobrado num sorriso, enquanto segurava o ursinho amarelo que Mel havia lhe dado no dia em que Rose sara da maternidade. 
Os cabelos de David j estavam ficando mais espessos e adquirindo uma cor avermelhada, como os da me.
       - Ns vamos encontr-lo, benzinho. Vamos encontr-lo e lev-lo para casa, logo, logo. Eu prometo.
       Tornou a guardar a foto na pasta, rapidamente. Tinha de fazer isso, se quisesse ter alguma esperana de agir de modo frio e profissional. Ficar se lamentando 
em cima da foto no ajudaria David, do mesmo jeito que no ajudaria contratar um mdium com uma boca sensual e uns olhos fantasmagricos.
       Ah, como aquele sujeito a deixara irritada! Irritada desde o alto da cabea at a ponta dos ps, e em cada centmetro no meio disso. Aquela expresso no rosto 
dele, aquele sorrisinho meio de desprezo, meio de zombaria, deram-lhe vontade de plantar um soco bem certeiro em sua boca.
       E a voz, insinuante, com um leve sotaque irlands, obrigou-a a ranger os dentes de raiva. Havia uma fria e distante superioridade na maneira como ele falava. 
Exceto quando falou com Rose, Mel lembrou-se. Com Rose ele fora gentil, delicado e demonstrara uma pacincia infatigvel.
       Estava apenas armando a arapuca, Mel disse a si mesma, e pulou sobre uma pilha de catlogos telefnicos para chegar at a mini cozinha, onde uma geladeira 
guardava um estoque monstruoso de refrigerantes, todos entupidos de cafena. Ele estivera apenas enganando Rose, oferecendo-lhe esperana sem ter o menor direito 
de fazer isso.
       David seria encontrado, mas atravs de um trabalho policial lgico e meticuloso. No por algum vidente de meia-tigela usando botas de seiscentos dlares.
       Mel estava justamente bebendo um longo gole do refrigerante quando aquelas mesmas botas entraram pela sua porta.
       - Ela no falou nada, apenas continuou recostada no batente, a garrafa na boca e os olhos lanando minsculos dardos esverdeados. Sebastian fechou a porta 
cuja placa informava "Investigaes Sutherland", e olhou lentamente em volta.
       No que dizia respeito a escritrios, ele j vira piores. E, sem dvida, j vira melhores. A escrivaninha era do tipo usado pelo Exrcito, de metal cinza, 
resistente e funcional, mas longe de provocar algum prazer esttico. Dois arquivos de metal estavam encostados numa parede, que se beneficiaria muito de uma mo 
de tinta. Havia duas cadeiras, uma forrada com um roxo lgubre, outra com uma estampa desbotada, dispostas em cada lado.de uma frgil mesinha repleta de revistas 
velhas e toda marcada com queimaduras de cigarros. Na parede atrs deles, to deslocada quanto uma mulher elegante numa praia de surfistas, havia uma adorvel aquarela. 
representando a baa de Monterey. Inexplicavelmente, a sala toda cheirava como uma campina primaveril.
       Sebastian teve um rpido relance do cmodo logo atrs dela, e viu que era uma cozinha minscula e incrivelmente desarrumada.
       Ele no resistiu.
       Enfiando as mos nos bolsos, sorriu para ela.
       -  bem bonito.
       Mel bebeu mais um gole, depois segurou a garrafa entre os dois dedos.
       - Tem algum negcio a tratar comigo, senhor Donovan?
       - Voc tem mais uma garrafa deste refrigerante?
       Aps um breve momento, Mel encolheu os ombros e passou novamente pelos catlogos telefnicos para pegara bebida na geladeira.
       - No acho que voc tenha descido de sua montanha apenas para tomar um refrigerante.
       - Mas raramente recuso um refresco.
       Sebastian tirou a tampa assim que ela entregou-lhe a garrafa. Observou-a devagar, reparando na velha cala jeans, nas botas muito usadas, e depois voltando 
novamente para o rosto, o queixo empinado com a adorvel covinha, at chegar nos desconfiados olhos verdes.
       - Voc est encantadora hoje, Mary Ellen.
       - No me chame por este nome. - Embora ela pretendesse meramente mostrar-se firme, as palavras saram speras por entre os dentes cerrados.
       -  um nome to bonito, to antigo. - Ele inclinou a cabea, jogando a isca. - Mas, pensando bem, acho que Mel combina mais com voc.
       - O que voc quer, Donovan?
       O ar de brincadeira desapareceu.
       - Quero encontrar David.
       Ela quase caiu como um patinho. Quase. A simples afirmao foi feita num tom to sincero, to profundamente honesto que ela quase acreditou. Repreendendo-se 
mentalmente, sentou-se na beirada da mesa e olhou para ele.
       - Estamos s ns dois agora, Donovan. Portanto, vamos logo ao ponto. Voc no tem nenhum interesse nisso. Eu fiz a vontade de Rose porque no consegui encontrar 
um meio de convenc-la a no procur-lo, e porque achei que isso lhe daria um conforto temporrio. Mas conheo o seu tipo. Talvez voc seja mais astuto do que a 
maioria dos trapaceiros. Sabe como funciona, no ? "Envie vinte dlares e mudarei sua vida. Deixe-me ajud-lo a obter dinheiro, poder e sexo por apenas uma pequena 
contribuio monetria".
       Ela fez um gesto com a garrafa e continuou:
       - Mas voc no  do tipo que se contenta com trocados. Faz mais o gnero champanhe e caviar, no ? Suponho que obtenha estas pequenas alegrias entrando em 
transes nas cenas de crimes e despejando algumas pistas. Talvez at acerte de vez em quando, sorte sua. Mas no vai tirar vantagem do sofrimento de Rose e Stan. 
No vai usar O filho deles para alimentar seu ego.
       Sebastian estava apenas um pouco ofendido. Assegurou-se que no dava a mnima importncia para o que aquela garota de "boca dura" e olhos verdes pensava a 
seu respeito. A questo principal era David Merrick.
       Porm, seus dedos enrijeceram em torno da garrafa, e quando falou sua voz soou gentil demais.
       - J fez uma anlise completa do meu carter, no , Sutherland?
       - Pode apostar que sim. - A arrogncia emergia dela em ondas, quando se sentou na beirada da mesa - Assim sendo no vamos perder nosso tempo precioso. Se 
voc acha que estamos lhe devendo alguma coisa pela visita de Rose, ontem, pode mandar-me a conta. Eu providencio o pagamento.
       Sebastian ficou em silncio por um instante. Ento, ocorreu-lhe que nunca antes sentira aquele impulso de esganar uma mulher. Exceto sua prima Morgana. Agora, 
no entanto, Imaginava-se fechando as mos em volta do pescoo longo e bronzeado de Mel. E foi uma imagem bastante ntida.
       - Se voc morder a lngua,  capaz de morrer envenenada. Sebastian deixou a garrafa quase vazia sobre a mesa. Depois, vasculhando com impacincia atravs 
do caos na escrivaninha conseguiu desencavar um lpis e uma folha de papel. 
       - O que est fazendo? - ela perguntou, vendo que ele lImpava um pequeno espao e comeava a desenhar.
       - Estou fazendo um desenho. Voc me parece o tipo de pessoa que precisa de estmulos visuais para entender as coisas.
       Mel franziu a testa. Observando a facilidade com que a mo dele deslizava pelo papel, franziu ainda mais. Sempre invejara e ressentira-se das pessoas que 
conseguiam desenhar sem o menor esforo. Continuou bebendo o refrigerante, dizendo a si mesma que no estava interessada. Mas seus olhos continuavam sendo atrados 
pelo rosto que surgia nas linhas e curvas que ele ia traando.
       A despeito de si mesma, ela inclinou-se um pouco mais. Em algum ponto distante de sua mente, registrou que ele cheirava a cavalos e couro. Cavalos elegantes, 
bem cuidados e couro encerado. A profunda cor de prpura da ametista no anel dele captou-lhe a ateno. Mel ficou olhando, quase hipnotizada pela maneira como a 
pedra brilhava naquela armao de ouro. 
       Mos de artista, ela pensou vagamente. Fortes, geis e elegantes. De repente, pensou que provavelmente seriam muito macias, tambm, acostumadas a abrir garrafas 
de champanhe ou delicados botes femininos.
       - Muitas vezes fao as duas coisas ao mesmo tempo.
       - O qu? - Mais do que espantada, Mel olhou para cima e viu que ele havia parado de desenhar. Estava apenas parado, mais prximo do que ela percebera. E olhando.
       - Nada. - Os lbios dele curvaram-se, mas Sebastian irritou-se consigo mesmo por ter espiado. Simplesmente ficara curioso em saber porque ela estivera olhando 
para suas mos.- s vezes  melhor no pensar com tanta intensidade. Enquanto Mel digeria a informao, ele entregou-lhe o desenho.
       - Este  o homem que levou David.
       Ela queria rejeitar o desenho, e tambm o artista. Mas havia algo misteriosamente certo naqueles traos. Sem dizer nada, deu a volta pela escrivaninha e pegou 
a pasta de David. No interior, havia quatro retratos-falados feitos pela polcia. Mel escolheu um deles e comparou-o com a obra de Sebastian.
       O dele era mais detalhado, sem dvida. A testemunha no havia reparado naquela cicatriz em forma de "C" sob o olho esquerdo, nem nos dentes da frente separados. 
O artista da polcia no havia capturado aquela expresso de pnico fulgurante. Mas, essencialmente, os desenhos retratavam o mesmo homem, o formato do rosto, dos 
olhos, os cabelos crespos comeando a rarear.
       Ento Donovan tinha algum conhecido na delegacia de polcia, ela concluiu, tentando acalmar os nervos agitados. Conseguira obter uma cpia do desenho e depois 
enfeitara um pouco. 
       Atirou a folha de papel na mesa e sentou em sua cadeira giratria. As molas enferrujadas rangeram, quando ela se recostou para trs.
       - Por que este sujeito?
       - Porque foi o que eu vi. Ele estava dirigindo um Mercury marrom. Ano 83 ou 84. Estofamento bege. O assento de trs tem um rasgo no lado esquerdo. Ele gosta 
de msica country. Pelo menos era o que estava tocando no rdio, quando viajou com a criana. Para o leste - Sebastian murmurou, e seus olhos ficaram cortantes como 
um punhal, quando acrescentou:
       - No, para o sudeste.
       Uma das testemunhas havia relatado um carro marrom.No conseguira descrev-lo em detalhes, mas sabia que no pertencia  vizinhana, e ficara estacionado 
perto do apartamento de Rose. Por vrios dias, afirmara.
       Mas Sebastian tambm podia ter obtido esta informao da polcia, Mel lembrou a si mesma. Ela o havia desmascarado, e ele estava apenas tentando se safar 
com aquela exibio.
       Porm, e se no estivesse? Se houvesse uma chance, por mnima que fosse...
       - Um rosto e um carro. - Mel tentou parecer desinteressada, mas foi trada por um leve tremor na voz. - Nenhum nome, endereo, nem o nmero da placa?
       - Voc  um osso duro de roer, Sutherland. - Seria muito fcil detest-la, Sebastian pensou, se no pudesse ver, e sentir, o quanto ela preocupava-se com 
o beb.
       Para o inferno, pensou. Ele a detestava por princpio.
       - A vida de uma criana est em jogo.
       - David est a salvo - Sebastian falou. - Est seguro e bem cuidado. Um pouco confuso, e chora mais do que o normal. Mas ningum o machucou.
       Mel sentiu o ar queimando-lhe os pulmes. Queria acreditar... pelo menos naquilo, se no tivesse outra opo.
       - Voc no vai dizer nada disso a Rose - ela falou, num tom firme. - Ela seria capaz de enlouquecer.
       Ignorando-a, Sebastian continuou:
       - O homem que o seqestrou estava com medo. Pude sentir o cheiro. Entregou-o a uma mulher em algum lugar no... leste. - No insistiu, pois a informao exata 
acabaria aparecendo. - Ela vestiu David com um macaco e uma camisetinha listrada de vermelho. Ele estava numa daquelas cadeirinhas adaptveis ao assento do carro, 
e tinha um anel com chaves de plstico para brincar. Viajaram por quase um dia inteiro, depois pararam num motel de estrada. Havia um dinossauro na frente do motel. 
Ela alimentou David, deu-lhe um banho, e quando ele chorou ficou ninando-o at que dormisse.
       - Onde? - Mel perguntou.
       - Em Utah. - Sebastian franziu a testa. - Talvez Arizona, mas provavelmente Utah. Continuaram a viagem no dia seguinte, sempre na direo sudeste. Ela no 
est com medo. Trata-se apenas de um negcio. Eles vo para um shopping center, em algum lugar no Texas. Est muito cheio. Ela senta num banco, e um homem senta-se 
ao seu lado. Ele deixa um envelope no banco e afasta-se empurrando o carrinho de David.
       Sebastian fez uma pausa, antes de prosseguir:
       - No dia seguinte, a mesma rotina. David est cansado de viajar e assustado com tantos rostos estranhos. Ele quer voltar para sua me. Ento,  levado para 
uma casa. Uma casa grande, revestida de pedras e com muitas rvores no quintal. Sul. Tenho impresso de que  na Gergia. Ele  entregue a uma mulher que o abraa 
e chora um pouco, e a um homem que abraa a ambos. Ele tem um quarto nesta casa, com um papel de parede azul-claro, com barquinhos estampados, e um mbile sobre 
o bero, com bichinhos de circo. Eles o chamam de Eric, agora.
       Mel estava muito plida, quando conseguiu falar.
       - No acredito em nada disso.
       - No, mas h uma parte em voc que se pergunta se deveria acreditar. Esquea tudo o que voc pensa a meu respeito, Mel. Pense em David.
       - Estou pensando em David. - Ela levantou-se de repente, segurando o desenho na mo. - D-me um nome, ento. Pelo menos um maldito nome.
       - Voc acha que  assim que funciona? - ele retrucou. Pergunta e resposta? Isto  uma arte, e no um show de tev.
       Ela soltou a folha de papel, que flutuou para a mesa.
       - Est certo.
       - Preste ateno! - Sebastian deu uma pancada na mesa, forte o suficiente para que ela pulasse de susto. - Passei trs semanas em Chicago, vendo um monstro 
que cortava pessoas em fatias, o tempo todo na minha mente. Sentindo o prazer que ele sentia ao fazer isso. Utilizando tudo o que sou, tudo o que tenho para encontrlo 
antes que ele pudesse matar novamente. Se acha que no estou trabalhando rpido o bastante para satisfaz-la, Sutherland, ento o problema  seu.
       Ela recuou. No porque estivesse com medo daquela sbita exploso de raiva. Mas porque viu algo na expresso dele, alguma marca do extenuante horror pelo 
qual que ele havia passado.
       - Tudo bem. - Mel respirou fundo. - Eis aqui os fatos: eu no acredito em mdiuns, nem em magos ou feiticeiros, e muito menos em coisas que aparecem no meio 
da noite.
       Ele teve de sorrir.
       - Voc precisa conhecer a minha famlia, um dia destes.
       - Mas - ela continuou, como se ele no tivesse falado, vou usar qualquer coisa, qualquer recurso. Diabos, seria capaz  at de usar uma tbua Ouija, se isso 
ajudasse a trazer David de volta. - Pegou novamente o desenho. - .J tenho um rosto. Vou comear com isso.
       - Ns vamos comear com isso.
       Antes que Mel pudesse pensar numa resposta adequada, o telefone tocou.
       - Investigaes Sutherland. Sim,  Mel. Como esto as coisas por a, Rico?
       Sebastian observou a ateno dela aguar-se, viu o leve sorriso em seus lbios. "Ora, ela  mesmo bonita", percebeu com um misto de surpresa e irritao.
       - Ei, benzinho, voc pode confiar em mim. - Ela comeou a escrever num bloco, com uma letra ilegvel e apressada. Sim, eu sei onde fica. No  uma graa? 
- Ficou ouvindo, assentindo consigo mesma e resmungando de vez em quando. - Ora, vamos l, eu conheo as regras. Nunca ouvi falar de voc, nunca vi esta sua carinha 
linda. Vou deixar seu dinheiro no bar do O'Riley. - Fez uma pausa e riu. - S em sonhos, benzinho.
       Depois que ela desligou, Sebastian podia sentir a excitao explodindo nela em fagulhas.
       - V dar uma volta, Donovan. Eu preciso trabalhar.
       - Eu vou com voc. - Sebastian falou num impulso, e arrependeu-se quase imediatamente. E teria desistido, se a reao dela fosse um pouco menos mordaz.
       Ela tornou a rir.
       - Escute aqui, meu amigo, isso no  para amadores. E no preciso de um peso extra.
       - Ns iremos trabalhar juntos, e espero que seja por pouco tempo. Eu sei o que consigo suportar, Sutherland, mas no fao a mnima idia quanto a voc. Gostaria 
de v-Ia em ao.
       - Est querendo um pouco de ao? Mel assentiu, devagar. - Tudo bem, valento. Espere aqui mesmo. Primeiro eu preciso me preparar.
       
       
       
       
       
       
    CAPTULO 3
       
       
       
       EIa havia se arrumado, sem dvida, Sebastian pensou menos de dez minutos depois. A mulher que entrou na sala, vindo do quartinho dos fundos usando uma saia 
de couro cor de abbora da largura de um guardanapo, era o extremo oposto daquela que sara.
       E aquelas pernas eram... bem, quase um milagre.
       Ela tambm fizera alguma coisa com o rosto. Os olhos pareciam enormes e pesados. Sonolentos talvez fosse a descrio.A boca estava escura e lustrosa. Ela 
havia afofado e mexido com os cabelos que, agora, em vez de parecerem descuidados, estavam embaraados de uma forma que sugeria que ela acabara de sair da cama, 
e estava mais do que disposta a cair nela novamente.
       Duas reluzentes esferas douradas pendiam de suas orelhas, quase tocando os ombros de uma blusinha preta justa e decotada. Justa o bastante, ele pensou, para 
fazer com que qualquer homem que no estivesse em coma percebesse que no havia nada por baixo dela, exceto uma mulher.
       Sexo! A palavra acendeu-se na mente de Sebastian em letras grandes e ntidas. Aquilo era sexo selvagem, desinibido e totalmente disponvel.
       Ele tinha certeza de que estava prestes a fazer um comentrio zombeteiro, ou talvez dizer alguma coisa grosseiramente sugestiva. Mas no foi nada disso que 
lhe saiu da boca.
       - Onde, em nome de Finn, voc pensa que vai vestida deste jeito?
       Mel arqueou a sobrancelha pintada.
       - Em nome de quem?
       Sebastian ignorou a pergunta com um gesto e tentou manter os olhos afastados das pernas dela. E qualquer que fosse o perfume com que havia se banhado, provocou-lhe 
mpetos de saltar sobre ela.
       - Voc est parecendo uma...
       - . - Satisfeita, Mel sorriu e fez um giro atrevido. Este  o meu look de garota de programa. Funciona como um m. A maioria dos homens nem se incomoda 
se a garota  bonita ou no, contanto que ela deixe muita coisa  mostra e cubra o restante com algo bem apertado.
       Ele balanou a cabea. Nem queria tentar decifrar aquilo.
       - Por que est vestida assim?
       - Ferramentas de trabalho, Donovan. - Mel pegou a bolsa enorme e colocou-a no ombro. Dentro dela, carregava uma outra ferramenta de trabalho. - Se quer mesmo 
ir comigo, vamos andando. Eu explico tudo no caminho.
       No era mais excitao que Sebastian sentia nela, agora.Isto ela j havia confinado. Enquanto Mel subia no carro, e a saia deslizou mais alguns centmetros 
para cima, ele captou lampejos de antecipao e minsculos relmpagos de divertimento. O mesmo tipo de alegria que outro tipo de mulher sentiria em uma tarde de 
compras no shopping.
       Porm, Mel no era igual a qualquer tipo de mulher que ele j conhecera.
       - Ok - ela disse quando Sebastian acomodou-se no assento de passageiro. - O negcio  o seguinte.
       Ela disparou pela rua, dirigindo da mesma forma rpida e competente com que explicava.
       Estava havendo uma onda de assaltos em residncias nas ltimas seis semanas. Todos eletrnicos, aparelhos de televiso, de vdeo e equipamentos de som. Um 
bom nmero das vtimas tinha aplices de seguro da Underwriter. A polcia seguia algumas pistas, mas nada de slido. E, desde que nenhum dos assaltos havia ultrapassado 
a quantia de algumas centenas de dlares em cada residncia, certamente o caso no era uma prioridade para os investigadores da polcia.
       - A Underwriter  a empresa de seguros tpica - Mel comentou, passando direto num sinal amarelo. - O que significa que odeiam fazer os pagamentos pelos bens 
que foram roubados. Portanto, tenho trabalhado neste caso nas ltimas semanas.
       
       - Seu carro est precisando de uma reviso - Sebastian disse, quando o motor fez um barulho estranho.
       - , eu sei. Pois bem, andei investigando por a e adivinhe o que descobri? Acontece que h uns dois sujeitos vendendo aparelhos de tev e outras coisas numa 
van. Ah, mas no por aqui. Eles agem l pelos lados de Salinas ou em Soledad.
       - Como descobriu?
       Mel enviou-lhe um sorriso meigo.
       - Andando, Donovan. Andando quilmetros e quilmetros.
       A despeito de seus esforos, o olhar de Sebastian baixou-se para aquelas longas e bronzeadas pernas.
       - , aposto que sim.
       - Ento, eu tambm tenho este sujeito, um informante.
       Ele j passou por algumas experincias desagradveis com a polcia, por isso  um pouco desconfiado. Mas acho que se deu bem comigo. Talvez porque eu seja 
detetive particular.
       Sebastian tossiu e. pigarreou.
       - Ah, sim, tenho certeza que sim.
       - Ele tem algumas conexes - Mel continuou. -Tendo em vista que j cumpriu pena por invaso e assalto - explicou.
       - E alguns furtos, tambm.
       - Voc tem amigos fascinantes.
       -  uma vida interessante -- ela disse, num tom de riso. Ele me passa as informaes, eu passo a ele algumas notas. Pelo menos isso evita que ele continue 
roubando. Ele costuma ficar na regio das docas, uma rea estritamente no-turstica. H um bar ali, onde por acaso ele estava bebendo umas e outras ontem  noite. 
Comeou a conversar com um sujeito que j estava bem "alto". O meu amigo aprecia ainda mais uma bebida se outra pessoa estiver pagando.' Os dois comearam a ficar 
amigos, daquele jeito alegre dos bbados, e ele descobre que o sujeito est to animado porque acabara de receber uma carga de equipamentos eletrnicos, vinda de 
King City. Agora, como j so velhos e bons amigos, o sujeito sai com o meu informante pelos fundos do bar e o leva para um velho depsito de mercadorias. E o que 
voc acha que tem l dentro?
       - Aparelhos eletrnicos usados, a preos de liquidao.
       Ela riu, divertida.
       - Voc pega rpido, Donovan.
       - Ento, por que voc no avisa a polcia?
       - Ei, estes sujeitos podem no ser uns ladres de primeira classe, mas significam um caso danado de bom. - Ela estava sorrindo, quando diminuiu a marcha do 
carro. - Meu caso.
       - Imagino que tenha lhe ocorrido que eles possam se mostrar... pouco cooperativos.
       Quando ela tornou a sorrir, algo quente e lindo reluziu em seus olhos.
       - No se preocupe, Donovan. Vou proteg-lo. Agora, escute o que eu quero que voc faa.
       
       Quando pararam na frente do bar, poucos minutos depois, Sebastian j ouvira todo o plano. No gostou de nada que ouviu, mas era o que tinha. Sendo um homem 
sofisticado e exigente, olhou com desconfiana para o estabelecimento decadente e sombrio.
       Deprimente, pensou, mas supunha que muitos bons bares tinham uma aparncia deprimente  luz do dia. Porm, teve o pressentimento de que a aparncia daquele. 
no mudaria nada, mesmo na calada da noite.
       Era um prdio construdo com blocos de cimento, que alguma alma empreendedora decidira pintar de verde. A pintura, num tom particularmente horrendo, estava 
descascando em vrias partes e exibindo o cinzento que havia em baixo, da mesma forma que uma ferida antiga deixa  mostra a pele lvida.
       Era quase meio-dia, mas havia uns dez carros no estacionamento coberto de cascalho.
       Mel jogou as chaves na bolsa e franziu a testa para Sebastian.
       - Tente parecer um pouco menos...
       - Humano? - ele sugeriu.
       Elegante era a palavra que ela tinha em mente, mas no a usaria nem sob tortura.
       - Um pouco menos "cavalheiro do ano". E, pelo amor de Deus, no v pedir vinho branco.
       - Tentarei me conter.
       - Simplesmente dance conforme a msica, Donovan, e se sair bem.
       Enquanto seguia seus quadris rebolantes, ele no teve muita certeza disso.
       
       O cheiro do lugar assaltou-o no instante em que Mel abriu a porta. Fumaa velha, cerveja ranosa, suor ranoso. Havia um barulho retumbante vindo da jukebox 
e, embora Sebastian tivesse um gosto bastante ecltico em matria de msica, esperava :no ter de se submeter quele som ensurdecedor por muito tempo.
       Os homens alinhavam-se no balco, o tipo de homens com braos troncudos e cobertos de tatuagens. Esta arte em particular demonstrava uma forte tendncia para 
as serpentes e caveiras. Houve uma algazarra, quando quatro sujeitos de aparncia pegajosa acertaram a bola nove. Alguns levantaram a cabea, os olhos analisando 
Sebastian com um ar de escrnio sorridente, e depois se voltaram para Mel, com olhares bem mais demorados e afetuosos.
       Sebastian captou alguns pensamentos dispersos, uma tarefa fcil, desde que a mdia do Q.I. daqueles fregueses oscilava abaixo de trs dgitos. Seus lbios 
contorceram-se um pouco. Nunca imaginara que houvesse tantas formas de se descrever uma... dama.
       A dama em questo, uma das trs que ali se encontravam desfrutando da atmosfera local, atravessou o bar rebolando e empinou o traseiro coberto de couro at 
uma banqueta. Seus lbios generosos e reluzentes formavam um beicinho sensual.
       - O mnimo que voc pode fazer  me pagar uma cerveja - ela disse a Sebastian, numa vozinha sussurrante que o pegou de surpresa.
       Seus olhos estreitaram-se brevemente num aviso, e ele lembrou-se da sua fala.
       - Escute aqui, docinho de cco, j lhe disse que no foi minha culpa.
       Docinho de cco? Mel controlou o impulso de girar os olhos para o alto.
       -  claro, nunca  culpa sua. Voc vai para o xadrez, no  culpa sua. Perde cem pratas jogando pquer com seus amigos vagabundos, no  sua culpa. Uma cerveja, 
por favor? - ela gritou para o barman, e cruzou as longas, lindas pernas.
       Tentando parecer mais com um brutamontes, Sebastian levantou um dedo e sentou na banqueta ao lado dela.
       - Eu j disse... No lhe falei que aquele desgraado aprontou comigo no servio? E por que voc no larga do meu p?
       
       - Ah,  claro.
       Mel deu uma fungadela quando as cervejas foram atiradas diante deles. Quando Sebastian foi pegar o dinheiro no bolso traseiro da cala, ocorreu-lhe que a 
carteira dele provavelmente valeria mais do que todos os bens lquidos somados dos fregueses daquele bar. E que a mesma carteira estaria recheada com uma profuso 
de notas verdes, juntamente com vrios reluzentes cartes de crdito dourados.
       Ela ciciou para ele.
       Sebastian entendeu na hora, e isso deu  Mel algo em que pensar mais tarde. A mo dele hesitou, depois se abaixou.
       - Est sem dinheiro outra vez? - ela disse, num tom de desprezo. - Ora, mas isso no  timo? - Com evidente relutncia, enfiou a mo na bolsa e desencavou 
duas notas amassadas. - Voc  mesmo um fracassado, Harry.
       Harry? As rugas que se formaram na testa dele eram absolutamente autnticas.
       - Estou esperando uma bolada - ele disse. -,- No vai demorar muito.
       - Ah, sim,  claro. Voc est sempre esperando uma bolada.
       - Mel virou-lhe as costas e, bebericando a cerveja na caneca, examinou o local.
       Rico havia lhe dado.a descrio. E ela precisou de menos de dois minutos para reconhecer o sujeito que o amigo de Rico chamara de Eddie. Eddie era um sujeito 
realmente divertido, de acordo com a descrio do seu informante. Era o sujeito que trabalhava de dia, distribuindo a mercadoria para ser transportada e vendida.
       E, segundo Rico, tinha um verdadeiro "fraco" por garotas.
       Mel balanava a perna ao ritmo da msica e certificou-se de captar o olhar de Eddie. Ela sorriu, alvoroou-se e enviou sinais conflitantes.
       Seu sorriso para Eddie dizia: Ei, garanho. Estive procurando algum como voc por toda minha vida.
       Para Sebastian, que se sintonizara com ela apenas o bastante para evitar que fosse apanhado de surpresa, a mensagem era: Idiota, gordo e careca.
       Ele virou-se e tambm deu uma olhada. Careca, sim, era verdade. Mas no era apenas gordura aquilo que recheava a camiseta sem mangas. Havia um bocado de msculos 
ali, tambm.
       
       - Escute, docinho... - Sebastian pousou a mo no ombro de Mel, e ela empurrou-a.
       - J estou cansada das suas desculpas, Harry. Farta. No passam de um monte de mentiras. Voc no tem dinheiro, e j perdeu todo o dinheiro que eu tinha. 
No consegue nem somar dois mais dois quando se trata de consertar o aparelho de tev. E sabe o quanto gosto de assistir os meus programas.
       - Voc assiste tev demais.
       - Ah, que timo! - Ela estava com a corda toda, agora, e girou na banqueta para encar-lo. - Eu trabalho como uma escrava servindo mesas at meia-noite, e 
voc ainda acha ruim porque gosto de sentar na minha poltrona, esticar as pernas e assistir um pouco de tev. No custa nada assistir.
       - Vai me custar cinqenta pratas.
       Ela o empurrou, escorregando da banqueta enquanto o fazia.
       - Voc perdeu o dobro naquele maldito pquer, e uma parte era dinheiro meu!
       - J disse para largar do meu p. - Sebastian estava entrando no personagem, agora, e quase gostando. Talvez fosse por lembrar-se de que fora instrudo a 
intimid-la um pouco. - Choramingar e me atormentar, s isso que voc sabe fazer.
       - Agarrou-a pelo brao, tentando fazer um estardalhao.
       Mel atirou a cabea para trs e seus olhos iluminaram-se com um brilho de desafio. Aquela boca... sensual? Ah, sim, muito sensual, formou um biquinho e ele 
teve de esforar-se para manter-se firme em seu papel.
       - No tenho que ficar engolindo este lixo de voc - ele disse, dando-lhe uma boa sacudida, tanto para acalmar-se quanto para um efeito. - Se no gosta das 
coisas do jeito que so, pode dar o fora.
       -  melhor voc tirar as mos de cima de mim. - Mel fez com que a voz tremesse. Era constrangedor, mas necessrio.
       - J avisei o que aconteceria se voc tornasse a me bater.
       Bater nela? Bom Deus!
       - Tire j este traseiro daqui, Crystal. - Sebastian comeou a empurr-la na direo da porta, mas de repente sentiu o rosto bater contra um peito macio, 
coberto por uma camiseta suada que anunciava que seu proprietrio era bom de briga.
       - A mocinha quer que voc tire as mos de cima dela, imbecil.
       
       Sebastian ergueu os olhos at o largo sorriso de Eddie. Ao seu lado, Mel fungava o nariz ruidosamente. Esperando ter uma vantagem mais equilibrada, Sebastian 
levantou-se da banqueta, de forma que ele e o cavaleiro errante ficassem frente a frente.
       - V cuidar da sua vida.
       Eddie derrubou-o de volta na banqueta com um nico golpe.
       Sebastian tinha certeza de que iria sentir a impresso daquela marreta em seu peito por muitos anos no futuro.
       - Quer que eu o tire daqui e acabe com ele, benzinho?
       Mel enxugou os olhos pintados e pareceu considerar seriamente a idia. Hesitou pelo tempo bastante de fazer com que Sebastian suasse. .
       - No. - Pousou a mo trmula no brao de Eddie. - Ele no vale a pena o esforo. - Batendo os clios, ergueu o rosto admirado para ele. - Voc  muito gentil, 
sabia? J no existem mais cava1heiros neste mundo, com quem uma garota pode contar.
       - Por que no vem sentar-se na minha mesa? - Eddie passou o brao do tamanho de um tronco de rvore em torno da cintura dela. - Vou lhe pagar uma bebida e 
voc pode desabafar.
       -  muita bondade sua. . Mel foi rebolando ao lado dele. Querendo dar mais veracidade  cena, Sebastian fez meno de segui-los. Um dos jogadores de bilhar 
armou uma carranca e bateu com o taco na palma da mo. Devidamente alertado, Sebastian encolheu-se no final do balco e ficou bebericando a cerveja.
       
       Mel deixou-o esperando por uma hora e meia. Sebastian nem mesmo podia pedir uma segunda cerveja, seno estragaria o disfarce, e suportava os olhares desagradveis 
do barman enquanto petiscava os amendoins e fazia a metade da cerveja durar eternamente.
       Mas estava ficando farto daquilo. Sua idia de diverso no era ficar sentado num bar fedorento e presenciar um brutamontes apalpar a mulher com quem ele 
havia chegado. Mesmo se no houvesse a nenhum investimento emocional. E mesmo, ele pensou sombriamente, se a mulher ficava dando risadinhas, parecendo estar adorando 
cada momento de cada vez que aquelas mos imensas esfregavam-lhe as pernas.
       
       Seria bem feito para ela se ele decidisse sair agora mesmo, pegar um txi e deix-la por conta prpria.
       Na opinio de Mel, tudo estava correndo muito bem. Bem demais. Sir Eddie, como ela o chamava, para alegria dele, estava ficando cada vez mais embriagado. 
No completamente, mas o bastante para mostrar-se gentil e vulnervel. E estava falando um bocado. Os homens adoravam contar vantagens para uma mulher ansiosa, principalmente 
quando bebiam um pouco demais.
       Ele acabara de ganhar uns bons trocados, Eddie dissera. E talvez ela quisesse ajud-lo a gastar um pouco.
       Ela adoraria.  claro que tinha de ir para o trabalho dali a duas horas, e seu turno s terminaria  uma da madrugada, mas depois disso...
       Depois de amaci-lo bastante, Mel inventou uma histria triste. Como ela e Harry tinham ficado juntos por quase seis meses. Como ele desperdiava dinheiro 
feito gua e impedia que ela se divertisse., No estava pedindo demais. Apenas umas roupinhas bonitas e algumas risadas. E agora tudo ficara pior, ruim de verdade, 
porque seu aparelho de tev estava quebrado.
       Ela estivera economizando dinheiro para comprar um aparelho de vdeo, para que pudesse gravar os programas no horrio em que trabalhava, e agora a tev no 
funcionava mais. Pior, Harry perdera dinheiro no jogo, o dele e o dela, e agora no tinha nem mesmo os cinqenta dlares para pagar o conserto.
       - Eu adoro televiso, sabia? - Mel ficou brincando com a segunda cerveja. Eddie j estava engolindo a de nmero sete.
       - Adoro os programas que passam  tarde, com todas aquelas mulheres usando roupas maravilhosas. Ento, eles trocaram o horrio do meu turno no restaurante, 
e eu perco os captulos das novelas. No posso mais acompanhar o que est acontecendo. E, sabe de uma coisa? - Mel inclinou-se para frente, confidencialmente, de 
forma que os seios roaram de leve no brao dele. - As novelas tm umas cenas de amor. S de assistir eu fico to... excitada.
       Eddie ficou olhando a pontinha da lngua de Mel passar pelos lbios. Acreditava plenamente que tinha morrido e ido para o cu.
       - Acho que no deve ser muito divertido ver estas coisas sozinho.
       
       - Seria mais divertido assistir junto com algum. - Mel enviou-lhe um olhar que dizia que ele era o nico "algum" possvel. - Se eu tivesse um aparelho que 
funcionasse, at que seria bom. Gosto de fazer de dia, entende? Quando todo mundo est trabalhando ou fazendo compras, e a gente pode ficar... na cama. - Suspirando, 
ela passou o dedo na caneca.
       -  dia, agora.
       - , mas eu no tenho uma tev. - Ela deu uma risadinha, como se fosse uma grande piada.
       - Talvez eu possa ajud-la com isso, benzinho.
       Mel fez os olhos arregalarem-se, depois baixou as plpebras com pudor.
       - Ah, puxa,  muita gentileza sua, Eddie! Mas no posso aceitar os cinqenta dlares. No seria correto.
       - Por que gastar dinheiro num aparelho velho, afinal? Voc pode ter um novinho em folha.
       - Ah, sim. - Mel fez um muxoxo, olhando para a cerveja.
       --:- E poderia ter uma tiara de diamantes, tambm.
       - No posso fazer nada quanto  tiara, mas posso lhe arrumar um aparelho de tev.
       - Ora, pare com isso. - Mel lanou-lhe um olhar incrdulo, e deixou a mo descansar em seu joelho. - Como?
       Eddie estufou o peito macio.
       - Acontece que estou neste ramo de negcios.
       Voc vende aparelhos de tev? - Ela inclinou a cabea e fingiu um ar de fascinao. - Est brincando comigo, Eddie?
       - Ainda no. - Ele piscou. - Talvez mais tarde.
       Ela riu.
       - Ah, voc  mesmo uma figura, Sir Eddie. - Bebeu a cerveja e suspirou novamente. - Gostaria que no estivesse brincando. Se voc pudesse me arrumar uma tev, 
eu ficaria imensamente agradecida.
       Ele inclinou-se mais. Mel podia sentir o hlito de cerveja e cigarros.
       - Agradecida como?
       Mel deu um risinho e, aproximando-se da sua orelha cochichou uma sugesto que teria deixado o mundano Sebastian de cabelo em p.
       Quase sem flego, Eddie bebeu a cerveja num s gole e agarrou-lhe a mo
       
       - Ento vamos, coisinha gostosa. Vou lhe fazer uma surpresa.
       Mel acompanhou-o, sem se incomodar em olhar na direo de Sebastian. Esperava, sinceramente, que a surpresa que Eddie estava prestes a lhe fazer tivesse alguma 
relao com um aparelho de tev.
       - Para onde vamos? - perguntou enquanto ele a guiava para os fundos do prdio.
       - Para o meu escritrio, benzinho. - Uma piscadela maliciosa.
       - Eu e meus scios temos um pequeno negcio aqui atrs.
       Levou-a atravs de uma amontoado de garrafas quebradas, lixo e pilhas de cascalhos at um outro prdio de concreto, talvez da metade do tamanho do bar. Depois 
de trs rpidas batidas na porta, esta foi aberta por um homem magro, de cerca de vinte anos, usando culos de aros grossos e carregando uma prancheta.
       - Qual  o caso, Eddie?
       - A garota aqui est precisando de uma tev. - Eddie passou o brao pelo ombro de Mel e apertou: - Crystal, meu bem, este  Bobby.
       - Prazer - Bobby falou, mexendo a cabea. - Escute, Eddie, no sei se  uma boa idia. Frank vai ficar louco como o diabo.
       - Ei, eu tenho tanto direito quanto o Frank. - Eddie foi abrindo seu caminho para dentro.
       Ah, Mel pensou, e suspirou. Agora era para valer.
       As lmpadas fluorescentes do teto refletiam nas telas vazias de mais de uma dzia de aparelhos de televiso. Estas estavam lado a lado com aparelhos de CD, 
de vdeo e equipamentos de som. Numa quantidade razovel, estavam tambm amontoados alguns micro-computadores, secretrias eletrnicas, caixas de som, e um nico 
e solitrio forno de microondas.
       - Uau! - Mel bateu palmas. - Ah, puxa, Eddie! Olhe s para isso! Parece uma loja de departamentos.
       Muito confiante, e cambaleando apenas um pouco, Eddie piscou para o nervoso Bobby.
       - Ns somos um tipo de fornecedores. No vendemos a varejo, por aqui. Este  o nosso depsito de mercadorias. Fique  vontade, pode olhar tudo.
       Mantendo-se firme em seu papel, Mel foi direto para as tevs, passando as mos pelas telas como se seus dedos estivessem tocando um casaco de mink.
       - Frank no vai gostar disso - Bobby murmurou.
       - Pois se ele no souber de nada, no ter nada do que no gostar. Certo, Bobby?
       Bobby, que era muitos quilos mais magro, assentiu.
       - E claro, Eddie. Mas, trazer uma garota para c...
       - Ela  inofensiva. Belas pernas e pouco crebro. Vou lhe dar um aparelho de tev e... depois, vou dar muita sorte. Eddie afastou-se de Bobby e reuniu-se 
a Mel. - Gostou de alguma, benzinho?
       - Ah, so todas timas: timas mesmo. Voc est falando srio, Eddie? Posso escolher uma e ficar com ela? .
       - Ora,  claro que sim. - Ele deu-lhe um aperto rpido e ntimo. - Nos temos um seguro contra perdas e danos. Assim s preciso que o velho Bobby aqui diga 
que esta tev foi "danificada". E muito simples.
       - E mesmo? - Mel jogou a cabea para trs, e afastou-se dele apenas o suficiente para ficar fora de seu alcance quando fosse pegar a arma na bolsa. - Isso 
 timo, Eddie. Mas est me parecendo que o "danificado" aqui foi voc.
       Ela puxou um revlver calibre 38 niquelado.
       - Polcia! - Bobby esganiou, enquanto o rosto de Eddie se transformava numa carranca pensativa. - Que droga Eddle, ela  da polcia! 
       - Muito bem. No - ela avisou, quando Bobby se esgueirou para a porta. - Sente-se, Bobby. Aqui, no cho. E sente em cima das mos, entendeu?
       - Sua cadela! - Eddie falou num tom que, apesar de tudo, deixou Mel em guarda. - Eu devia ter sentido o cheiro de polcia!
       - Sou detetIve partIcular - ela falou. - Talvez tenha sido por isso que voc no sentiu. - Fez um gesto com a arma. Vamos l para fora, Eddie.
       - Nenhuma mulher vai me enganar, com arma ou sem arma! Ele atacou.
       - Mel no queria atirar nele. Realmente no queria. O sujeito no passava de um bandido gordo de segunda categoria, e no merecia uma bala. Ento ela virou 
o corpo, desviando-se para a esquerda e contando com sua agilidade e com a lerdeza dele induzida pela bebida. 
       
       Eddie errou o alvo e caiu de cabea numa tela de vinte e cinco polegadas. Mel no teve certeza de quem levou a pior, mas a tela rachou-se como um ovo, e Eddie 
desabou com tudo no cho.
       Ouviu um barulho atrs de si. Quando fez um giro, teve tempo de ver Sebastian passar o brao rapidamente pela garganta de Bobby. E um forte aperto obrigou-o 
a derrubar o martelo que ele estivera erguendo acima da cabea de Mel.
       - Provavelmente nem a teria amassado - Sebastian falou por entre os dentes, enquanto Bobby desabava molemente no cho. - Voc no me disse que tinha uma arma.
       - Achei que no precisava dizer. Afinal, voc  o vidente.
       Sebastian pegou o martelo e bateu-o de leve na palma da mo.
       - Tome cuidado, Sutherland.
       Ela limitou-se a encolher os ombros e deu uma olhada nas mercadorias.
       - Bela carga. Por que voc no vai chamar a polcia? Eu fico de olho nestes dois.
       - Tudo bem. .
       Sebastian tinha certeza de que seria esperar demais que ela lhe agradecesse por t-la salvado de uma contuso, ou coisa pior. Assim, o melhor que pde fazer 
foi bater a porta ao sair.
       
       Quase uma hora j havia se passado quando Sebastian se afastou e ficou observando Mel, sentada no cap do carro. Ela estava relatando os menores detalhes 
ao que parecia ser um detetive muito contrariado.
       Haverman, Sebastian lembrou-se. J havia cruzado com ele uma ou duas vezes.
       Descartou o detetive e concentrou-se em Mel.
       Ela havia tirado os brincos e ainda ficava esfregando os lbulos de vez em quando. A maior parte da maquiagem em seu rosto fora retirada com um leno de papel. 
Os lbios sem pintura e as faces naturalmente rosadas formavam um contraste devastador com os olhos grandes, de clios pesados.
       Bonita? Ele a considerara bonita?, Sebastian perguntou-se.
       Diabos, ela era linda. Sob a luz certa, sob o ngulo certo, ela era linda de morrer. Mas, de repente, poderia virar-se e ficar apenas razoavelmente atraente 
outra vez.
       Aquilo encerrava um tipo de magia estranho e perturbador.
       
       Mas ele no se importava se ela era bonita ou no, pensou. No dava a mnima para isso, pois estava zangado demais. Ela o arrastara para aquela confuso. 
Era verdade que ele prprio se oferecera para acompanh-la mas, depois disso, Mel havia estabelecido as regras e lhe dado tempo suficiente para concluir que no 
gostava destas regras.
       Ela fora para aquele depsito sozinha com um homem maior do que dois jogadores de futebol americano. E tinha uma arma. No um revolverzinho vagabundo, mas 
sim um verdadeiro canho.
       O que ela teria feito, se fosse obrigada a us-la? Ou, pior ainda, se aquela montanha de luxria trada tivesse conseguido atac-la?
       - Escute - Mel estava dizendo a Haverman - voc tem os seus informantes, eu tenho os meus. Algum me deu uma "dica". Eu apenas a segui. - Estava encolhendo 
os ombros com indiferena mas estava adorando tudo aquilo. - Voc no tem queixa nenhuma contra mim, tenente.
       - Quero saber quem lhe passou a informao, Sutherland. Para Haverman, era uma questo de princpios. Afinal, ele era um policial de verdade. E Mel no somente 
era uma detetive particular, como tambm uma. mulher. Isso o fazia ranger os dentes de raiva.
       - S que eu no sou obrigada a lhe dizer. - Mel teve de conter um sorriso ao ter uma idia to bela quanto inspirada. - Mas, desde que somos velhos amigos, 
vou lhe dar um indcio. - Apontou o dedo na direo de Sebastian. - Foi ele.
       - Sutherland... - Sebastian comeou.
       - Ora, Donovan, que mal pode haver? - Desta vez ela sorriu e envolveu-a na tramia. - Este  o tenente Haverman.
       - J nos conhecemos.
       - claro. - Agora Haverman no estava apenas irritado, mas. tambm reduzido a zero. Mulheres e videntes. Onde o cumprimento da lei iria parar, daquele jeito? 
- No pensei que voc tambm se envolvesse em casos de aparelhos eletrnicos roubados.
       - Uma viso  uma viso - Sebastian respondeu complacente, e obteve o aplauso de Mel.
       - Ento por que passou a informao para ela? - Haverman no engoliu muito bem a histria. - Voc sempre procura a polcia.
       
       - ... - Sebastian lanou um olhar para Mel por cima do ombro. - Mas as pernas dela so mais bonitas.
       Mel riu com tanto gosto que quase caiu do carro. Haverman resmungou mais um pouco e depois se afastou pisando duro. Afinal, ele pensava, tinha dois suspeitos 
nas mos, e se tentasse dar um "aperto" em Donovan seu chefe acabaria interferindo no caso.
       - Muito bem, espertinho. - Mel deu um soco amigvel no ombro de Sebastian. - Eu no sabia que voc tinha este dom.
       Ele simplesmente arqueou a sobrancelha.
       - Voc se surpreenderia ao saber os muitos dons que eu possuo.
       - , est certo. - Mel virou a cabea a fim de ver Haverman entrar no carro. - O tenente no  um mau sujeito. Apenas acha que o lugar de um detetive particular 
 num livro de fico, e que o lugar das mulheres  na cozinha. - Porque o sol estava to quente e agradvel, e a tarefa fora to bem-feita, ela contentou-se em 
ficar ali por mais alguns minutos e aproveitar o pequeno triunfo. - Voc se saiu muito bem... Harry.
       - Obrigado, Crystal - ele disse, e tentou ocultar um sorriso.- Agora, eu agradeceria se na prxima vez voc me deixar a par do plano inteiro, antes de comearmos. 
       - Ah, no creio que haja uma prxima vez to cedo. Mas foi divertido.
       - Divertido. - Sebastian repetiu a palavra devagar, compreendo que era exatamente isso que ela queria dizer. - Voc gostou mesmo, no ? De vestir-se como 
uma rameira, de fazer um escndalo no bar e de ter aquele monte de msculos babando em voc.
       Mel enviou-lhe um sorriso meigo.
       - Tenho direito a alguns benefcios trabalhistas, no tenho? - E imagino que foi divertido quase ter a cabea rachada por um martelo.
       - "Quase"  o segredo. - Sentindo-se mais gentil com ele, Mel deu uma palmadinha em seu brao. - Vamos l, Donovan, relaxe. Eu j disse que voc se saiu bem.
       - Esta, eu suponho,  a sua maneira de me agradecer por ter salvado sua cabea dura.
       - Ei, eu teria dado um jeito em Bobby, mas agradeo muito o seu reforo. Est bem assim?
       
       - No. - Sebastian bateu com as mos no cap do carro, nos dois lados dos quadris dela. - No est nada bem. Se esta foi uma amostra de como voc conduz os 
seus negcios, teremos de estabelecer algumas regras.
       - Eu j tenho as minhas regras. Minhas. - Os olhos dele estavam agora com uma cor de fumaa, Mel pensou. No o tipo de fumaa que ficava pairando no teto 
sujo daquele bar, mas sim a fumaa que se eleva para a noite vinda de uma fogueira trepidante. - Agora, saia daqui, Donovan.
       Venha me obrigar. Sebastian detestou, no, odiou, o fato de que aquela frase infantil e sarcstica foi a primeira coisa que lhe ocorreu. Ele no era unia 
criana. E tampouco ela, sentada ali, desafiando-o com o olhar insolente e o meio sorriso dos lindos lbios.
       Ele cerrou o punho direito. Sentia a tentao de dar um belo soco naquele queixo arrogante. Porm, a boca lhe pareceu um alvo melhor. E Sebastian tinha uma 
idia bem mais gratificante sobre o que poderia fazer com aquela boca.
       Puxou-a do cap com tal rapidez que Mel no teve tempo de usar nenhum dos golpes de defesa que j eram uma segunda natureza para ela. Ainda estava piscando 
quando os braos dele enlaaram-na, quando uma das mos espalmou-se firmemente em sua nuca.
       - O que diabos voc pensa que...
       Isso foi tudo. As palavras foram completamente apagadas do seu crebro no instante em que os lbios dele colaram-se aos seus. Mel no o empurrou, nem girou 
o corpo para o lado a fim de jog-lo por cima do ombro. No lhe deu uma pancada com o joelho, de um jeito que o derrubaria na hora, ofegando. Simplesmente permaneceu 
ali, desfrutando as sensaes maravilhosas que aquele beijo desencadeava.
       Sebastian lamentava que ela o tivesse provocado a ponto de lev-lo alm de suas prprias regras. Sair por a agarrando mulheres relutantes no estava em sua 
lista de coisas a fazer. E lamentava muito, porque ela no tinha o sabor que ele estava certo que teria. Uma mulher com a personalidade de Mel deveria ter um gosto 
avinagrado. Deveria provocar uma sensao azeda e irritante.
       Ah, mas ela era to doce...
       
       Mas no foi em acar que ele pensou, nem o tipo de doce pegajoso que vinha embrulhado num papel dourado. Foi em mel, rico, espesso, o mel silvestre que d 
vontade de lamber com os dedos. O tipo que, mesmo quando criana, ele jamais fora capaz de resistir.
       Quando ela entreabriu os lbios para os dele, Sebastian mergulhou mais fundo. Querendo mais. .
       As mos dele no eram to macias. Este foi o primeiro pensamento que se atropelou no crebro de Mel. Eram firmes e fortes, e apenas um tantinho speras. Ela 
podia sentir aqueles dedos pressionados em sua nuca. E sua pele parecia estar ardendo em fogo.
       Sebastian puxou-a mais contra si, de maneira que seus corpos formaram uma nica sombra no piso de cascalho. Com as sensaes fervilhando dentro de si Mel 
atirou os braos em torno dele, retribuindo desejo com desejo.
       Estava diferente, agora. Mel pensou t-lo ouvido praguejar baixinho antes de mudar o ngulo do beijo, os dentes arranhando-lhe os lbios e quase a fazendo 
gritar diante do rpido fluxo de prazer. Ela sentia o corao latejando em sua cabea, ecoando nos ouvidos como um trem disparando por um tnel.
       Este iria atravessar o tnel a qualquer momento, irrompendo para dentro da noite, e ento ela iria...
       -Ei!
       O grito nem mesmo foi registrado. O movimento dos lbios de Sebastian sobre os seus, sim, um movimento que primeiro foi o seu nome, e depois outro murmrio.
       -Ei!
       Sebastian ouviu o grito, e o barulho de passos no cascalho. Teria cometido um assassinato sem o menor problema. Mantendo o brao em torno da cintura de Mel 
e a mo firme em sua nuca, ele virou a cabea e deparou-se com um rosto cinzento sob um bon de um time de beisebol.
       - V embora - ordenou, quase num rugido. - D o fora daqui.
       - Escute, amigo, s quero saber por que o bar est fechado.
       - Porque acabou a vodca. - Sebastian j podia sentir Mel se afastando, e teria soltado um palavro se achasse que adiantaria alguma coisa.
       - Ora, que inferno, eu estava querendo apenas uma cerveja! Tendo obtido sucesso em estragar o "clima", o f de beisebol subiu numa velha picape e foi embora.
       Mel cruzou os braos no peito, apertando-os como se estivesse enfrentando um vento gelado.
       - Mary Ellen... - Sebastian comeou.
       - No me chame assim. - Cambaleante, ela virou-se de repente e recostou contra o carro.
       Seus lbios estavam vibrando. Ela queria pressionar a mo contra eles para faz-los parar, mas no se atreveu. Sentia o sangue pulsar no pescoo num ritmo 
rpido, saltitante. Queria que isso tambm parasse; que diminusse e se estabilizasse at que estivesse normal como deveria estar. ' Meu Deus, pensou. Meu Deus. 
Ela se entregara completamente aos beijos, praticamente atirara-se sobre ele. Deixara que ele a tocasse.
       Sebastian no a tocava, agora, mas dava a impresso de era algo que gostaria de fazer. O orgulho a impedia de sair do lugar, mas ela preparou-se, pronta para 
bloquear um novo assalto aos seus sentidos.
       - Por que fez isso?
       Ele resistiu ao impulso de penetrar na mente dela e ver o que ela realmente estava sentindo, de comparar com o que estava acontecendo dentro de si mesmo. 
Mas j havia se aproveitado de uma vantagem injusta.
       - No fao a menor idia.
       - Bem, ento no tenha mais nenhuma idia.
       Mel ficou surpresa com a dor que a resposta dele lhe provocou. Mas o que esperava?, perguntou-se. Que ele dissesse que fora incapaz de resistir aos seus encantos? 
Que ficara cego de paixo? Ela empinou o queixo.
       - Posso at agentar ser apalpada quando estou de servio, mas no no meu tempo livre. Est claro?
       Os olhos dele faiscaram. Ento, com mais controle do que ela poderia ter imaginado, Sebastian ergueu as mos, com as palmas para frente.
       - Est claro - repetiu. - Sem mos.
       - Tudo bem, ento. - No iria criar um caso por isso, Mel decidiu enquanto vasculhava a bolsa  procura das chaves. O assunto estava encerrado, e no significara 
nada, para nenhum dos dois. - Preciso voltar, fazer uns telefonemas.
       Quando Sebastian deu um passo a frente, e levantou a cabea em alerta, como se fosse um cervo pressentindo a presena de um lobo.
       - S vou abrir a porta para voc - ele disse, embora descobrisse que a reao dela no o desagradara nem um pouco.
       - Obrigada - Mel entrou no carro e fechou a porta. Teve de limpar a garganta para ter certeza de que a voz soaria indiferente. - Entre logo, Donovan. Tenho 
muito que fazer.
       - Uma pergunta - ele disse, depois de escorregar para o assento ao lado dela. - Voc costuma comer?
       - Na maioria das vezes quando estou com fome. Por qu?
       Havia uma expresso de cautela nos olhos dela, que Sebastian estava adorando.
       - Tendo em vista que tudo o que comi at agora foram amendoins, eu estava pensando em algo mais substancioso. Que tal pararmos em algum lugar? Eu lhe pago 
um hamburger.
       Ela franziu a testa por um momento, pensando os prs e contras da sugesto.
       - , at que eu gostaria de um hamburger - decidiu - mas vamos dividir a conta.
       - Ele sorriu e recostou no assento.
       - Voc  quem manda, Sutherland.
       
       
       
    CAPTULO 4
       
       
       
       Mel passou a maior parte da manh batendo de porta em porta na vizinhana de Rose, com o desenho que Sebastian fizera. No incio da tarde, o resultado obtido 
foram trs identificaes positivas, quatro oferecimentos de caf e uma proposta indecente.
       Uma das identificaes positivas tambm havia corroborado a descrio do carro feita por Sebastian, incluindo a porta amassada. E isso provocou em Mel uma 
sensao bastante incmoda.
       Mas no impediu que continuasse investigando. Havia um nome em sua lista que ainda a importunava. Mel tinha um palpite de que a senhora O'Dell, do apartamento 
317, sabia mais do que estava dizendo.
       Pela segunda vez naquele dia, Mel bateu na porta pintada de marrom e limpou os ps no tapetinho cor de grama com uma margarida branca no meio. Vindos do interior 
do apartamento, ela ouvia crianas choramingando e os aplausos animados de um programa de jogos na tev.
       Como j acontecera antes, a porta abriu-se por alguns centmetros, e Mel olhou para baixo, vendo o rostinho sujo de chocolate de um menino.
       - Ol. Sua me est em casa?
       - Ela no me deixa falar com estranhos.
       - Est certo. Ento  melhor voc ir cham-la.
       Batendo o p calado de tnis contra o batente da porta, o garoto parecia considerar a idia.
       - Se eu tivesse um revlver, podia dar um tiro em voc.
       - Ento acho que hoje  o meu dia de sorte. - Mel ajoelhou-se, ficando frente a frente com o menino. - Pudim de chocolate, certo? - perguntou, analisando 
as manchas em torno de sua boca. - Voc se sujou quando estava lambendo a colher, depois que sua me fez o pudim
       - ... - Ele mudou o peso do corpo e passou a encar-la com um pouco mais de interesse. - Como foi que adivinhou?
       - Elementar, meu caro amigo. As manchas so bem recentes, e est muito perto da hora do almoo para que sua me o deixasse comer um prato inteiro.
       O garoto inclinou a cabea.
       - E se eu tivesse comido escondido?
       - Pode ser - Mel concordou. - Mas, neste caso, teria sido uma burrice no lavar as evidncias.
       Ele comeava a sorrir quando a me apareceu por trs.
       - Billy! J no lhe disse para no atender a porta? Puxou-o com uma s mo, enquanto a outra segurava no colo uma menina de olhos lacrimosos. A senhora O'Dell 
lanou um olhar impaciente para Mel. - O que est fazendo aqui outra vez?
       Eu j lhe contei tudo o que sabia.
       - E foi de grande ajuda, senhora O'Dell. Na verdade, a culpa  toda minha. Apenas estou tentando organizar as informaes que recebi -Enquanto falava, Mel 
ia entrando na sala atulhada. - Detesto ter de incomod-la outra vez, principalmente depois que a senhora se mostrou to disposta a cooperar.
       Mel quase engasgou com o que disse. A senhora O'Dell tinha sido desconfiada, antiptica e reticente. Do mesmo jeito, pensou enquanto aumentava seu sorriso 
de desculpas, que seria agora.
       - J olhei o seu desenho. - A senhora O'Dell ajeitou a criana nos quadris. - J disse tudo o que sei. Exatamente como contei  polcia.
       - Eu sei. E tenho certeza de que estas constantes interrupes no seu dia to ocupado so muito inconvenientes. Mel desviou-se de um peloto de soldadinhos 
de plstico que tinham sido atacados por um caminho de bombeiros em miniatura. - Mas, a senhora entende, a janela da sua sala fica exatamente na frente do local 
onde se supe que o carro suspeito esteve estacionado.
       A senhora O'Dell deixou a filha no cho, e a menina foi vacilando at a frente da tev, onde sentou' com um baque sobre a fralda molhada.
       - E da?
       - Bem, no pude evitar notar como as suas janelas so limpas. As mais limpas deste prdio inteiro. Sabia que se olhar da rua para c as vidraas brilham como 
se fossem diamantes?
       O elogio suavizou as rugas na testa da senhora.
       - Tenho muito orgulho da minha casa. No me importo com a baguna, pois com duas crianas  impossvel manter tudo no lugar. Mas no tolero sujeira.
       - Sim, senhora. Mas acho que para ter janelas assim a senhora precisa limp-las com bastante freqncia.  
       - Eu que o diga. Morando to perto da praia a gente recebe toda a maresia. - Com um radar materno, lanou um olhar por Cima do ombro. - Billy, no deixe a 
nen mastigar estes soldadinhos sujos. D a ela o seu caminho.
       - Mas, mame... .
       - S um pouquinho. - Satisfeita por ter sido obedecida a senhora O'Dell voltou-se novamente para Mel Onde eu estava?
       - Maresia... - Mel prontificou.
       - Ah, sim. E toda a poeira e fumaa que vm dos carros que passam na rodovia. Impresses digitais - Ela quase sorriu. - Parece que estou sempre procurando 
impresses digitais de algum.
       , Mel pensou, eu tambm.
       - Sei que deve ser muito trabalhoso manter uma casa to bem cuidada, com duas crianas pequenas.
       - Nem A todo mundo pensa assim. Algumas pessoas acham que se voc no carrega uma pasta e no pega conduo todos os dias para Ir a um escritrio, no est 
trabalhando.
       - Sempre achei que cuidar de uma casa e da famlia  a profisso mais importante que existe.
       A senhora O'Dell pegou um pano de p que se pendurava no bolso traseIro do seu short e esfregou a superfcie de uma mesa.
       - Bom...
       - E as janelas - Mel falou, trazendo-a de volta delicadamente. - Estive pensando, com que freqncia a senhora lava as Vidraas?
       - Todos os meses, religiosamente.
       - Ento deve ter uma boa viso da vizinhana.
       - No tenho tempo para ficar espionando meus vizinhos.
       -  claro que no. Mas, talvez, possa reparar em algumas coisas, por acaso.
       - Bem, eu no sou cega. Vi aquele homem por a. E j lhe disse isso.
       - Sim, a senhora disse. Mas eu pensei que, se a senhora estivesse lavando as vidraas, talvez tenha reparado na presena dele por aqui. Imagino que leve mais 
ou menos uma hora para limpar tudo...
       - Quarenta e cinco minutos.
       - Humm-humm. Bem, se ele tivesse ficado l em baixo por tanto tempo, sentado no carro, a senhora teria achado estranho, no ?
       - Ele saiu do carro e ficou andando pelas redondezas.
       - Ah? - Mel perguntou-se se deveria arriscar-se a pegar o bloco de anotaes. Era melhor falar agora e anotar tudo depois, decidiu.
       - Nos dois dias - a senhora O'Dell acrescentou.
       - Dois dias?
       - No dia em que limpei os vidros e no dia em que lavei as cortinas. Mas no dei muita importncia para isso. No gosto de me meter na vida dos outros. .
       - No, estou certa que no. - "Mas eu, sim", Mel pensou, com o corao disparando. Eu gosto. E preciso saber um pouquinho mais. - A senhora se lembra de quais 
foram os dias em que reparou na presena dele?
       - Limpei os vidros no dia primeiro, como sempre. Uns dois dias depois, percebi que as cortinas estavam um pouco encardidas, ento resolvi tir-las para lavar. 
Foi ento que vi o homem no outro lado da rua, andando pela calada.
       - David Merrick foi seqestrado no dia quatro de maio.
       A senhora O'Dell franziu a testa novamente e olhou para os filhos. Depois de verificar que estavam brincando, e no prestando ateno na conversa, assentiu.
       - Eu sei. E, como lhe disse antes, isso  de cortar o corao. Um bebezinho como aquele, sendo praticamente arrancado dos braos da me. No deixei Billy 
sair de casa sozinho durante todo o vero.
       Mel pousou a mo em seu brao, a fim de tentar um contato de mulher para mulher.
       - A senhora no precisa conhecer Rose Merrick para entender o que ela est passando. A senhora  me.
       O contato foi feito. Mel pde ver na maneira como os olhos da senhora O'Dell umedeceram-se.
       - Eu gostaria de poder ajudar. S que no vi mais nada alm disso. Lembro-me de ter pensado que este bairro deveria ser mais seguro. Que os pais no deveriam 
ter medo de deixar seus filhos atravessarem a rua para brincar com os amigos Que a gente no deveria preocupar-se todos os dias que algum pudesse aparecer de repente, 
pegar o seu filho e lev-lo embora.
       - A senhora tem toda razo. Rose e Stan Merrick no deverIam estar perguntando-se se algum dia tero o filho de volta. Algum levou David embora sra O'Dell 
Algum que ficou com o carro parado aqui mesmo, diante da sua janela. Talvez a senhora no estivesse prestando ateno na hora mas se pensar um pouco e tentar se 
lembrar... Deve ter reparado em alguma coisa, em algum detalhe sobre o carro.
       - Aquela coisa velha e feia? No prestei ateno nenhuma 
       - Era preto? Vermelho? .
       A senhora O'Dell encolheu os ombros.
       - Era sujo, isso sim. Poderia ser marrom. Ou verde, debaixo de toda aquela poeira.
       Mel tentou nova abordagem.
       - Placas de outro Estado, imagino.
       Depois de pensar por um instante, a senhora O'Dell balanou a cabea.
       - No. Acho que, neste caso, eu, teria me perguntado por que ele estava apenas sentado ali. s vezes a mente fica vagando quando se est trabalhando, e eu 
imaginei que ele estaria visitando algum, esperando at que a pessoa chegasse em casa. Depois, pensei que no devia ter vindo de muito longe, pois as placas do 
carro eram deste Estado.
       Mel disfarou a excitao e cruzou os dedos mentalmente.
       - Sabe, tem um jogo que eu sempre fazia quando era criana. Minha me e eu viajvamos muito, e ela tentava me manter ocupada. A senhora deve saber como  
viajar com crianas 
       A senhora O'Dell girou os olhos para o alto. Pela primeira vez, havia um trao de bom humor em sua expresso.
       - Ah, eu sei muito bem.
       - Eu sempre tentava formar palavras com as letras das placas. Ou inventar nomes engraados, cujas iniciais seriam estas letras. 
       - Ns fazemos a mesma coisa com Billy Ele j tem idade suficiente. Mas o nen...
       - Talvez a senhora tenha reparado no nmero da placa mesmo sem perceber, enquanto estava trabalhando. Sem nem mesmo pensar nisso, se entende o que quero dizer.
       Mel pde ver que a senhora tentou, por um instante. Seus lbios pressionaram-se, os olhos estreitaram. Ento ela fez um gesto impaciente com o pano de p, 
e tornou a fechar-se na concha.
       - Tenho coisas muito mais importantes em que pensar. Eu vi que era uma placa da Califrnia, como disse, mas no fiquei ali brincando com as letras e nmeros.
       - No  claro que no, mas s vezes a gente capta alguma coisa sem nem mesmo se dar conta. Ento, quando pensa um pouco... .
       - Srta...
       - Sutherland - Mel completou.
       - Eu gostaria de ajudar. De verdade. Meu corao est junto com aquele casal. Mas tenho o hbito de ocupar-me com minha prpria vida, sem intrometer-me nos 
assuntos dos outros. Agora, no tenho mais nada para lhe dizer, e j estou ficando atrasada. 
       Reconhecendo que no havia mais nada a fazer, Mel tirou um carto da bolsa. 
       - Se a senhora lembrar-se de qualquer coisa sobre a placa, qualquer coisa mesmo, poderia me ligar?
       Billy intrometeu-se na conversa...
       - Era cat lembrei-me, porque significa "gato"
       - Billy, no interrompa quando as pessoas esto conversando. Ele encolheu os ombros e passou o caminho de bombeiros na perna da irm, fazendo-a rir.
       - O que era "cat"? - Mel perguntou.
       - O carro. - Billi fez barulhos ImItando um motor. - "k-a-t", que forma "cat".
       A me suspirou. 
       - "cat"  com C, no com K.  "c-a-t". No acredito que voc j est na segunda srie e ainda no...
       Mel encostou a mo no brao da senhora O'Dell.
       - Por favor - murmurou, e abaixou-se na frente de Billy.
       - Voc viu o carro l em baixo, Billy, o carro sujo e marrom?
       - Vi, sim. Quando voltei da escola, o carro estava l. Era o dia da me de Freddy me buscar na escola, e ela parou bem atrs do carro. Eu no gosto de ir 
com Freddy, porque ele me belisca.
       - E voc fez o jogo das letras com a placa do carro marrom?- Mel perguntou.
       - Sim, eu gosto quando formam palavras. Como "cat".
       - E tem certeza de que era o carro marrom? No era outro carro, que viu no caminho da escola?
       - No, porque aquele ficou parado a na frente durante a semana inteira que a me de Freddy me trouxe para casa. s vezes estava no outro lado da rua. Quando 
foi a vez de mame nos levar, o carro j tinha ido embora.
       - Voc se lembra dos nmeros, Billy?
       - Eu no gosto dos nmeros, gosto mais das letras. "K-a-t" - ele repetiu. Depois, olhou para a me. - Se isso no forma "cat", ento que palavra forma?
       Com um sorriso, Mel beijou o rostinho sujo de chocolate.
       - Desta vez, forma "obrigada". Muito obrigada, Billy.
       
       Mel estava praticamente cantando, quando voltou para a Investigaes Sutherland. Conseguira alguma coisa. Mesmo sendo apenas metade da identificao da placa, 
e mesmo que a informao tivesse vindo de um garotinho de seis anos, ela conseguira alguma coisa.
       Acionou a secretria eletrnica e foi para a cozinha pegar um refrigerante. Seu sorriso satisfeito permaneceu, enquanto ouvia as mensagens.
       Trabalho investigativo srio e constante, disse a si mesma. Era assim que se obtinha resultados. A persistncia no fazia mal a ningum. Ela no imaginava 
que a polcia tivesse conseguido chegar nem perto de Billy O'Dell, ou que o considerasse como uma testemunha vlida.
       Trabalho investigativo slido, persistncia e palpites. Mel acreditava em palpites, da mesma forma que acreditava que faziam parte da personalidade de um 
investigador. Porm, isso estava bem longe das vises medinicas.
       Seu sorriso transformou-se numa careta, quando pensou em Sebastian. Talvez ele tivesse dado sorte com o desenho e a descrio do carro. Mas, talvez, fosse 
o que ela havia pensado antes: algum que ele conhecia no departamento de polcia lhe passara a informao.
       Mel no se importaria nem um pouco de esfregar aquela nova informao no nariz dele.
       No que ele fosse to mau assim, pensou, sentindo-se caridosa. Fora at simptico, quando almoaram aquele hambrguer no dia anterior. No tentara mais nenhuma 
aproximao, pois, se o fizesse, ela teria cortado o mal pela raiz. E tampouco ficara fantasmagrico.
       Na verdade, lembrou, eles tinham conversado. Principalmente sobre livros e filmes, eternos assuntos de conversa. Mas, com ele, fora muito interessante. Quando 
Sebastian no estava irritando-a, tinha uma voz bem agradvel, com aquele leve sotaque irlands.
       Um sotaque que havia se intensificado quando ele sussurrara em seu ouvido, os lbios deslizando sobre os seus.
       Mel afastou a lembrana, irritada. No iria pensar nisso. J fora beijada antes e no tinha nada contra essa prtica. S que preferia escolher sua prpria 
hora e lugar.
       E se a sua reao no fora to intensa, era porque ele a tomara completamente de surpresa.
       Isso tambm no tornaria a acontecer.
       Na verdade, do jeito que iam as coisas, ela no precisaria mais de Sebastian Donovan e seus passes de mgica. Mel tinha alguns contatos no Departamento de 
Veculos Motorizados e, assim que ligasse com os dados parciais da placa, iria...
       Seus pensamentos perderam o rumo, quando a voz de Sebastian flutuou pela secretria eletrnica.
       - "Ah, Sutherland, pena que voc no est a. Saiu para caar bandidos, imagino." 
       Ela fez uma careta para o aparelho. Uma reao imatura, reconheceu imediatamente. Mas o riso na voz dele exigia algum tipo de reao.
       - "Achei que voc poderia se interessar por uma informao nova. Estive me concentrando no carro. O pneu esquerdo traseiro est quase careca, e isso poderia 
causar problemas ao sujeito porque o estepe est furado."
       - Ah, me poupe, Donovan - ela murmurou. Levantou-se decidida a desligar o aparelho e a voz. ' - "A propsito, o carro tem placas da Califrnia. KAT 2544." 
Mel ficou boquiaberta, enquanto seu dedo hesitava sobre o boto de desligar.
       - "Pensei que talvez, a partir deste pequeno detalhe voc seja capaz de realizar sua mgica de detetive. Conte-me tudo o que descobrir, est bem, querida? 
Estarei em casa esta noite. Boa caada... Mary Ellen".
       - Criatura odiosa! - Mel rangeu os dentes e apertou o boto.
       
       Ela no gostava daquela situao. No gostava nem um pouco, mas diminuiu a marcha e comeou a subir a estreita e esburacada estrada para a casa de Sebastian. 
Nem por um minuto acreditava que ele tivesse sonhado com o nmero da placa, ou qualquer que fosse o termo que usavam para isso. Mas, desde que ele lhe passara a 
informao, sentia-se na obrigao de contar-lhe o que descobrira.
       Quando chegou no fim da estrada, estava dividida entre o entusiasmo pelo progresso que obtivera, e a irritao por ter de lIdar com ele novamente. Mas seria 
estritamente profissional, prometeu a si mesma quando parou entre uma motocicleta Harley de aparncia vigorosa e uma minivan de modelo antigo.
       Depois de subir a escada da varanda, deu uma rpida batida na porta. A argola de bronze que usou para bater tinha o formato de uma cabea de lobo, com os 
dentes  mostra. Intrigada, ficou brincando com o artefato enquanto esperava. Quando no houve resposta, Mel fez o que era muito natural para ela. Espiou pela janela.
       No viu ningum, apenas a ampla sala de um lado e uma magnfica biblioteca do outro. Se sua conscincia tivesse permitido, ela viraria as costas e iria embora. 
Porm, isso seria tanto um ato de covardia quanto de futilidade. Assim, desceu novamente a escada e comeou a fazer a volta pela casa.
       Mel avistou-o no lado de dentro de um cercado para cavalos com o brao em torno da cintura de uma loira esguia que usava cala Jeans, numa atitude muito ntima. 
Estavam rindo e o som que produziam juntos parecia to ntimo quanto a sua postura.
       Um sbito lampejo de calor deixou-a atordoada. Mel no dava a mnima se ele tivesse uma mulher. No se importava nem se ele tivesse um harm. Era problema 
dele.
       Mas o fato de que num dia ele podia levar uma mulher  loucura com um beijo, e no dia seguinte estar agarradinho com outra, revelou a Mel o tipo de homem 
que Sebastian Donovan realmente era.
       Um monstro.
       Apesar disso, ela agiria de maneira estritamente profissional. Enfiando as mos nos bolsos, seguiu com passos firmes atravs do gramado at aproximar-se do 
cercado cuja madeira era esbranquiada, desbotada pelo tempo.
       - Ei, Donovan!
       Os dois viraram-se, o homem e a mulher. Mel podia ver que a garota no era apenas esguia e loira, mas tambm muito bonita. Absolutamente linda e adorvel, 
com tranqilos olhos cinza-azulados e lbios cheios e suaves, que j se abriam num sorriso.
       Mel sentiu-se como um enorme vira-lata deparando-se com dois belos exemplares de raa pura.
       Enquanto afastava tal idia, viu Sebastian murmurar alguma coisa para a mulher, beij-la na testa e depois se adiantar para recostar na cerca.
       - Como tem passado, Sutherland?
       - Recebi seu recado.
       - Imaginei que sim. Ana, esta  Mel Sutherland, detetive particular. Mel, Anastsia Donovan. Minha prima.
       -  um prazer conhec-la. - Ana estendeu a mo quando Mel aproximou-se da cerca. - Sebastian me contou sobre o caso em que vocs esto trabalhando. Espero 
que encontrem logo o beb.
       - Obrigada. - Mel aceitou a mo estendida. Havia algo extremamente calmante naquela voz, no toque, que fez com que metade de sua, tenso desaparecesse. - 
Estou fazendo alguns progressos.
       - Os pais da criana devem estar desesperados.
       - Esto com medo, mas conseguindo suportar.
       - Tenho certeza de que  muito bom para eles saber que podem contar com algum que se preocupa e tenta ajudar. Anastsia afastou-se um pouco, desejando poder 
fazer alguma coisa. Mas, como Sebastian, ela aprendera que no podia ser tudo para todas as pessoas - Acho que vocs tm negcios a tratar - acrescentou.
       - No quero interromper - Mel olhou de relance para Sebastian e  depois, por cima do ombro dele na direo dos cavalos. Uma rpida expresso de prazer refletiu-se 
em seu rosto, antes de voltar-se novamente para ele. - S preciso de um minuto.
       - No, fique  vontade - Graciosa como uma gazela, Ana saltou por cima da cerca . - Eu estava de sada. Voc vai ao cinema amanh  noite, Sebastian.
       - De quem  a vez de escolher?
       - De Morgana. Ela disse que est fim de mistrios, portanto vamos assistir um filme policial.
       - Encontro vocs no cinema - Sebastian inclinou-se sobre a cerca, para dar-lhe mais um beijo. Obrigada pelas ervas que voc trouxe.
       - s ordens.  E bem-vindo ao lar. Foi um prazer conhec-la, Mel.
       - O prazer foi meu. - Mel afastou os cabelos dos olhos e observou Anastcia cruzar o gramado.
       - E, ela e adorvel, no acha? Sebastian falo alegremente. - E  to bonita por dentro quanto por fora.
       - Vocs parecem muito chegados, para primos
       Ele sorriu.
       - Sim, ns somos. Ana, Morgana e eu passamos uma boa parte da infncia juntos, aqui e na Irlanda. E,  claro, quando se tem algo em comum, algo que nos diferencia 
do que  considerado normal, h uma tendncia para que se fique ainda mais unido.
       Arqueando a sobrancelha, Mel virou-se para ele.
       - Quer me fazer acreditar que ela tambm  vidente?
       - No exatamente. Ana possui outro tipo de talento. - Sebastian estendeu a mo para ajeitar os cabelos dela. - Mas voc no veio aqui para falar sobre a minha 
famlia . 
       - No - Mel mudou de posio apenas o bastante para ficar fora do alcance dele, e tentou pensar numa maneira menos humilhante possvel de lhe agradecer. Eu 
chequei o nmero da placa. E j havia conseguido a metade, quando recebi seu recado.
       - Ah!
       - Encontrei uma testemunha. - De jeito nenhum ela iria admitir o trabalho que tivera para obter aquelas trs letrinhas. - Bem, de qualquer forma, liguei para 
meu contato no Departamento de Veculos, e ele verificou.
       - E...
       - O carro est registrado no nome de um certo James T. Parkland. O endereo  em Jamesburg. - Apoiando o p calado de bota na cerca mais baixa, ela recostou 
no cercado enquanto a brisa esvoaava seus cabelos. Gostava do cheiro de cavalos. E apenas olh-los de longe j fazia com que se sentisse relaxada. - Fui de carro 
at l. Ele havia escapulido. A dona do apartamento mostrou-se bastante comunicativa, considerando-se que ele ficou devendo dois meses de aluguel.
       A gua caminhou at o cercado e cutucou o ombro de Mel. Num gesto automtico, ela levantou a mo e afagou o focinho branco e lustroso.
       - Consegui um bocado de informaes sobre o nosso James.
       Ele  o tipo de sujeito que atrai problemas. Tem uma boa aparncia mas, de acordo com a senhoria, estava sempre de bolsos vazios. No entanto, sempre parecia 
conseguir alguns trocados para comprar cerveja. A mulher admitiu ter adquirido um interesse... maternal... por ele, mas tenho um palpite de que a coisa no era assim 
to platnica. Do contrrio, ela no estaria to furiosa.
       - Dois meses de aluguel - Sebastian lembrou-a, observando a maneira como Mel acariciava o animal.
       - No, era mais pessoal. Ela falava naquele tom amargo que as mulheres usam quando foram passadas para trs.
       Sebastian inclinou a cabea para o lado, confiando na intuio de Mel.
       - E isso fez com que ela ficasse mais disposta a falar... para algum que estivesse disposto a ouvir.
       - Pode ter certeza disso. Ela disse que James gostava de jogar. Apostava principalmente em modalidades esportivas, mas qualquer tipo de jogo serviria. Ele 
meteu-se em srias encrencas nos ltimos meses, e comeou a receber visitantes bem estranhos. - Mel lanou um olhar para Sebastian. - Do tipo que tem nariz quebrado 
e um volume sob o palet do terno, onde a arma estraga o caimento. James tentou arrancar alguns trocados da nossa amiga, mas ela disse que estava "quebrada". Ento, 
ele contou-lhe que descobrira um jeito de safar-se de tudo aquilo de uma vez por todas. Nos ltimos dias em que esteve l, parecia muito nervoso, excitado e agitado. 
Depois, desapareceu. A ltima vez em que ela o viu foi uma semana antes do seqestro de David.
       - E uma histria interessante.
       
       - E me forneceu alguns dados com que trabalhar. Calculei que voc gostaria de saber.
       - Qual  o prximo passo?
       
       - Bem,  triste admitir, mas passei todas estas informaes para a polcia local. Quanto mais gente estiver procurando o nosso velho amigo James, melhor.
       Sebastian deslizou a mo pelo flanco de Psique.
       - Ele pode estar o mais longe possvel de Monterey e ainda continuar no pas.
       - Sim, eu imagino que ele...
       - No imagine. - Sebastian voltou aqueles olhos sedutores para ela - Eu sei. Ele est viajando pela Nova Inglaterra ainda nervoso demais para se instalar.
       - Escute, Donovan...
       - Quando voc examinou o quarto dele, reparou que estava faltando um puxador na segunda gaveta da cmoda?
       Ela havia reparado, mas no disse nada. 
       - No estou fazendo jogos de salo com voc, Mel - ele falou impaciente. - Quero encontrar a criana, e depressa. Rose esta comeando a perder as esperanas. 
E, assim que perd-las completamente, poder fazer algo drstico.
       - Um medo instantneo prendeu a garganta de Mel de modo violento.
       - O que quer dizer com isso?
       - Voc sabe o que quero dizer. Use toda a influncia que voc tiver. Faa com que a polcia de Vermont e New Hampshire procure por ele. Agora ele est dirigindo 
um Toyota. Vermelho. A placa  a mesma. .
       Mel queria ignorar tudo aquilo, mas no conseguiu.
       - Vou ver como est Rose.
       Antes que ela pudesse se afastar do cercado, Sebastian segurou-a pela mo.
       - Liguei para Rose h duas horas. Ela ficar bem por mais algum tempo.
       - Eu j lhe disse que no quero que voc fique alimentando-a com falsas esperanas.
       - Voc trabalha do seu jeito, eu trabalho do meu. - Sebastian pressionou-lhe a mo. - Rose precisava de alguma coisa, por menor que fosse, em que pudesse 
se apoiar, que a ajudasse a enfrentar mais uma noite quando chega em casa e depara-se com o bero vazio. E eu dei isto a ela. 
       Mel sentia algo vindo dele, algo to semelhante ao seu prprio medo e frustrao, que se abrandou.
       - Est bem, talvez fosse o melhor a fazer. No duvido das suas intenes. Mas, se estiver certo quanto a Parkland estar na Nova Inglaterra... . .
       - Voc no ser a primeira a apanh-lo. - Sebastian sorriu, mais relaxado, agora. - E isso a deixa se mordendo de raiva. - Esta voc acertou em cheio. - Mel 
hesitou, deixou escapar um longo suspiro, e ento decidiu contar tudo a ele. - Entrei em contato com um amigo na Gergia.
       - Voc tem contatos nos lugares mais distantes, Sutherland.
       - Passei quase vinte anos viajando pelos quatro cantos do pas. Bem, eu conheo este advogado na Gergia, e ele indicou-me um investigador em quem confia. 
Como uma cortesia entre profissionais, este investigador vai fazer algumas averiguaes.
       - Isso significa que voc est aceitando o fato de que David est na Gergia?
       - Significa que no quero correr riscos. Se eu tivesse certeza iria at l pessoalmente.
       - Quando tiver certeza, e quando for para l, eu irei junto.
       - Certo. - E cairia neve no inferno, ela pensou. No havia mais nada que pudesse fazer naquela noite. Mas tivera um bom comeo. Foi forada a admitir que 
era muito mais do que conseguira antes que Sebastian entrasse em cena. - Esta sua capacidade de vidncia, esta mediunidade,   como a que esta sendo estudada na 
Universidade de Columbia, e outros lugares assim?
       Sebastian sorriu. Fazia parte da natureza dela tentar explicar o inexplicvel.
       - No. No exatamente. Voc est se referindo quele sentido extra que a maioria das pessoas possui em diferentes nveis, mas que normalmente prefere ignorar. 
So os conhecidos lampejos de inspirao, de premonio, os dj vu. O que eu sou e mais e menos do que isso.
       Mel queria uma resposta mais lgica, mais palpvel, mas duvidou que a conseguiria.
       - Tudo isso me parece muito esquisito.
       - Geralmente as pessoas se assustam com o que consideram estranho. J houve pocas, atravs da Histria, em que as pessoas ficaram amedrontadas o bastante 
para enforcar ou queimar aqueles que pareciam diferentes. - Sebastian observou-a cuidadosamente, a mo ainda segurando a dela sobre a cerca. - Mas voc no est 
com medo, est?
       - De voc? - O riso dela foi rpido. - No, no estou com medo de voc, Donovan.
       - Talvez fique, antes que tudo isso termine - ele falou mais para si mesmo. - Mas eu costumo achar que  melhor viver no presente, no importa o que se saiba 
sobre o futuro.
       Mel flexionou os dedos, quase ofegando diante do sbito calor que parecia irradiar-se da mo dele para a sua. A expresso de Sebastian permaneceu calma.
       - Voc gosta de cavalos.
       - O que? - Inquieta, Mel puxou a mo. - Sim, eu gosto,  claro.  Impossvel no gostar.
       - Voc sabe cavalgar?
       Ela movimentou os ombros. O calor desaparecera, mas ela sentia como se a sua mo tivesse quase tocado a chama de uma vela. .
       - J montei um cavalo uma vez. Mas faz muito tempo. Sebastian ficou em silncio, mas o garanho levantou a cabea de repente, como se ouvisse um sinal. Trotou 
at a cerca dando leves patadas no cho.
       - Este aqui parece ser do tipo temperamental. - Porm, enquanto falava, Mel estava rindo e estendendo a mo para toc-lo. - Voc sabe o quanto  bonito, no 
sabe?
       - Ele pode ser um tanto insuportvel, s vezes - Sebastian comentou. - Mas tambm sabe ser gentil, quando quer. Psique dever dar cria nas prximas semanas, 
por isso no pode ser montada. Mas, se voc quiser, pode dar uma volta com Eros.
       - Um dia desses, quem sabe. - Mel abaixou a mo antes que a tentao de montar no animal naquele exato instante provasse ser grande demais para resistir. 
-  melhor eu ir embora.
       Sebastian assentiu, antes que a tentao de pedir a ela que ficasse, que ficasse com ele, provasse ser forte demais para resistir.
       - Voc fez um bom trabalho, rastreando o tal de Parkland to depressa.
       Ela surpreendeu-se o bastante para ruborizar levemente com o elogio.
       - Foi trabalho de rotina. Se eu conseguir rastrear a pessoa que est com David, a sim ser um bom trabalho.
       - Vamos comear no deserto. - "E em breve", ele pensou. "Muito em breve". - Sutherland, voc gosta de cinema?
       Ela piscou.
       - Como?
       -Perguntei se voc gosta de cinema. - Sebastian virou o corpo na direo do dela, apenas ligeiramente. Mel no saberia dizer por que o movimento deu-lhe a 
impresso de uma ameaa, Ou por que a ameaa parecia to excitante. - Amanh  noite - ele continuou...,- irei com minhas primas ao cinema. Creio que voc vai achar 
minha famlia bem interessante.
       - No sou muito socivel.
       - Esta  uma experincia que valeria a pena.
       Sebastian saltou sobre a cerca com a mesma graciosidade que Ana, mas desta vez Mel no pensou numa gazela. Pensou num lobo. Agora, sem as tbuas de madeira 
separando-os, a ameaa e a excitao ficaram mais palpveis.
       - Umas duas horas de diverso - ele acrescentou. - Para distrair a cabea. Depois, acho que voc e eu teremos de ir para algum lugar.
       - Se voc continuar falando atravs de charadas, no iremos a lugar algum.
       - Confie em mim, quanto a isso. - Ele pousou a mo no rosto dela. Seus dedos pousaram com a leveza das asas de uma borboleta, mas Mel achou impossvel afast-los. 
- Uma noite com os Donovan far muito bem a ns dois.
       Mel sabia que a voz estaria ofegante antes mesmo de falar, e sentiu raiva dele por isso. Afinal, ele apenas pousara a mo em seu rosto. 
       - Eu j tenho a firme convico de nada seu respeito me far bem.
       Ele sorriu, ento, pensando em como a luz do entardecer realava a pele dela, como a cautela acrescentava uma estranha atrao aos seus olhos.
       -  um convite para ir ao cinema, Sutherland, no uma proposta. Pelo menos no  uma proposta como a que voc ouviu esta manh, feita pelo sujeito solitrio 
do terceiro andar do prdio de Rose.
       Atnita, ela deu um passo para trs. Aquilo poderia se apenas um bom palpite. Um palpite notavelmente bom.
       - Como soube disso?
       - Vou busc-la a tempo para a sesso da nove. Talvez eu explique tudo, ento. - Estendeu a mo, antes que ela pudesse recuar. Voc disse que no tem medo 
de mim, Sutherland, ento prove. 
       Era uma manobra perfeita. E eIa entendeu que ambos sabiam disso.
       - Tudo bem, mas eu pago o meu Ingresso. No ser um encontro.
       -  claro que no.
       - Certo, ento. Amanh  noite. - Mel deu um passo para trs, depois se virou. Era mais fcil pensar, percebeu, quando no estava encarando-o nem fitando 
aqueles olhos pacientes e divertidos. - Nos vemos amanh.
       - Sim - ele murmurou, - No h dvida quanto a isso. 
       Enquanto a observava se afastar, o sorriso dele desapareceu aos poucos.  No, no era um encontro. Duvidava que haveria algo to simples quanto um encontro, 
no relacionamento deles. E embora no se sentisse nada contente com a idia, Sebastian j sabia que eles teriam um relacionamento.
       Quando pegara a mo de Mel, instantes antes de ela recuar do sbito calor, ele havia visto. No havia espiado, mas vira. 
       Os dois juntos sob a luz rsea do anoitecer. A pele de Mel, suave como um pssego maduro, sob suas mos. Temor nos olhos dela, temor e algo mais forte que 
o medo. Atravs das janelas abertas, os primeiros vestgios, dos rudos das criaturas noturnas, as secretas melodias da noite.
       E ele vira onde os dois estavam. Onde estariam, por mais que cada um deles tentasse recusar.
       Franzindo a testa, Sebastian virou-se e olhou para a ampla janela que agora refletia os raios do sol se pondo. Alem da janela havia a cama onde ele dormia, 
onde sonhava. A cama que compartilharia com Mel antes que o vero terminasse. 
       
       
       
    CAPTULO 5
       
       
       
       Mel teve muito com que se ocupar, durante o dia inteiro, Houve a "operao limpeza" de um caso de pessoa desaparecida, o trabalho de campo sobre uma possvel 
fraude de seguros da Underwriter, e o garotinho que passara em seu escritrio querendo contrat-la para encontrar seu cachorro perdido.
       Ela concordara em pegar o caso do cachorro, aceitando um depsito de dois dlares e sete centavos, quase tudo em moedas de um centavo. Fez bem ao seu corao 
ver o garoto sair do escritrio certo de que o assunto estava em mos profissionais.
       Comeu um arremedo de jantar, na escrivaninha mesmo. Mastigando batatas chips e um pepino em conserva, telefonou para a polcia local e para as autoridades 
em Vermont e New Hampshire, a fim de checar os progressos. Ligou tambm para seu colega na Gergia e. desligou o telefone insatisfeita. Todo mundo estava procurando 
James T. Parkland. Todo mundo estava procurando David Metrick. E ningum os encontrava.
       Depois de espiar no relgio, ligou para o canil municipal e fez uma descrio do vira-lata perdido, informando o nome e o nmero de telefone de seu cliente. 
Inquieta demais para ficar parada, pegou o instantneo de Polaroid que o garoto lhe dera, do seu melhor amigo canino, e saiu.
       Trs horas depois localizou Kong, um cachorro mestio de propores assustadoras que fazia jus ao nome, escarafunchando no depsito de um mercado no Fisherman's 
Wharf.
       Usando uma corda comprida, doada pelo dono do mercado, Mel conseguiu arrastar Kong at seu carro e enfi-lo no assento de passageiro. Temendo que o cachorro 
pudesse escapar pudesse escapar durante o trajeto de volta ao seu escritrio, Mel prendeu-o com o cinto de segurana e teve o rosto banhado por uma imensa lngua 
molhada. 
       - Voc tem muita coragem, mesmo - ela resmungou, entrando no carro. - No pensou que eu logo desconfiaria que fugiu de casa para ir atrs das "garotas"? Aquele 
pobre menino est doente de preocupao, e onde  que eu o encontro? Todo contente, remexendo na lata de lixo e cheirando  lingia! 
       Em vez de mostrar-se arrependido, o cachorro parecia sorrir, a lngua caindo no canto da boca, a cabea erguida contra o vento, enquanto Mel manobrava no 
estacionamento.
       - No sabe o que significa lealdade? - Mel perguntou. Kong virou o corpo macio, pousou a enorme cabea em seu ombro e gemeu. - Sim,  claro. Eu conheo o 
seu tipo, conquistador barato. Voc ama aquela com quem est no momento. Bem, pois pode me esquecer. Estou farta de voc.
       Mas ela tirou a mo do cmbio para afagar-lhe as orelhas.
       Sebastian acabara de estacionar a moto quando Mel parou na frente do escritrio. Ele deu uma olhada nela, depois viu os quase setenta quilos de msculos e 
plos ao seu lado naquele minsculo carrinho e fez uma careta de desgosto.
       - As mulheres so todas iguais. Aqui estou eu, pensando que vamos sair juntos, e voc me aparece com outro.
       - Este faz mais o meu tipo. - Mel passou os dedos por entre os cabelos, tentando afast-los do rosto, e usou a manga da blusa para enxugar os beijos do cachorro. 
Depois localizou a ponta da corda.
       - O que voc est fazendo aqui, afinal? Ah... - ela disse, antes que Sebastian pudesse responder. - O cinema. Certo. Eu esqueci.
       - Sem dvida voc sabe como lisonjear um homem, Sutherland. - Ele afastou-se do caminho, quando ela abriu o cinto de segurana do cachorro. - Belo animal.
       - Nem tanto. Venha, Kong, o passeio acabou. - Mel puxou, atiou, mas o cachorro simplesmente ficou sentado ali, ofegando, sorrindo e, ela notou, espalhando 
plos amarelados em todo seu assento.
       Adorando a exibio, Sebastian recostou no cap do carro.
       - J pensou em lev-lo para um adestrador?
       - Para o reformatrio, isso sim - Mas ele no  meu - Cerrou os dentes e virou-se tentando pux-lo de costas. - Pertence a um cliente . Diabos, Kong, tire 
seu traseiro da.
       Como se estivesse apenas esperando que ela pedisse, o cachorro obedeceu na hora e pulou para fora do carro, atirando Mel direto para cima de Sebastian. Ele 
segurou-a pela cintura quando ela perdeu o equilbrio. Enquanto tentava recuperar o flego, Mel olhou com raiva para o cachorro, que agora estava sentado placidamente 
na calada. 
       - Voc  um verdadeiro idiota sabia? - ela disse para Kong. Como se concordasse plenamente, Kong fez uma demonstrao do seu repertrio de truques. Deitou-se, 
rolou no cho, depois sentou novamente, erguendo uma das patas para ser cumprimentado.
       Ela riu, antes mesmo de perceber que suas costas ainda estavam aconchegadas contra o peito de Sebastian. Um peito bastante firme e rgido, por sinal. Num 
gesto automtico, pegou as mos dele e afastou-as.
       - Pode me soltar.
       Sebastian deslizou as mos em seus braos, sem lhe dar a chance de esquivar-se.
       - Voc  muito suscetvel ao toque, Sutherland. 
       Mel ergueu a cabea.
       - Depende de quem est me tocando. - Desejando esperar at que as batidas do seu corao se acalmassem, Mel espanou os plos do cachorro que se grudavam em 
sua cala jeans. - Escute, faa-me um favor e fique aqui com este monte de pelos enquanto eu vou telefonar. H um garoto que, por razes que fogem  minha compreenso, 
est querendo este vira-lata e volta.
       - V em frente. - Sebastian abaixou-se e passou as mos elegantes pelo animal empoeirado.
       Apenas alguns minutos depois que Mel voltou para fora, um menino apareceu correndo pela calada, trazendo uma correia vermelha.
       - Ah, puxa, Kong! Uau!
       Em resposta, o cachorro comeou pular de alegria. Correu na direo do menino, como um imenso zagueiro bloqueando uma jogada. Os dois caram na calada, rolando 
juntos num delrio de contentamento. 
       Com um dos braos segurando o enorme pescoo de Kong, o garoto sorriu para Mel.
       - Puxa, moa, a senhora  mesmo uma detetive e tanto! Como aquelas dos programas de tev. Obrigado. Muito obrigado. A senhora fez um bom trabalho. 
       - Mel estendeu a mo para aceitar o cumprimento formal do seu cliente.
       - Estou devendo mais alguma coisa?
       No j acertamos tudo. Voc precisa comprar uma daquelas coleiras com o nome dele e o seu nmero de telefone gravados. Para o caso de ele decidir dar umas 
voltinhas outra vez.
       - Tudo bem. Eu vou fazer isso. O garoto prendeu a correia na coleira de Kong. Espere s at mame ver voc. Vamos. Os dois saram em disparada, o cachorro 
puxando o menino atrs de si. - Obrigado! - ele gritou novamente, e seu riso ecoou pelo ar da noite.
       - Ele estava certo - Sebastian murmurou, sem incomodar-se em resistir ao impulso de passar os dedos por entre os cabelos dela. - Voc fez um bom trabalho. 
       Mel encolheu os ombros, desejando no se sentir to emocionada pelo tom da voz dele, pelo toque de sua mo.
       - Estou ganhando meu sustento.
       - Aposto que ganhou uma bolada com este caso.
       Rindo um pouco, ela virou a cabea.
       - Ei, ganhei dois dlares e sete centavos. Acho que d para comprar um saquinho de pipoca no cinema.
       Sebastian interrompeu seu riso tocando os lbios nos dela. No foi um beijo... de verdade. Foi mais... um carinho amigvel.
       Por que fez isso? 
       - Por nada em especial. - Sebastian tirou o suporte da moto, depois passou o capacete para ela. - Suba a, Sutherland. No gosto de chegar atrasado no cinema. 
       
       No fim das contas ela at que acabou se distraindo. Mel sempre gostara de ir ao cinema. Havia sido uma das suas diverses preferidas, quando era criana. 
Deixava de ser a recm-chegada na cidade assim que as luzes se apagavam e a tela iluminava-se, enchendo-se de vida.
       As salas de cinema eram todas confortavelmente parecidas, em qualquer lugar que se fosse. O cheiro de pipocas e doces, os pisos grudentos, o farfalhar produzido 
quando as pessoas acomodavam-se em suas cadeiras. Qualquer que fosse o filme que estivesse passando em EI Paso, provavelmente tambm estaria divertindo a platia 
em Tallahassee.
       Mel havia sido atrada para aquelas salas muitas e muitas vezes durante as viagens sem rumo de sua me, roubando duas horas por semana num lugar onde no 
importava de onde ela viera. Ou quem era.
       Ali, foi invadida pela mesma sensao de anonimato, com a msica de fundo e o sombrio suspense desenrolando-se na tela. Um assassino estava esgueirando-se 
pelas ruas e Mel, juntamente com todos os espectadores, estava contente por apenas recostar-se e assistir o velho duelo do bem contra o mal.
       Estava sentada entre Sebastian e sua prima Morgana. A lindssima prima Morgana, Mel havia reparado.
       Ela j ouvira os boatos sobre Morgana Donovan Kirkland.
       Os rumores sussurrados de que ela era uma feiticeira. MeI os considerara ridculos e, agora, ainda mais. Morgana podia ser qualquer coisa, exceto uma velha 
enrugada e cacarejante, pronta para pular  bordo de um cabo de vassoura.
       Ainda assim, imaginava que os boatos acrescentavam um charme especial aos produtos que Morgana vendia em sua loja.
       Do outro lado de Morgana estava o seu marido, Nash. Mel sabia que ele era um roteirista famoso e altamente respeitado, que se especializara em filmes de terror. 
Seus trabalhos certamente tinham arrancado alguns gritinhos abafados de Mel, e fizeram-na rir de si mesma em seguida.
       Mas Nash Kirkland no parecia fazer aquele tipo holywoodiano. Mel achou-o simptico e descontrado, alm de muito apaixonado pela esposa.
       O casal ficou de mos dadas durante toda a sesso. Mas no de um jeito piegas e pegajoso que teria deixado Mel desconfortvel. Em vez disso, havia um contato 
silencioso e um tranqilo lao de afeto to grande no gesto que ela sentiu inveja.
       Sentada ao lado de Sebastian, estava Anastsia. Mel perguntou-se porque uma mulher to assombrosamente bonita como Ana no estava acompanhada. Depois, lembrou 
a si mesma que tal pensamento era preconceituoso e estpido. Nem todas as mulheres, ela prpria includa, achavam necessrio ir a toda parte penduradas no brao 
de um homem.
       Mel pegou um punhado de pipoca e concentrou-se no filme.
       - Voc vai comer tudo?
       - Humm? - Distrada, ela virou a cabea. Depois, voltou-a rapidamente para frente. Sua boca praticamente encostara-se  de Sebastian. - O qu?
       - Voc vai dividir a pipoca ou no?
       Ela observou-o por um instante. No era estranho que os olhos dele parecessem brilhar no escuro? Quando ele bateu com o dedo no pacote de pipoca, ela piscou.
       - Ah, sim. Sirva-se.
       E foi o que ele fez, adorando a reao dela quase tanto quanto gostava da pipoca amanteigada.
       Ela tinha um cheiro... de frescor. Sebastian manteve uma parte da ateno nas reviravoltas do enredo, e deixou o restante vagar  vontade. Achou extremamente 
agradvel ser capaz de discernir o perfume de gua e sabonete que a pele de Mel exalava, acima de todos os aromas da sala de projeo. Se quisesse, podia ouvir o 
pulso dela batendo. Firme, constante e forte, e depois um rpido fluxo, quando a ao esquentava na tela.
       O que aconteceria com seu pulso, se ele a tocasse agora? Se virasse na cadeira e tomasse com os seus aqueles lbios cheios e sem vestgios de pintura?
       Ele achou que sabia. E pensou que poderia esperar para ver.
       Porm, no conseguiu resistir  tentao de dar uma espiadinha no que ela estava pensando.
       Idiota! Se ela sabe que est sendo seguida, por que est andando sozinha na rua, no escuro? Por que eles sempre fazem com que as mulheres paream burras ou 
indefesas? L vai ela, correndo para o parque. Ah, claro, faz todo sentido lev-la direto para os arbustos, onde o assassino pode lhe cortar a garganta. Dez a um 
que ela vai... Epa!
       Ah, bem feito. Uma idiota como essa merecia ser apagada.
       Mel pegou mais um punhado de pipoca e Sebastian ouviu-a desejar, distrada, que estivesse um pouco mais salgada. 
       Ento, os pensamentos dela vacilaram por um instante, depois se misturaram confusamente. E o que Sebastian estava lendo em sua mente podia ver em seu rosto.
       Ela o pressentira. No entendia o que era, mas percebera uma intromisso e, instintivamente, bloqueava a mente. 
       O fato de que ela conseguira fazer isso o deixou intrigado. Era muito raro que algum, que no pertencesse  sua famlia, pressentisse suas sondagens.
        Havia algum poder ali , ele refletiu. Inexplorado e, certamente, negado. Brincou com a idia de forar um pouco mais. Ao seu lado, Ana mexeu-se.
       - No seja grosseiro, Sebastian - ela murmurou.
       Ele cedeu, com relutncia, e entregou-se ao filme.
       Pegou um pouco de pipoca e seus dedos roaram nos de Mel. Ela encolheu-se. Ele sorriu.
       
       - Pizza! - Morgana anunciou, assim que saram do cinema. - Com tudo o que temos direito.
       Nash deslizou as mos pelos seus cabelos.
       - Pensei que voc havia dito que queria comida mexicana. Ela sorriu, dando uma palmadinha na barriga.
       - Ns mudamos de idia.
       - Pizza - Ana concordou. - Mas sem anchovas. - Sorriu para Mel. - Mel. - O que acha?
       Mel sentiu-se includa naquela corrente de boa camaradagem.
       - Acho timo. Eu...
       - Ns no podemos. - Sebastian interrompeu, pousando a mo em seu ombro. 
       Curiosa, Morgana pressionou os lbios.
       - Nunca vi voc recusar comida, querido. - Enviou um olhar rpido e bem humorado para Mel. - O primo Sebastian tem apetites insaciveis. Voc ficar impressionada.
       - Mel  uma pessoa prtica demais para impressionar-se. - Sebastian retrucou com frieza. - O que a deixa espantada, ela simplesmente rejeita. 
       - Ele est apenas provocando voc. - Ana deu um rpido cutuco nas costelas do primo. - Ns temos nos visto to pouco ultimamente. No pode ficar mais uma 
hora, pelo menos?
       - No esta noite.
       - Bem, eu posso... - Mel comeou.
       - Eu levo a senhorita para casa - Nash ofereceu-se, dando uma piscadela para Mel. - No vou incomodar nem um pouco em acompanhar trs lindas mulheres.
       - Voc  um homem to generoso, querido. - Morgana bateu de leve na face do marido. - Mas acho que Sebastian tem outros planos para esta senhorita.
       - Eu no tenho nada com...
       - Exatamente. - Sebastian aumentou a presso no ombro de Mel. Comeremos a pizza num outro dia. - Beijou as duas primas. Abenoadas sejam. - E foi praticamente 
empurrando Mel pela calada, na direo da motocicleta.
       - Escute aqui, Donovan, ns concordamos que no seria um encontro, e eu estava gostando da idia de ir com eles. Estou com fome.
       Sebastian pegou o capacete e enfiou-o na cabea dela.
        - Vou aliment-la, no devido tempo.
       - Eu no sou um cavalo - Mel resmungou, prendendo o capacete. - Sei me alimentar sozinha.
       Fazendo um beicinho amuado ela olhou por sobre o ombro vendo o trio que se afastava, enquanto subia na moto atrs de Sebastian. No era sempre que tinha a 
chance de sair com um grupo, especialmente um grupo com quem se sentia to  vontade. Porm, antes de ficar zangada com Sebastian por ter encerrado a noite mais 
cedo, tinha de lhe agradecer por t-la includo.
       -  No fique de mau humor.
       - Eu nunca fico de mau humor. - Mel segurou-se levemente nos quadris dele, para manter o equilbrio enquanto Sebastian manobrava para fora da calada.
       Ela gostava da sensao de andar na moto. Adorava a liberdade e o risco. Talvez, quando entrasse um pouco mais de dinheiro em caixa, ela pensasse em comprar 
uma daquelas. Que seria bem mais prtico fazer uma reviso e uma pintura em seu carro primeiro. Alm disso, havia aquele vazamento no banheiro que precisava de conserto. 
E ela realmente queria comprar alguns equipamentos de vigilncia novos. Aqueles aparelhos high-tech custavam uma fortuna.
       Mas talvez conseguisse comprar a moto em um ou dois anos. Do jeito que iam as coisas, sua contabilidade fechava com lucro quase todos os meses. O fato de 
ter descoberto a quadrilha de roubos e poupado  Underwriter uma considervel bolada em seguros, talvez merecesse at um bnus.
       Deixou a mente divagar naquela direo, enquanto o corpo inclinava-se automaticamente com o de Sebastian conforme faziam as curvas. Mel no percebera que 
suas mos estavam segurando a cintura dele com um pouco mais de firmeza, mas ele sim.
       Ela gostava da sensao do vento no rosto, na pele. E, embora no fosse algo que tivesse orgulho em admitir, gostava da maneira como seu corpo encaixava-se 
no dele, com o motor da motocicleta vibrando sedutoramente sob eles.
       Sebastian tinha um corpo... muito interessante. Era difcil no reparar nisso, ela pensou, desde que estavam dividindo um espao to exguo. As costas musculosas 
sob a jaqueta de couro macia e sedosa. Os ombros eram bem largos, ou talvez parecessem largos porque os quadris eram esguios e estreitos.
       Havia um bocado de msculos nos braos dele, tambm. No que ela fosse do tipo que se impressionava com essas coisas, lembrou a si mesma. Apenas ficava surpresa 
que algum naquele ramo de trabalho, por assim dizer, tivesse um corpo assim.
       Mais para jogador de tnis do que para orculo.
       No entanto, ela imaginava que Sebastian teria tempo de sobra para exercitar-se, para cavalgar em seus cavalos ou fazer qualquer outro tipo de atividade fsica 
de sua preferncia, entre uma viso e outra.
       Comeou a imaginar como seria ter seu prprio cavalo.
       Sua ateno s foi despertada quando percebeu que estavam seguindo na direo oeste, na rodovia 156.
       - Ei! - Bateu com os dedos no capacete dele. - Ei, Daniel Boone, a trilha  do outro lado!
       Sebastian ouviu perfeitamente, mas balanou a cabea.
       -  qu? Voc falou alguma coisa?
       - , eu falei alguma coisa. - Mas Mel fez exatamente o que ele esperava que fizesse. Deslizou um pouco no banco traseiro e encostou-se mais contra ele. Sebastian 
sentia cada curva do corpo dela. - Eu disse que estamos na direo errada. Minha casa fica do outro lado, uns cinco quilmetros para o outro lado!
       - Eu sei onde voc mora.
       Ela bufou e manteve a voz mais alta do que o ronco macio do motor.
       - Ento, o que estamos fazendo aqui?
       - Est uma noite agradvel para viajar.
       Sim, talvez, mas ningum lhe perguntara nada.
       - Eu no quero viajar.
       - Esta viagem voc vai querer fazer.
       - Ah, ? Bem, ento onde estamos indo?
       Sebastian ultrapassou um carro e aumentou a velocidade.
       - Para Utah.
       Uns bons quilmetros se passaram, antes que Mel conseguisse fechar a boca.
       
       Trs horas da manh, sob a luz lvida do estacionamento de uma combinao de posto de gasolina e loja de convenincia Mel sentia como se seu traseiro tivesse 
levado uma injeo de anestesia. .
       Mas sua mente no estava anestesiada. Ela podia estar cansada, desconjuntada e dolorida depois de passar horas viajando na traseira da moto, mas sua mente 
funcionava perfeitamente.
       Naquele exato instante, estava usando-a para desenvolver maneiras de assassinar Sebastian Donovan e cometer o crime perfeito.
       Era uma pena no ter trazido sua arma. Neste caso, poderia simplesmente dar um tiro nele. Rpido e limpo. Poderia atirar o corpo numa vala escondida em alguma 
das estradinhas por onde estavam viajando, e talvez semanas se passassem antes que o encontrassem. Anos, possivelmente.
       Ainda assim seria muito mais satisfatrio esmurr-lo ate a morte. Sebastian era alguns centmetros mais alto que ela, e bem mais pesado, mas Mel achava que 
conseguiria nocaute-lo.
       Ento, esconderia a motocicleta, pegaria um nibus e estaria de volta ao seu escritrio logo cedo, na manh seguinte.
       Mel movimentou as pernas, andando de um lado para outro no estacionamento. De vez em quando um caminho passava, usando aquela estrada para evitar os postos 
de fiscalizao de peso da rodovia principal. Exceto por isso, estava escuro e silencioso. Num certo momento ela ouviu algo que desconfiou que fosse um coiote, mas 
descartou a idia.
       Mesmo naquele fim de mundo, assegurou-se, as pessoas tinham cachorros.
       Ah, ele fora muito esperto, pensou agora, chutando uma latinha de refrigerante vazia que estava no caminho. Sebastian no havia parado at que estivessem 
alm de Fresno. Isto , longe o bastante de Monterey para desencorajar qualquer idia de fuga.
       E quando ela descera da moto, furiosa, espalhando socos a esmo e despejando uma torrente de palavres que fariam um morto ruborizar, ele se limitara a esperar 
que ela se acalmasse. Havia esperado, e depois comeara a explicar que estavam seguindo a trilha de James T. Parkland.
       Ele precisava ver o motel onde David ficara com a primeira mulher a quem fora entregue.
       Como se houvesse algum motel, por ali. Mel chutou novamente a latinha indefesa. Ser que Sebastian realmente esperava que ela acreditasse que chegariam numa 
porcaria de motel com um dinossauro na frente?
       Certo.
       Ento, ali estava ela, cansada, faminta e anestesiada da cintura para baixo, perdida numa estradinha deserta com um vidente maluco. Estava a mais de cento 
e cinqenta quilmetros distante de casa, e tinha apenas onze dlares e oitenta e seis centavos consigo.
       - Sutherland.
       Mel fez um giro e pegou a barra de chocolate que ele lhe atirou. Teria disparado mais uma seqncia de palavres, mas precisou segurar a lata de refrigerante 
que voou logo em seguida.
       - Escute, Donovan... - Desde que Sebastian estava ocupado com a bomba de gasolina, ela marchou at ele, abrindo a embalagem do chocolate enquanto dizia: - 
Eu tenho de cuidar dos meus negcios. Tenho clientes. No posso desaparecer no meio da noite deste jeito, numa caada intil.
       - Voc j acampou alguma vez?
       - O qu? No.
       - Eu acampei certa vez nas Serras Nevadas. No fica distante daqui. Um lugar muito pacfico.
       - Se voc no der meia-volta com esta moto e me levar para casa, no vai ter paz por toda a eternidade. A comear por agora.
       Quando Sebastian olhou para ela, olhou de verdade, Mel reparou que ele no parecia nem um pouco cansado. Ah, no. Em vez de parecer exausto depois de horas 
seguidas de viagem, ele dava a impresso de ter passado uma semana num spa exclusivo.
       Sob a aparncia calma e relaxada, havia uma excitao palpitante que a contagiava, fazendo seu corao disparar. Ressentindo-se de cada minuto disso, Mel 
deu uma boa mordida no seu chocolate.
       - Voc  maluco. Maluco de carteirinha. No podemos ir para Utah. Voc sabe qual  a distncia daqui at Utah?
       Sebastian percebera que a temperatura havia baixado consideravelmente. Tirou a jaqueta de couro e entregou-a para Mel.
       - De Monterey at o lugar onde quero ir? Cerca de trezentos quilmetros - respondeu. Tirou a mangueira de gasolina do tanque da moto e prendeu-a na bomba. 
- Anime-se, Sutherland, estamos a mais da metade do caminho.
       Ela desistiu.
       - Deve haver um ponto de nibus por aqui - resmungou, encolhendo-se sob a jaqueta dele enquanto encaminhava-se para a loja iluminada.
       - Foi aqui que ele parou com David. - Sebastian falou em voz baixa, e Mel parou onde estava. - Foi onde fizeram a primeira troca. Ele no chegou aqui to 
depressa quanto ns, com todo o trfego, o nervosismo, e tendo de espiar a todo instante no retrovisor, com medo da polcia. O encontro foi s oito horas.
       - Tudo isso  besteira - Mel murmurou, mas sentiu um aperto na garganta.
       - O funcionrio da loja reconheceu-o pelo desenho. Disse que reparou em James porque ele parou nos fundos do estacionamento, mesmo havendo vagas bem na frente. 
E estava nervoso, tambm, e o funcionrio ficou prestando ateno, achando que ele estava ali para tentar roubar alguma coisa.
       Mas James pagou por tudo o que consumiu.
       Mel observou Sebastian com ateno, enquanto ele falava.
       Depois que terminou, ela estendeu a mo.
       - D-me o desenho.
       Com os olhos fixos nos dela, Sebastian alcanou o bolso da frente da jaqueta. Atravs do tecido, sua mo roou levemente o seio dela, demorando-se ali por 
uma frao de segundo, antes de tirar a folha de papel dobrada.
       Mel sabia que estava respirando depressa demais. Sabia que estava sentindo mais do que aquele contato breve e insignificante merecia. Para compensar, tirou 
o papel da mo dele e seguiu para a loja com passos duros.
       Enquanto Mel entrava para verificar o que ele acabara de lhe contar, Sebastian fechou a tampa do tanque e afastou a moto das bombas de gasolina.
       Ela no demorou nem cinco minutos. Estava plida, quando voltou, os olhos com um brilho preocupado. Porm a mo estava firme quando tornou a guardar o desenho 
na jaqueta. No queria pensar, ainda no. s vezes era melhor agir.
       - Tudo bem - disse a ele. - Vamos embora.
       
       Ela no cochilou. Isso teria sido suicdio, numa moto. Mas percebeu que a mente divagava com antigas imagens sobrepondo  novas. Isso era to conhecido, aquela 
viagem repentina no meio da noite. Sem nunca ter muita certeza para onde estava indo, ou o que faria quando chegasse l.
       Sua me sempre se sentira to feliz dirigindo por estradinhas desconhecidas, com o rdio a todo o volume. Mel podia lembrar-se do conforto de esticar-se no 
assento da frente, a cabea recostada no colo da me e a simplicidade de confiar que, de algum jeito, acabariam encontrando um lar outra vez.
       Pesada de cansao, deixou  pender a cabea nas costas de Sebastian. Mel levantou-a rapidamente, obrigando-se a ficar de olhos abertos.
       - Quer parar um pouco? - ele gritou. - Descansar por uns minutos?
       - No. Siga em frente.
       Mas ele parou quando estava quase amanhecendo, para se reabastecer de caf. Mel preferiu tomar um refrigerante e devorou um pozinho aucarado.
       - Sinto que estou lhe devendo uma refeio decente - ele comentou.
       - Para mim, esta  uma refeio decente. Satisfeita, ela lambeu o acar dos dedos. - Nem precisa encomendar o faiso. 
       Satisfeita reparou nas olheiras escuras sob os olhos dela. Sentia-se culpado por isso, mas agira por instinto, um instinto que ele sabia que estava certo. 
Quando passou os braos pelos ombros dela, Mel enrijeceu, mas apenas por um instante. Talvez porque reconhecesse que o gesto era apenas um apoio amigvel, e nada 
mais.
       - Estamos quase chegando - ele disse. - S mais uma hora.
       Ela assentiu. No tinha outra escolha, agora, exceto confiar nele. Confiar nele e na sensao em seu peito. Uma sensao que ela prpria teria descrito como 
"palpite certo".
       - S quero saber se vai valer a pena. Se far alguma diferena.
       - Teremos esta resposta, tambm.
       - Espero que sim. Espero que a resposta seja "sim". Mel virou o rosto para ele, e seus lbios roaram-lhe o pescoo, Sentiu um breve lampejo de calor, de 
sabor, antes que seus olhos cansados se arregalassem.
       - Desculpe-me. Estou muito confusa.
       - Relaxe, Mel. Veja. O sol est nascendo.
       Ficaram ali, juntos, vendo, a aurora despontar. Os braos dele enlaando-a, ela recostando a cabea em seu ombro. Sobre o deserto, as cores emergiam do horizonte, 
espalhando-se pelo cu e tingindo as nuvens mais baixas. A areia coloriu-se de rosa, depois se foi avermelhando antes de, lentamente, tornar-se dourada. Em mais 
uma hora, o sol escaldante estaria embranquecendo toda aquela paisagem. Mas, por enquanto, apenas por aquele instante fugidio, era to belo quanto uma pintura.
       Mel foi invadida por uma sensao estranha, observando aquela transio eterna envolvida nos braos dele. Uma comunho. Os primeiros passos delicados de uma 
unio que no precisava de palavras para ser compreendida.
       Desta vez, quando ele a beijou, com os lbios macios e ansiosos, ela no resistiu nem questionou. O momento em si justificava tudo. Estava to cansada de 
lutar contra o que parecia estar crescendo dentro dela. Estava atordoada demais pela magia do alvorecer no deserto, para recusar qualquer coisa que ele lhe pedisse.
       Sebastian queria pedir mais, e sabia que naquele momento, naquele lugar, ele poderia pedir. Porm, sentia o cansao dela, sua confuso e o medo perturbador 
pelo filho de sua amiga. Assim, manteve o beijo leve, como um carinho reconfortante para ambos. Quando a soltou, compreendeu que o que eles haviam iniciado no seria 
destrudo.
       Sem dizer nada, montaram novamente na motocicleta e rumaram para o oeste, na direo do sol.
       
       Na parte sul de Utah, no muito distante dos limites com o Arizona, e prximo o bastante de Las Vegas para se perder o salrio do ms numa rpida visita, 
havia um pequeno aglomerado de lojinhas. A cidade possua um posto de gasolina, um minsculo caf que anunciava tortillas de milho e um motel de vinte e cinco apartamentos, 
com um brontossauro de plstico no meio de um terreno coberto de cascalho.
       - Ah... - Mel sussurrou enquanto olhava fixamente para a lamentvel figura descascada. - Ah, meu Deus! - Quando desceu da moto, suas pernas tremiam por algo 
mais alm do cansao da viagem.
       - Vamos verificar se h algum acordado. - Sebastian pegou-lhe o brao e levou-a na direo da recepo do motel.
       - Voc viu mesmo isso, no ?
       - E o que parece, no acha? - Ao senti-Ia vacilar, Sebastian passou o brao em sua cintura, amparando-a. Era estranho perceber que ela ficara to frgil, 
subitamente. - Vamos pedir um quarto para voc descansar, j que estamos aqui.
       - Eu estou bem. - Entraria em choque mais tarde, Mel prometeu a si mesma. Agora, precisava continuar se movimentando.
       Juntos, entraram numa saleta arejada apenas por um ventilador.
       - Sebastian tocou a sineta no balco. Momentos depois, ouviram o arrastar de chinelos atrs de uma porta coberta por uma cortina florida.
       Um homem usando camiseta branca sem mangas e uma cala Jeans larga arrastou-se at o balco, com os olhos inchados de sono e o rosto sem barbear.
       - Pois no?
       Sebastian foi tirando a carteira do bolso.
       - Queremos um quarto. O nmero 15. - Deixou uma nota de dlar sobre o balco.
       - Por acaso o quinze est vago. - O recepcionista pegou a chave num suporte atrs dele. - Vinte e oito dlares por noite. A lanchonete ali na esquina serve 
caf da manh e fica aberta vinte e quatro horas. Pode assinar aqui.
       Depois de assinar, Sebastian deslizou outra nota de vinte dlares, com a foto de David por cima. .
       - Voc j viu esta criana? Deve ter passado por aqui uns trs meses atrs.
       O atendente olhou para a nota com uma expresso desejosa, como se nem enxergasse a foto de David. .
       -  impossvel lembrar de todo mundo que entra aqui.
       O beb estava com uma mulher bonita, de uns trinta anos. Ruiva, dirigindo um Chevy.
       - Pode ser que eles entraram direto. Eu cuido da minha vida no fico prestando ateno nos outros. .
       Mel intrometeu-se na conversa, afastando Sebastian para o lado.
       - Voc me parece um sujeito bem esperto. Eu acho que se uma mulher bonita como aquela entrasse aqui carregando um bebezinho, voc teria reparado. Talvez at 
tenha lhe dito onde comprar fraldas descartveis, ou leite fresco.
       Ele encolheu os ombros e coou-se.
       - Eu no me meto nos problemas alheios.
       - Mas vai ter de meter-se nos seus prprios problemas, ento. - A voz de Mel endurecera, o bastante para que o recepcionista vacilasse. - Agora, quando o 
agente Donovan, isto  o senhor Donovan... - Os olhos do sujeito arregalaram-se. - Bem, quando ele lhe perguntar de novo se viu essa criana, acho que voc vai pensar 
um pouco mais. No vai?
       O atendente umedeceu os lbios.
       - Vocs so da polcia? FBI, ou coisa assim?
       Mel limitou-se a sorrir.
       - O que voc acha?
       - Este  um hotel respeitvel e tranqilo.
       - Estou vendo.  por isso que sei que, se aquela mulher parou aqui com a criana, voc se lembraria. No creio que tenha tantos hspedes assim. 
       - Escute, ela passou s uma noite aqui. Pagou adiantado em dinheiro, manteve a criana quieta durante a noite e foi embora logo cedo.
       Mel lutou contra um leve fio de esperana e manteve a voz indiferente.
       - Precisamos de um nome, amigo.
       - Ora, como  que eu vou me lembrar do nome dela?
       - Voc tem os registros. - Mel pousou um dedo na nota de vinte dlares e a fez escorregar pelo balco. - Tem registros dos hspedes, e dos telefonemas feitos 
nos quartos. Por que no d uma olhadinha para ns? Talvez o meu parceiro aqui possa lhe oferecer uma recompensa extra.
       Resmungando palavres, o atendente pegou uma caixa de papelo embaixo da mesa.
       - As notas dos telefonemas esto aqui. Se quiserem, vocs mesmos procuram o registro de entrada.
       Mel pegou o livro de registros, depois cruzou as mos nas costas e deixou que Sebastian o examinasse. Estava pronta a admitir que ele encontraria o que estavam 
procurando bem mais depressa do que ela.
       Sebastian localizou o nome.
       - Susan White? No creio que ela tenha lhe mostrado um documento de identidade.
       - Pagou em dinheiro - o homem resmungou. - Meu Deus, voc no queria que eu ficasse xeretando, no ? Fez um interurbano - acrescentou. - Mas foi atravs 
da telefonista. Mel vasculhou a bolsa  procura de um bloco de anotaes.
       - Data e hora. - Anotou-os. - Agora escute bem, amigo, e esta  a pergunta premiada... sem brincadeiras. Voc afirmaria, sob juramento, que esta criana... 
olhe com toda ateno.
       - Ela ergueu a foto de David. - Que esta criana foi trazida para este motel no ltimo ms de maio?
       O atendente remexeu-se, desconfortvel.
       - Se fosse obrigado, eu afirmaria. No quero ir para o tribunal, nem nada disso, mas a mulher trouxe esta criana. Eu me lembro que ele tinha uma covinha 
aqui, e um cabelinho vermelho.
       - timo. - Mel sentiu que iria chorar... no, no iria. Mas foi para fora, enquanto Sebastian guardava a foto e passava mais vinte dlares para o atendente.
       - Tudo bem? - ele perguntou quando se reuniu a ela.
       - Sim,  claro, tudo bem.
       - Preciso ver o quarto, Mel.
       - Certo.
       - Voc pode esperar aqui, se quiser.
       - No. Vamos.
       Ela no tornou a falar, nem quando seguiram pelo corredor sombrio, nem quando Sebastian destrancou a porta e entrou no quarto feio e abafado. Mel sentou na 
cama, tentando clarear a mente enquanto Sebastian usava a sua para o que melhor sabia fazer.
       - Ele podia ver o beb, dormindo num acolchoado no cho, chorando um pouco pelos sonhos confusos.
       A mulher havia deixado a luz do banheiro acesa, para que ficasse mais fcil olhar se a criana acordasse ou comeasse a chorar. Assistira um pouco de televiso, 
fizera um telefonema.
       Mas o nome dela no era Susan White. E havia usado tantos nomes, atravs dos anos, que Sebastian teve dificuldade em captar o verdadeiro. Achou que fosse 
Linda, mas no era Linda, agora, nem tampouco era Susan.
       E ela havia transportado outro bebe, apenas algumas semanas antes de passar por ali com David.
       Ele contaria isso a Mel, depois que ela descansasse um pouco.
       Quando Sebastian sentou na cama ao seu lado, pousando a mo em seu ombro, ela continuou olhando fixamente para frente.
       - Neste exato momento, no quero saber como voc conseguiu fazer isso. Talvez numa outra hora, mas agora no.
       - Tudo bem.
       - Ela esteve com ele, neste quarto.
       - Sim, esteve.
       - E ele est machucado?
       -No.
       Mel umedeceu os lbios.
       - Para onde ela o levou? . . .
       - Para o Texas, mas ela no sabe para onde David foi levado, depois disso. Ficou encarregada apenas de uma etapa da viagem. .
       Mel respirou fundo duas vezes, com cuidado.
       - Gergia. Voc tem certeza de que e na Gergia?
       - Tenho.
       Ela cruzou as mos no colo, tensa.
       - Onde? Voc sabe onde?
       Ele estava cansado, muito mais do que queria admitir. E olhar agora o deixaria ainda mais exaurido. Mas Mel precisava que ele o fizesse. Ento ele iria olhar, 
porm no ali. Havia interferncias demais naquele quartinho infeliz, muitas histrias tristes.
       - Preciso ir l fora. Deixe-me sozinho por um instante.
       Ela assentiu, e ele saiu. O tempo passou, e Mel ficou aliviada em perceber que sua vontade de chorar tambm passava.
       Ela no considerava as lgrimas como um sinal de fraqueza.Apenas achava que eram inteis.
       E seus olhos estavam secos, quando Sebastian voltou para o quarto.
       Achou que ele parecia plido e subitamente cansado. Era estranho que no tivesse percebido a fadiga em torno dos olhos dele, apenas alguns momentos atrs. 
Mas ento se lembrou de que no estivera. olhando para ele com muita ateno.
       Foi o que fez agora, e por que o fez, sentiu-se compelida a levantar-se e ir at ele. Talvez a ausncia de razes e de uma famlia tivessem transformado Mel 
numa pessoa avessa  grandes demonstraes de afeto. Nunca fora muito de tocar as pessoas, mas estendeu as mos, agora, tomando as dele.
       - Est parecendo que voc precisa de uma cama mais do que eu. Por que no tira um cochilo? Depois decidimos o que fazer em seguida.
       Ele no respondeu, apenas virou as mos dela e olhou em suas palmas. Ser que ela acreditaria nas muitas coisas que ele podia ver ali?
       - As conchas mais duras nem sempre so as mais difceis de quebrar - disse baixinho, erguendo os olhos para ela. Voc tem um corao bondoso, Mel. Isso  
muito atraente.
       Ento, ele fez uma coisa que a deixou trmula e sem fala. Levou as mos dela aos lbios. Nunca ningum lhe fizera um gesto como aquele e Mel descobriu que, 
o que sempre considerara como tola afetao, era comovente e sedutor.
       - David est num lugar chamado Forest Park, um subrbio ao sul de Atlanta.
       Os dedos dela enrijeceram sob os dele, depois relaxaram.
       Mesmo sabendo de sua total desconfiana a respeito das coisas, agora acreditaria nisso.
       - Deite-se e tente descansar. - A voz dela era rspida e as mos firmes, quando o empurrou na direo da cama. Vou ligar para o FBI e para o aeroporto mais 
prximo.
       
       
       
    CAPTULO 6
       
       
       
       Ela dormia como uma pedra. Sebastian bebeu mais um gole de vinho, recostou na poltrona e observou Mel. Ela estava deitada no sof  sua frente, na cabine 
principal do seu avio particular. No discutira quando ele havia sugerido ligar para que seu piloto voasse at Utah a fim de lev-los para a Gergia. Mel apenas 
concordara distraidamente, e continuara rabiscando anotaes em seu inseparvel bloquinho.
       No instante em que atingiram a altitude de cruzeiro, ela estendera o longo corpo no sof, fechara os olhos e adormecera, to rpido e fcil quanto uma criana 
exausta. Sebastian compreendia que a energia, como qualquer poder, precisava ser recarregada, e deixou-a em paz.
       Ele dera-se ao luxo de tomar uma ducha demorada e depois vestiu algumas das roupas que sempre deixava a bordo do Learjet. Enquanto desfrutava de um almoo 
leve, fez alguns telefonemas. E esperou.
       Era uma jornada estranha, para dizer o mnimo. Ele e a mulher adormecida voando para longe do sol, depois de passar uma noite inteira correndo na direo 
dele. Quando tudo terminasse, alguns coraes estariam partidos e outros estariam curados. O destino sempre cobrava seu preo.
       E ele teria cruzado o pas ao lado de uma mulher que considerava perturbadora, desejvel e incompreensvel.
       Ela mexeu-se, murmurou alguma coisa e abriu os olhos. Sebastian observou os olhos verdes nublados aguarem-se e focalizarem, enquanto Mel combatia a desorientao. 
Ela espreguiou-se, um movimento rpido e prtico, alm de incrivelmente sensual, depois se virou para sentar.
       - Quanto falta? - A voz dela estava enrouquecida pelo sono, mas ele percebeu a energia que retornava.
       - Menos de uma hora.
       - timo. - Depois de passar as mos pelos cabelos, ela ergueu a cabea, aspirando o ar. - Estou sentindo cheiro de comida?
       Sebastian teve de sorrir.
       - Sim, na cozinha. H um chuveiro nos fundos, se quiser tomar um banho.
       - Obrigada.
       Ela escolheu o banho primeiro. No era fcil, mas no queria parecer excessivamente impressionada com o fato de que bastava o sujeito estalar os dedos para 
chamar seu prprio avio, uma aeronave toda carpetada, com seu prprio quarto aconchegante e uma cozinha que fazia a dela parecer um armrio embutido. Era bvio 
que aquele negcio de vidncia dava um bom lucro.
       Ela deveria ter checado os antecedentes dele, Mel pensou enquanto enrolava-se num roupo e ia para o quarto na ponta dos ps. Mas tivera tanta certeza de 
que conseguiria convencer Rose a mudar de idia, que nem mesmo se dera ao trabalho. Agora, l estava ela, a uns trinta mil ps de altitude, com um homem sobre quem 
sabia to pouco.
       Mas pretendia remediar isso no instante em que voltassem para Monterey. Apesar de que, naturalmente, se as coisas corressem como ela esperava, talvez nem 
houvesse necessidade disso. Uma vez que David voltasse para casa, sua associao com Sebastian Donovan estaria terminada.
       Ainda assim, ela poderia verificar os antecedentes dele, s por curiosidade.
       Pressionando os lbios, Mel deu uma espiada no armrio dele. Reparou que Sebastian tinha uma preferncia por seda, cashmere e linho. Avistando uma camisa 
jeans, puxou-a do cabide. Pelo menos havia algo prtico ali, e ela sabia que estava precisando vestir roupas limpas.
       Vestiu a camisa, depois se virou rapidamente para a porta.
       Por um instante, pensara que ele estava ali, tinha quase certeza disso. Depois, deu-se conta de que era o cheiro dele, ainda impregnado na camisa que agora 
roava suavemente em sua pele.
       Que perfume era aquele, afinal? Levantou o brao e cheirou a manga da camisa. Nada que fosse capaz de discernir. Era um perfume silvestre, ertico. Algo que 
se esperaria encontrar numa floresta escura, sob o luar.
       Irritada consigo mesma, vestiu a cala jeans. Se tudo aquilo desse certo, ela realmente comearia a acreditar em feitiarias.
       Depois de dobrar as mangas da camisa emprestada, foi investigar a cozinha. Serviu-se de uma banana, ignorou um pote de caviar e atirou algumas fatias de presunto 
e queijo no meio de um po.
       - No tem mostarda? - Mel perguntou elevando a voz, e ofegou quando sentiu o corpo trombar com o dele. Sebastian no fazia mais barulho do que um fantasma.
       Ele levantou o brao para alcanar um armrio e entregou-lhe o frasco de mostarda. - Quer um pouco de vinho?
       - Acho que sim. - Mel besuntou mostarda sobre o presunto, desejando que houvesse mais espao para manobrar o. corpo para longe do dele, naquele cmodo exguo. 
- Peguei uma camisa emprestada, tudo bem?
       -  claro. - Ele serviu-lhe o vinho e acabou de encher o prprio copo. - Voc descansou bastante.
       - , ajuda a passar o tempo. - O avio sacudiu sob a turbulncia. Sebastian segurou-a pelo brao, a fim de ampar-la mas depois no fez meno de se afastar. 
- O piloto disse que teremos alguma turbulncia. - Testando a ambos, esfregou o dedo na parte interna do cotovelo de Mel. O pulso estava rpido e firme. - Logo estaremos 
iniciando a descida.
       Mel levantou o rosto para ele. Observando-o, sentiu o mesmo que sentira no deserto. O incio de alguma coisa. Perguntou-se, se estaria menos inquieta se fosse 
capaz de enxergar o final, tambm.
       - Ento  melhor ficarmos sentados. E prendermos o cinto de segurana.
       - Eu levo o seu vinho.
       Com um profundo suspiro de alvio, ela pegou o prato e seguiu-o. Enquanto mergulhava alegremente em seu sanduche, apanhou-o sorrindo.
       - Algum problema?
       - No, s estava pensando que ainda lhe devo uma refeio de verdade.
       - Voc no me deve nada. - Ela bebeu o vinho e ento, porque era to diferente, to deliciosamente diferente de tudo o que j experimentara at agora, bebeu 
mais um pouco. Eu gosto de pagar minhas prprias contas.
       - J reparei.
       Mel inclinou a cabea para o lado.
       - Alguns homens sentem-se intimidados com isso.
       -  mesmo? - O sorriso dele brincou nos cantos dos lbios.
       - Pois eu no. Ainda assim, depois que tudo isso terminar talvez voc concorde em jantar comigo. Para comemorarmos um trabalho bem-feito.
       - Talvez - Mel disse. - Podemos tirar cara e coroa para ver quem paga.
       - Meu Deus, voc  mesmo encantadora. - Sebastian riu e estendeu as pernas, contente por ela ter escolhido a poltrona  sua frente, em vez de sentar-se ao 
seu lado. Assim poderia observ-la  vontade, enquanto estava acordada. - Por que decidiu ser detetive particular?
       -Humm?
       Ele tornou a sorrir.
       - Bem, j estava na hora de perguntar, no acha? O que a fez escolher esta profisso? 
       - Eu gosto de desvendar mistrios. - Mel encolheu os ombros e fez meno de se levantar para levar o prato vazio.
       Mas Sebastian antecipou-se e levou o prato para a cozinha.
       - E assim to simples? - perguntou.
       - Eu acredito nas regras.
       As poltronas eram espaosas, por isso Mel encolheu as pernas e cruzou-as sob o corpo. Estava confortvel, concluiu. Renovada pelo sono e pelo fluxo de esperana 
que ainda no desaparecera. Sentia-se  vontade com Sebastian. Bem, imaginou, tudo era possvel nesse mundo.
       - E acho que quando algum quebra as regras, quando viola as leis, deve pagar por isso. - Sentiu a mudana sutil na cabine, quando o avio iniciou a aterrisagem 
em Atlanta. - Tambm gosto de descobrir as coisas... sozinha.  por isso que fui uma policial razoavelmente boa, mas sou uma tima detetive particular.
       - Quer dizer que no gosta de trabalhar em equipe.
       - No. - Ela inclinou a cabea para o lado. - E voc?
       - Tambm no. - Ele sorriu, com os olhos fitando o vinho. - Acho que no. - Ento, abruptamente, fixou os olhos nos dela, intensos. Para dentro dela, Mel 
pensou. - Mas muitas vezes as regras mudam, Mel. Os limites. que separam o certo do errado s vezes ficam indistintos. Quando isso acontece, como voc faz para escolher?
       - Sabendo que coisas no deveriam mudar, que limites no podem ser desfeitos, ou cruzados. Isso  algo que a gente sente.
       -  - Com um sbito brilho de poder emergindo novamente, Sebastian assentiu. - A gente sente.
       - Isso no tem nada a ver com mediunidade. - Mel achou que sabia exatamente para onde ele a estava levando. E ainda no estava pronta para lhe dar tanta corda 
assim. - Eu no me interesso por vises, premonies,ou seja l como voc chama estas coisas.
       Sebastian ergueu a taa para um brinde.
       - Mas voc est aqui, no est?
       Mel no desviou os olhos. E, se ele esperava que ela fosse recuar, ficaria desapontado.
       - Sim, estou aqui, Donovan. Estou aqui porque no quero correr o risco de ignorar qualquer pista, por mais frgil e maluca que seja.
       Ele continuou sorrindo.
       -E...
       - E porque, talvez, eu esteja disposta a considerar a idia de que voc realmente pode ter visto ou sentido alguma coisa. Ou, talvez, voc tenha tido apenas 
um bom palpite. Acredito em palpites. .
       - Eu tambm, Mel. - O avio tocou o solo. - Eu tambm.
       
       Era sempre difcil entregar as rdeas para outras pessoas. Mel no se importava de cooperar com as autoridades locais, nem com o FBI, mas teria preferido 
fazer isso em seus prprios termos. Mas, pelo bem de David, teve de morder a lngua umas dez vezes durante a entrevista com o agente federal Thomas A. Devereaux.
       - Tenho alguns relatrios sobre o senhor, senhor Donovan. Na verdade, vrios deles so de colegas meus que consideram-no no apenas confivel, mas tambm 
admirvel.
       Mel achou que Sebastian parecia um rei em sua corte sentado ali no pequeno escritrio pintado de bege. Ele respondeu a afirmao de Devereaux com um leve 
assentir de cabea.
       - Estive envolvido em umas poucas investigaes federais.
       - Sendo a mais recente em Chicago - Devereaux falou folheando o contedo de uma pasta. - Uma confuso terrvel ali. Uma pena que no conseguimos det-lo antes.
       - Sim. - Isso era tudo o que Sebastian pretendia dizer. Nem todas aquelas imagens tinham desaparecido de sua mente.
       - Quanto a voc, srta. Sutherland... - Devereaux esfregou a cabea careca e redonda, depois ajeitou os culos sobre o nariz. - As autoridades da Califrnia 
parecem ach-la bastante competente.
       - Puxa, agora posso dormir tranqila - Mel ironizou. Ignorando o olhar de aviso de Sebastian, inclinou-se para frente. - Ser que no podemos dispensar as 
apresentaes, agente Devereaux? Tenho amigos na Califrnia que esto desesperados, neste momento. David Merrick encontra-se a apenas alguns quilmetros de distncia 
e...
       - Isso  algo que ainda teremos de verificar. - Devereaux deixou a pasta de lado e pegou outra. - Recebemos por fax todas as informaes pertinentes ao caso, 
logo depois do seu telefonema Um investigador federal j interrogou sua testemunha no... Motel Dunes, em Utah. - Ele empurrou os culos para a testa. - O homem identificou 
positivamente a foto de David Merrick. Agora estamos trabalhando na identificao da mulher.
       - Ento por que estamos aqui. sentados?
       Devereaux espiou por cima das lentes dos culos, que haviam escorregado novamente para o nariz.
       - Por acaso est esperando que meus homens batam em todas as portas de Forest Park e perguntem se algum roubou um beb recentemente? - Antecipando-se a Mel, 
ergueu o dedo gorducho. - Estamos recebendo, agora mesmo; dados completos de crianas do sexo masculino, com idades entre dois e seis meses Registros de adoo, 
certides de nascimento. Estamos verificando todas as pessoas que se mudaram para esta rea, com uma criana pequena, num perodo que abrange estes ltimos trs 
meses. No tenho dvidas de que, j amanh cedo, esta listagem esteja reduzida a um nmero bem mais vivel.
       - Amanh cedo? Escute, Devereaux, ns passamos a maior parte das ltimas vinte e quatro horas chegando aqui. Agora voc vem nos dizer que teremos de esperar 
at amanh?
       O agente olhou-a com firmeza.
       - Sim,  o que estou dizendo. Se voc nos der o nome do seu hotel, entraremos em contato assim que obtivermos algum progresso.
       Mel deu um pulo para fora da cadeira.
       - Eu conheo David. Posso identific-lo. Se eu fizesse uma investigao geral na rea, montasse uma vigilncia...
       Devereaux interrompeu-a.
       - Este  um caso federal.  bem provvel que precisaremos de sua ajuda para identificar a criana. No entanto, temos cpias das impresses digitais para comprovar 
a identIficao. - Enquanto Mel mordia a lngua, Devereaux desviou a ateno para Sebastian. - Estou levando este caso adiante seguindo os conselhos do agente especial 
Tucker, de Chicago, a quem conheo h mais de vinte anos. S porque ele d muito calor a esta histria de vidncia, e porque tenho um neto mais ou menos da idade 
de David, no vou aconselh-los a voltar para a Califrnia e esquecer tudo isso.
       - Ns agradecemos sua ajuda, agente Devereaux. - Sebastian levantou-se e pegou Mel pelo brao, apertando-o com fora antes que ela pudesse despejar quaisquer 
insultos que estivessem na ponta de sua lngua. - Temos reservas no Hotel Doubletree. Estaremos aguardando seu chamado. 
       - Satisfeito, Devereaux tambm se levantou e estendeu-lhe a mo.
       - Eu devia ter cuspido nele! - Mel resmungou momentos depois, quando saam para a trrida tarde em Atlanta. - Esses federais sempre tratam os detetives partIculares 
como se fossemos um bando de cachorros vira-latas!
       - Ele vai cumprir com a obrigao.
       - Certo. - Mel estava distrada o bastante para permitir que Sebastian lhe abrisse a porta do carro que haviam alugado no aeroporto. - S porque algum coleguinha 
dele gostou de voc, l em Chicago. O que voc andou aprontando por l, afinal?
       - No muita coisa. - Sebastian fechou a porta e deu a volta pelo carro. - Imagino que voc no esteja muito a fim de, um drinque tranqilo no bar do hotel, 
e depois um jantar agradvel.
       - Nem morta. - Mel puxou o cinto de segurana e prendeu-o com raiva. - Preciso de um bom par de binculos. Deve haver uma loja de artigos esportivos, em algum 
lugar por aqui.
       - Acho que consigo encontrar uma.
       - E uma cmera de longo alcance, tambm - ela falou consigo mesma, puxando as mangas da camisa emprestada.
       - Um caso federal - resmungou. - Bem, no existe nenhuma lei que me proba de dar um belo passeio nos subrbios, existe?
       - Acho que no existe - Sebastian falou, acompanhando o trnsito da cidade. - Talvez possamos dar uma caminhada, tambm. No h nada como uma boa caminhada 
por um bairro agradvel numa tarde de vero.
       Ela virou a cabea e enviou-lhe um sorriso radiante.
       - At que voc  um bom sujeito, Donovan.
       - Este  o tipo de elogio que vai me sustentar at o fim da vida. 
       
       - Ser que voc pode... - Mel mordeu o lbio e engoliu a pergunta, enquanto dirigiam lentamente pelas ruas largas de Forest Park.
       - Se posso dizer qual  a casa? - Sebastian completou. - Ah, sim, no devido tempo.
       - Como... - Ela interrompeu esta pergunta tambm, e ergueu os binculos.
       - Como funciona? - Sebastian sorriu e virou para a esquerda, no que parecia ser uma deciso impensada. -  um pouco complicado explicar. Talvez algum dia, 
se voc ainda estiver interessada, eu tente.
       Quando ele diminuiu a velocidade e parou junto  calada, Mel franziu a testa.
       - O que est fazendo?
       - Eles sempre passeiam por aqui, depois do jantar.
       - O qu?
       - Eles gostam de traz-lo para c no carrinho, logo depois que ele janta, e antes do banho.
       Antes mesmo de dar-se conta do que pretendia fazer, Mel virou-se, segurou o rosto dele com as mos e obrigou-o a encar-la. Piscou, espantada com o brilho 
de poder que viu em seus olhos. Como estavam escuros, pensou. Quase negros.
       Quando conseguiu falar, sua voz era quase um sussurro.
       - Onde ele est?
       - Na casa do outro lado da rua. Aquela com venezianas  azuis e uma rvore grande no gramado da frente. - Sebastian segurou-a pelos pulsos antes que ela pudesse 
abrir a porta. - No.
       - Ele est ali e eu vou busc-lo. Diabos, Donovan, me solte!
       - Pense um pouco. - Porque ele entendia o que Mel iria sentir antes mesmo que ela pensasse, pressionou-lhe as costas contra o assento segurando-a pelos ombros. 
No foi uma tarefa fcil, pensou, irnico. Ela podia ser esguia como a haste de uma flor, mas era forte. - Mel, escute o que estou dizendo. Ele est bem, est seguro. 
David est a salvo. Voc vai apenas complicar e confundir as coisas se irromper naquela casa e tentar tir-lo de l  fora.
       Os olhos dela lanavam fascas, enquanto esforava-se para se desvencilhar. Sebastian pensou que ela parecia uma deusa, pronta para disparar raios com a ponta 
dos dedos.
       - Eles o roubaram.
       - No. No foram eles. Nem sabem que David foi seqestrado. Pensam que ele foi dado para adoo, ou convenceram-se disso porque estavam desesperados para 
ter um filho. Ser que voc nunca se sentiu to desesperada a ponto de cortar um caminho, de ignorar aquele limite indistinto a fim de tomar o que queria?
       Furiosa, ela podia apenas balanar a cabea.
       - No  o filho deles.
       - No -  A voz de Sebastian suavizou-se, bem como a presso nos ombros dela. - Mas tem sido, nos ltimos trs meses. Eles o chamam de Eric, e o amam muito. 
O bastante para fingir que David estava destinado a ser deles.
       Mel esforava-se para controlar a respirao ofegante.
       - Como voc pode me pedir para deix-lo com eles? -  s por mais algum tempo. - Sebastian passou a mo pelo seu rosto. - Eu juro que Rose o ter de volta, 
antes de amanh  noite.
       Mel engoliu em seco e assentiu. - Solte-me. - Quando ele obedeceu, ela pegou os binculos com as mos trmulas. - Voc fez bem em me impedir.  importante 
termos certeza absoluta.
       Focalizou a ampla janela da casa, vendo as paredes pintadas em tons pastis por trs das finas cortinas. Viu um balano de beb e vrios brinquedos espalhados 
sobre um sof marrom. Pressionando os lbios, Mel viu uma mulher entrar no foco. Era jovem, morena, usando short e uma blusa de algodo. Os cabelos dela balanaram 
lindamente quando virou a cabea e riu para algum fora do alcance de viso.
       Ento, ela estendeu os braos.
       - Ah, meu Deus. David!
       Os ns dos dedos de Mel embranqueceram em torno dos binculos, quando viu um homem passar David para os braos da mulher. Por trs das cortinas transparentes, 
ela viu o sorriso de David. .
       - Vamos andar um pouco - Sebastian falou baixinho, mas ela balanou a cabea.
       - Preciso tirar algumas fotos. - Com as mos firmes novamente, Mel largou os binculos e pegou a cmera de lentes telescpicas. - Se ns no conseguirmos 
convencer Devereaux a se mexer, talvez isto consiga.
       Com toda pacincia, usou quase um filme inteiro, esperando quando os trs se afastavam do seu campo de viso, fotografando quando voltavam para frente da 
janela. Seu peito doa. Era uma presso to intensa que ela teve de esfregar a mo no peito vrias vezes, em busca de alvio.
       - Vamos andar. -Mel deixou a mquina fotogrfica no piso do carro. - Acho que eles o traro para fora a qualquer momento.
       - Se voc tentar peg-lo...
       - No sou estpida - ela disparou, rspida. - No estava pensando direito, antes. Eu sei como tudo tem de ser feito.
       Eles saram do carro em lados opostos, e encontraram-se na calada.
       - Talvez fique menos evidente se andarmos de mos dadas. - Sebastian pegou a mo dela. Mel olhou-o em dvida por um segundo, depois encolheu os ombros.
       - No h mal algum nisso, eu acho.
       - Voc tem um corao to romntico, Sutherland. - Ele ergueu as mos unidas e beijou-lhe os dedos. O nome feio com que ela o chamou mentalmente o fez sorrir. 
- Sempre gostei de bairros como este, sem nunca ter vontade de morar num.
       Gramados perfeitos, vizinhos podando roseiras nas cercas. Inclinou a cabea na direo de um garoto que vinha disparado pela rua numa bicicleta. - Crianas 
brincando na rua. Cheiro de churrasco e risos de crianas no ar. .
       Mel sempre sonhara com um cantinho num lugar assim.
       Mas sem querer admitir isso a ele, ou a si mesma, encolheu os ombros.
       - Pragas na grama. Vizinhos barulhentos espiando pelas persianas da frente. Cachorros mal-humorados.
       Como se ela o tivesse invocado, um destes cachorros surgiu de repente correndo por um gramado e latindo esganiado. Sebastian apenas virou a cabea e olhou-o 
finalmente. O animal parou no mesmo instante, ganiu um pouquinho e depois se afastou com o rabo entre as pernas.
       Impressionada, Mel pressionou os lbios.
       - Belo truque.
       -  um dom. - Sebastian soltou-lhe a mo e passou o brao em torno de seus ombros. - Relaxe - murmurou. Voc no precisa se preocupar com ele.
       - Estou bem. - - Est tensa como um tambor. Aqui. - Ele moveu a mo, pressionando a base de sua nuca. Quando Mel sentiu os dedos massageando-a, tentou desvencilhar-se.
       - Escute, Donovan...
       - Shh. Este  um outro dom.
       Ele fez alguma coisa, mesmo contra sua vontade. Mel sentiu os msculos tensos de suas costas tornarem-se fludos, leves.
       - Ah... - conseguiu murmurar.
       - Melhorou? - Ele tomou-a pelo brao novamente. - Se eu tivesse mais tempo... Deus sabe, se voc estivesse nua... poderia acabar com toda esta tenso. - Sorriu, 
ao deparar-se com a expresso atnita no rosto dela. - Acho que  Justo permitir que voc leia alguns dos meus pensamentos de vez em quando. E eu tenho pensado um 
bocado em ver voc nua, ultimamente.
       Apanhada de surpresa, e morrendo de medo que pudesse ruborizar ela olhou direto para  frente.
       - Pois bem ento pense em outra coisa.
       -  difcil. Especialmente quando voc est to sedutora usando a minha camisa.
       - Eu no gosto de flertes - ela falou, por entre os dentes.
       - Minha querida Mary Ellen, h um mundo de diferena entre um flerte e uma afirmao direta de desejo. Agora, se fosse para dizer que olhos lindos voc tem, 
como eles me fazem lembrar das colinas da minha terra natal... isso sim, seria flertar. Ou se eu mencionasse que seus cabelos so to dourados como uma pintura de 
Boticelli, ou que sua pele  to macia como as nuvens que vagam pelas montanhas ao entardecer... isso poderia ser considerado um flerte.
       Havia uma sensao estranha, e distintamente incmoda, no estmago de Mel. E ela queria que parasse.
       - Se voc me dissesse qualquer uma destas coisas, acho que eu perderia a cabea.
       -  exatamente por isso que optei pela abordagem direta. Quero voc na cama, Mel. Na minha cama. - Sob um dos frondosos carvalhos, Sebastian parou e virou-a 
para seus braos antes que ela pudesse piscar. - Quero despi-Ia, toc-la. Quero v-Ia suspirar de prazer quando estiver dentro de voc. Inclinou-se, mordendo-lhe 
o lbio levemente. - E, depois, quero fazer tudo isso de novo. - Sentiu-a estremecer e beijou-a longa e profundamente. - Fui direto o suficiente?
       As mos dela apoiavam-se em seu peito, com os dedos espalmados. Mel no fazia idia de como tinham ido parar ali. Sua boca estava inchada, dolorida e faminta.
       - Eu acho... - Mas,  claro, ela no conseguia achar nada, e este era o problema. Seu corao batia com tanta fora que ela perguntou-se como as pessoas no 
tinham sado de suas casas para verificar o que diabos estava acontecendo l fora. - Que voc est louco.
       - Por desej-la, ou por dizer que a desejo?
       - Por... pensar que eu estaria interessada numa transa rpida com voc. Eu maI o conheo.
       Sebastian segurou-lhe o queixo.
       - Voc me conhece. - Tornou a beij-la. - E eu no falei nada sobre ser "rpido".
       Antes que ela pudesse falar novamente, ele ficou tenso.
       - Eles esto saindo - disse, sem se virar. Sobre o ombro dele, Mel viu a porta se abrindo e a morena sair empurrando um carrinho de beb. - Vamos atravessar 
a rua. Voc pode ter uma boa viso quando eles passarem.
       Mel sentiu a tenso retornar. Sebastian manteve o brao em seus ombros, num gesto de aviso e apoio ao mesmo tempo. Ela podia ouvir o casal conversando. Era 
uma conversa alegre e distrada, de dois jovens pais com seu beb saudvel. As palavras no passavam de um borro. Sem pensar, ela passou o brao pela cintura de 
Sebastian, em busca de amparo.
       Ah como ele havia crescido! Mel sentiu lgrimas nos olhos e fez um esforo para engoli-Ias. David estava passando rapidamente da fase de bebezinho para a 
de uma criana pequena. Os pezinhos estavam calados com sapatinhos vermelhos, como se ele j estivesse andando. Os cabelos estavam mais compridos, encaracolando-se 
em torno do rostinho redondo, rosado. 
       E os olhos... Ela parou, impedindo-se de chamar o nome dele. David olhava para ela, quando passou no carrinho azul. Olhou direto para ela, e ento houve um 
sorriso, um sorriso de reconhecimento em seus olhos. Deu um gritinho, estendeu os braos.
       - Meu filho gosta de garotas bonitas - o homem falou com um ar orgulhoso ao passar empurrando o carrinho.
       Completamente imobilizada, Mel viu. David virar a cabea no carrinho, viu seus lbios formarem um beicinho de choro. Ele emitiu um grito de protesto, e a 
mulher abaixou-se para consol-lo.
       - Ele me reconheceu - Mel murmurou. - Ele lembrou-se de mim.
       - Reconheceu, sim. O amor  difcil de esquecer. - Sebastian segurou-a, quando ela deu um passo trmulo  frente. Agora no, Mel. Vamos avisar Devereaux.
       - Ele me reconheceu. - Mel ouvia a prpria voz abafada contra o tecido da camisa dele. - Eu estou bem - insistiu, mas no tentou afastar-se.
       - Eu sei que voc est bem. - Ele pressionou os lbios em sua testa, passou a mo pelos seus cabelos e esperou que os tremores se acalmassem.
       
       Foi uma das coisas mais difceis que ela j fizera em sua vida, ficar parada diante da casa de janelas azuis com a rvore no jardim. Devereaux e uma agente 
federal estavam dentro da casa. Ela os vira entrar pela porta que fora aberta pela jovem morena. Ela ainda estava com o roupo, Mel lembrou-se, e nos seus olhos 
surgira um lampejo de medo, ou talvez de reconhecimento, quando se abaixara para pegar o jornal da manh.
       Mel podia ouvir um choro, agora, um pranto sentido e profundo. Seu corao queria endurecer-se contra isso mas foi incapaz.
       Quando eles iriam sair dali? Enfiando as mos nos bolsos andou de um lado para outro na calada. Estavam demorando demais. Devereaux continuara insistindo 
para que esperassem at o dia seguinte, e ela mal dormira em seu quarto de hotel. E j fazia uma hora que os agentes tinham entrado.
       - Por que no vai sentar-se no carro? - Sebastian perguntou.
       - Eu no conseguiria ficar sentada.
       - Eles no vo nos deixar lev-lo, ainda. Devereaux explicou todo o procedimento. Levaro horas fazendo os exames de sangue e os testes de impresses digitais.
       - Eles iro permitir que David fique comigo. Ora, se iro. Ele no vai ficar com pessoas estranhas. - Mel pressionou os lbios. - Fale-me sobre eles - pediu, 
num impulso. - Por favor.
       Sebastian j esperava que ela pedisse, e virou-se para fit-la nos olhos enquanto falava.
       - Ela era professora. Pediu demisso quando David chegou, pois achava Importante passar o tempo todo com ele. O marido  engenheiro. Esto casados a oito 
anos e esto tentando ter um filho quase desde o incio. So boas pessoas, amam-se de verdade, e tm muito espao em seus coraes para abrigar uma famlia. Eram 
uma presa fcil, Mel.
       Sebastian pde ver no rosto dela a batalha entre a compaixo e a fria, entre o certo e o errado.
       - Eu sinto muito por eles - ela murmurou. - Lamento muito saber que algum  capaz de explorar este tipo de amor este tipo de necessidade. Odeio pensar no 
que aconteceu a todos os envolvidos.
       - A vida nem sempre  justa.
       - A vida  sempre injusta - ela corrigiu.
       Mel recomeou a andar, lanando olhares desesperados para a janela da casa. Quando a porta se abriu, ela girou nos calcanhares, pronta para correr. Mas Devereaux 
encaminhou-se em sua direo.
       - O menino conhece voc?
       - Sim,. eu lhe disse que ele me reconheceu, ontem  tarde. O agente assentiu.
       - Ele est bastante agitado, chorando muito, e parece que pressente o que o senhor e a senhora Frost esto enfrentando. A nossa agente est tentando acalm-lo. 
Como j lhe disse, teremos de ficar com o beb at checarmos as impresses digitais e preenchermos todos os formulrios. Talvez fosse melhor para ele se voc estivesse 
por perto e o levasse para a delegacia com a agente Barker.
       -  claro. - Mel sentiu o corao disparar. - Donovan?
       - Eu sigo logo atrs de vocs.
       Mel entrou na casa, lutando para proteger o corao e a mente contra o choro inconsolvel que vinha de um dos quartos. Passou pelo corredor, tendo de desviar 
de um cavalinho de plstico, e entrou no quarto do beb.
       As paredes eram forradas de um papel azul claro enfeitado de barquinhos. Do bero, sob a janela, pendia um mbile com figuras de circo.
       Exatamente como Sebastian descrevera, ela pensou sentindo a boca seca. Exatamente corno ele dissera.
       Ento, afastou todos estes pensamentos e abaixou-se para pegar David, que chorava no bercinho.
       - Ah, meu bem... - Pressionou o rosto no dele, enxugando-lhe as lgrimas. - David, meu doce e lindo David.
       Mel acalmou-o, afastando os cabelos midos do rosto, grata pela agente estar de costas para ela, pois assim no precisaria esconder as prprias lgrimas.
       - Ei, garoto. - Beijou a boquinha trmula. Ele soluou, esfregou os olhos com as mozinhas, depois emitiu um suspiro cansado, recostando a cabea no ombro 
dela. - Este  o meu menino... Vamos para casa, est bem? Vamos para casa, encontrar a mame e o papai.
       
       
       
    CAPTULO 7
       
       
       
       - Nunca serei capaz de lhe agradecer. Nunca.- Rose estava olhando pela Janela da cozinha. No quintalzinho  frente, seu marido e seu filho estavam na grama, 
sob o sol, brincando com uma bola cor de laranja -S de olhar para eles, eu fico...
       - Eu sei. - Mel passou o brao pelos ombros da amiga. Enquanto observavam em silncio, ouvindo os risos de David, Rose pegou-lhe a mo e apertou-a com fora. 
- Eles esto timos ali, no esto? - ela acrescentou.
       - Perfeitos. - Rose enxugou os olhos com um leno de papel e suspirou. - Perfeitos. Quando penso no medo que senti de nunca mais ver David novamente...
       - Ento no pense. David est de volta para o lugar dele 
       - Graas a voc e ao sr. Donovan. .
       Rose afastou-se da janela, mas seu olhar retomava para l a todo momento. Mel perguntou-se quanto tempo levaria at que Rose se sentisse  vontade com David 
longe de suas vistas.
       - Voc pode me dizer alguma coisa sobre as pessoas que ficaram com ele, Mel? - ela pediu. - O pessoal do FBl foi muito simptico e gentil, mas...
       - No muito comunicativo - Mel completou. - Eles eram boas pessoas, Rose. Gente boa, que queria uma famlia. Cometeram um erro, confiando em quem no deviam 
confiar. Mas cuidaram bem de David.
       - Ele cresceu tanto. E j est tentando dar os primeiros passinhos. - Havia uma amargura, um tom agudo de amargura na voz de Rose, por ter perdido aqueles 
trs preciosos meses da vida de seu filho. Mas havia tambm a tristeza por outra me, em outra cidade, que agora teria de olhar para um bero vazio. - Eu sei que 
eles o amavam. E sei o quanto ela deve estar sofrendo agora. Mas acho que  pior para ela do que foi para mim. Ela sabe que jamais o ter de volta. - Pousou os punhos 
serrados sobre o balco. - Quem fez isso, Mel? Quem fez isso a todos ns?
       - Ainda no sei. Mas estou trabalhando nisso.
       - Voc vai continuar trabalhando o com sr. Donovan. Eu sei o quanto ele est preocupado.
       - Sebastian?
       - Sim, ns conversamos um pouco, quando ele passou por aqui. 
       - ? - Mel achou que teve sucesso em parecer indiferente. Ele passou por aqui?
       - A expresso de Rose suavizou-se. Ficou quase parecida com a expresso que sempre tivera, antes do desaparecimento de David.
       - Ele trouxe o ursinho de David, e esse lindo barquinho azul. Um barquinho, Mel pensou. Sim, ele teria pensado nisso.
       - Foi muita gentileza dele.
       - Ele parece entender os dois lados desta histria, sabia? O que Stan e eu passamos, e o que aquelas pessoas de Atlanta esto enfrentando agora. Tudo isso 
porque existem pessoas que no do a mnima para os sentimentos dos outros. Nem para os bebs, para as mes, para as famlias. Querem apenas extorquir dinheiro. 
- Os lbios dela tremeram, mas logo ficaram firmes. Creio que foi por isso que o sr. Donovan no aceitou nenhum pagamento. 
       - Ele no cobrou nada de vocs? - Mel perguntou, lutando para soar desinteressada.
       - No nem um centavo. - Lembrando-se das suas obrigaes, Rose abriu o forno para olhar o bolo de carne. - Disse que Stan e eu poderamos enviar qualquer 
quantia que pudessemos para um destes abrigos de sem-teto.
       - Entendo.
       - Ele falou tambm que iria pensar se continuaria no caso. 
       - No caso? 
       - Ele disse... alguma coisa sobre no estar certo que bebs sejam levados de suas casas e vendidos como se fossem filhotinhos de cachorro. Que existem alguns 
limites que no podem ser cruzados.
       - Sim, existem mesmo. - Mel pegou a bolsa. - Preciso ir embora, Rose.
       Surpresa, Rose fechou a porta do forno.
       - No vai ficar para o jantar?
       - No posso, de verdade. - Mel hesitou, depois fez algo que raramente fazia, algo que gostaria de fazer com mais freqncia e mais facilidade. Beijou a amiga 
no rosto. - Preciso resolver um assunto.
       
       Mel imaginava que deveria ter feito isso antes, mas tinham voltado para Monterey havia apenas dois dias. Atravessou uma nuvem de neblina, na estrada para 
o alto da montanha. Sebastian no teria de se deslocar do seu caminho para v-Ia, pensou. Ele fora at o apartamento de Rose, mas no seguira por mais alguns quarteires 
para ir  casa dela.
       Era bvio que no estava falando a srio todas aquelas tolices sobre ach-la atraente, sobre desej-la. Toda aquela besteira sobre seus olhos, seus cabelos 
e sua pele.
       Mel tamborilou os dedos no volante. Se tivesse sido a srio, elej teria feito alguma coisa. E gostaria tanto que ele fizesse... Como ela poderia decidir 
se queria ou no rejeit-lo, se ele nem se incomodava em procur-la?
       Ento, ela iria procurar o lobo em sua toca. Havia compromissos a cumprir, declaraes a fazer e perguntas a serem respondidas.
       Certa de que estava preparada para tudo isso, Mel virou o carro para a estradinha de terra que levava  casa de Sebastian. A meio caminho, pisou fundo nos 
freios quando um cavalo e seu cavaleiro saltaram diante dela. O garanho negro e o homem moreno em seu lombo irromperam pela trilha de cascalho como um lampejo de 
msculos e velocidade. Diante da viso do cavalo lustroso e do homem de pele bronzeada com os cabelos cor de bano voando ao vento, Mel sentiu-se levada para sculos 
atrs, quando os drages eram mortos sob as lanas e a magia espalhava-se pelo ar.
       I Mel ficou ali parada, boquiaberta, enquanto cavalo e cavaleiro subiam como um raio pela colina rochosa, atravs de uma faixa de neblina e, depois, tornando 
a surgir sob um raio de sol. Nem um centauro teria parecido mais magnfico.
       Enquanto os ecos da cavalgada desapareciam no ar, ela seguiu com seu carrinho pela estrada. Aquilo sim era realidade, pensou. O motor gemia e reclamava da 
subida, tossiu, engasgou, mas finalmente arrastou-se at a casa.
       Como Mel esperava, Sebastian estava no cercado dos animais, esfregando o plo lustroso de Eros. Desmontado, no parecia menos magnfico, nem menos mtico. 
A energia e a vida vibravam nele. A excitao da cavalgada ainda estampava-se em seu rosto, em seus olhos. A fora exigida por ela estava nos msculos tensos de 
suas costas e braos, enquanto acalmava o animal.
       Mel achou que, se o tocasse agora, seus dedos se queimariam.
       - Um belo dia para cavalgar, eu acho.
       Sebastian olhou-a por cima do lombo de Eros e sorriu.
       - Quase todos os dias so timos para cavalgar. Desculpe-me por no ter parado para falar com voc, mas quando Eros est correndo  melhor deix-lo  vontade.
       - Tudo bem. Mel estava contente por ele no ter parado. Tinha certeza absoluta de que s teria conseguido balbuciar algumas palavras, se tivesse de falar 
com ele montado naquele cavalo. - Passei por aqui para ver se voc tem um minutinho para conversarmos.
       - Acho que posso lhe dispensar alguns minutos. - Sebastian deu uma palmada no flanco do animal e depois, apoiando o joelho dele em seu quadril, comeou a 
limpar as ferraduras.
       - Voc tem visto Rose?
       - Sim, estou vindo da casa dela. Ela disse que voc foi visit-los e levou um barquinho de brinquedo para David. Sebastian olhou para cima, depois continuou 
com a tarefa.
       - Pensei que pudesse diminuir um pouco a confuso de David, se tivesse algo relacionado com o lugar onde passou estas ltimas semanas.
       - Foi muito... gentil.
       Sebastian endireitou o corpo e moveu-se para as patas dianteiras do cavalo.
       - Tenho meus momentos.
       Sentindo-se em terreno mais seguro, agora, Mel apoiou o p calado de bota na tbua mais baixa da cerca.
       - Rose disse que voc no aceitou o pagamento.
       - Creio que j havia salientado antes que no preciso de dinheiro.
       - Estou ciente disso. - Mel recostou na cerca passando os dedos pelo pescoo de Eros. No havia nenhuma magia ali assegurou-se. Apenas um animal magnfico 
no auge do seu esplendor. Bem parecido com o dono - Fiz algumas averiguaes. Voc tem um dedo em muitos bolos por a, Donovan.
       No deixa de ser uma maneira de se colocar.
       - Imagino que seja mais fcil ganhar dinheiro quando se em uma boa fortuna por trs.
       Ele examinou a ltima ferradura.
       - Suponho que sim. E seria bem mais fcil perder dinheiro sob as mesmas condies.
       - Voc me pegou. - Mel inclinou a cabea, enquanto ele endireitava o corpo novamente. - Este negcio em Chicago. Foi bem difcil.
       Ela viu a mudana na expresso dele, e lamentou. No era algo que ele aceItava distraidamente, ou esquecia em questo e dias.
       - Sim, foi muito difcil. O fracasso sempre .
       Mas voc ajudou a polcia a encontr-lo. Conseguiu det-lo.
       Cinco vidas perdidas no  o que eu chamo de sucesso. - Sebastian deu uma palmada no traseiro de Eros que se afastou num trote - Por que no entra um pouco 
enquanto eu vou me lavar?
       - Sebastian...
       Ele sabia que aquela era a primeira vez que ela o chamava pelo nome. E ficou surpreso o bastante para parar, pousando a mo na cerca, o corpo preparando-se 
para dar um saIto
       - Cinco vidas perdidas -  ela disse, em voz baixa. Seus olhos refletiam a compreenso. - Voc sabe quantas vidas salvou?
       - No - Ele pulou a cerca, aterrisando suavemente diante dela. - No, no SeI. Mas o fato de voc perguntar ajuda muito. - Tomou-lhe o brao, os dedos deslizando 
desde o ombro a e o pulso. - Vamos entrar.
       
       Mas Mel gostava de estar l fora, onde havia espao para manobrar. Caso as manobras fossem necessrias. Porm, parecia tolice, e inegavelmente fraco, no 
entrar na casa com ele.
       - Ha uma coisa que quero conversar com voc.
       - Eu j desconfiava. Voc jantou?
       - Ainda no.
       - timo. Conversaremos durante o jantar.
       Entraram pela lateral da casa, subindo para um deque de tbuas de sequia e cercado de vasos transbordando de flores, e passando por uma grande porta de vidro 
que dava direto na cozinha. Esta era toda em azul e branco, e to elegante e completa como se tivesse sido tirada das pginas de uma revista de decorao. Sebastian 
foi logo para uma pequena geladeira com porta de vidro e pegou uma garrafa de vinho.
       - Sente-se. - Ele indicou uma banqueta no balco azulejado que ficava no centro da cozinha. Depois de tirar a rolha do vinho, serviu-lhe uma taa. - Preciso 
tomar um banho - disse, deixando a garrafa no balco, na frente dela. - Fique  vontade.
       - Obrigada.
       No instante em que ele saiu, Mel desceu da banqueta. No considerava falta de educao, era apenas a sua curiosidade natural. No havia melhor maneira de 
analisar a personalidade das pessoas do que xeretar em seu espao particular. E ela queria, desesperadamente, descobrir qual era a personalidade de Sebastian Donovan.
       A cozinha era meticulosamente limpa e organizada, com os balces imaculados, os pratos nos armrios envidraados arrumados de acordo com o tamanho. No exalava 
nenhum cheiro de detergente, nem de desinfetante, mas sim... um perfume fresco, de ervas.
       Havia vrios maos de ervas pendurados de cabea para baixo no batente da janela sobre a pia. Mel aspirou o perfume, achando o aroma agradvel e vagamente 
misterioso.
       Abriu uma gaveta ao acaso e encontrou utenslios para o preparo de assados. Tentou mais uma, e havia mais equipamentos de cozinha, todos devidamente organizados.
       Onde estava a gaveta de bagunas?, perguntou-se enquanto passava os olhos pelo cmodo, franzindo a testa. E os segredos que sempre se encontra, largados  
esmo?
       Menos desencorajada do que intrigada, ela voltou para a banqueta e pegou a taa de vinho, segundos antes de Sebastian entrar novamente na cozinha.
       Ele estava todo de preto, agora, cala jeans preta e uma camisa com as mangas enroladas at os cotovelos. Estava descalo. Quando Sebastian pegou o vinho 
para servir-se Mel percebeu que ele parecia ser exatamente o que afirmava ser.
       Um mago.
       Sorrindo, ele tocou a taa na dela, inclinando-se para fit-la direto nos olhos.
       - Voc confia em mim?
       -Hein?
       O sorriso de Sebastian alargou-se.
       - Para escolher o cardpio?
       Mel piscou e bebeu um rpido gole do vinho.
       - Sim,  claro. Eu como de tudo.
       Quando ele comeou a pegar ingredientes, panelas e vasilhas, Mel deixou escapar um suspiro de alvio.
       - Voc vai cozinhar? - perguntou.
       - Sim. Por qu?
       - Nada. Imaginei que fosse pedir comida em algum lugar. - Ela arqueou a sobrancelha, quando ele comeou a despejar azeite numa panela. - No  muito trabalho? 
.
       - Eu gosto de cozinhar. - Sebastian espalhou algumas ervas numa vasilha. - Acho relaxante.
       Mel coou o joelho e enviou um olhar desconfiado para a mistura que ele estava preparando.
       - Quer que eu ajude?
       - Voc no sabe cozinhar.
       Ela franziu a testa.
       - Como sabe disso?
       - Tive um relance da sua cozinha. Gosta de alho?
       - Gosto.
       Sebastian amassou um dente de alho com as costas da faca.
       - Sobre o que queria conversar comigo, Mel?
       - Algumas coisas. - Ela ajeitou-se na banqueta, depois descansou o queixo na mo. Era estranho, mas no imaginara que gostaria tanto de v-lo cozinhar. - 
Tudo acabou dando certo para Rose, Stan e David. O que voc est colocando a?
       - Alecrim.
       - O cheiro  bom. - O cheiro dele tambm era bom, ela pensou. O aroma sensual de couro e suor que ele trouxera da cavalgada j se fora, tendo sido substitudo 
por uma fragrncia igualmente sensual, que lembrava a um bosque, silvestre e extremamente msculo. Bebeu mais um gole de vinho, relaxando o suficiente para tirar 
as botas. - Mas para o sr. e a sra. Frost, da Gergia, as coisas esto bastante ruins, agora.
       Sebastian juntou tomates, alho e ervas na panela.
       - Geralmente quando algum ganha, algum tambm perde.
       - Eu sei como funciona. Fizemos o que tinha de ser feito, mas ainda no terminamos.
       Ele cortou alguns fils de frango, antes de lev-los  frigideira. Gostava do jeito que ela estava sentada ali, balanando a perna preguiosamente e observando 
seus preparos culinrios com toda ateno.
       - Continue.
       - No apanhamos aquele que realmente interessa, Donovan. A pessoa que arquitetou tudo. Conseguimos recuperar David, e isso foi o mais importante, mas ainda 
no acabamos. Ele no foi o nico beb seqestrado.
       - Como voc sabe?
       - Ora,  lgico. Uma operao to organizada, to bem engatilhada. No se dariam a tanto trabalho para um nico golpe.
       - No. - Sebastian tornou a encher as taas, depois despejou um pouco do vinho sobre o frango. - voc tem razo.
       - Ento, eis o que estou pensando. - Ela desceu da banqueta. Achava que pensava melhor quando estava de p. Os Frost tinham um contato. Agora, ou eles tiveram 
a chance de entreg-lo para os agentes federais, ou o sujeito j sumiu h tempos. Eu acho que ele j sumiu. - Parou de andar e inclinou a cabea para o lado.
       Sebastian assentiu.
       - Prossiga.
       - Tudo bem. Isso  algo em escala nacional. Uma empresa de verdade. Eles precisam ter um advogado, algum que cuide dos papis de adoo. Talvez um mdico, 
tambm. Ou, pelo menos, algum com conexes nestas clnicas de fertilidade. Os Frost fizeram todo tipo de testes de fertilidade. Eu chequei.
       Sebastian mexia nas panelas, cheirava e acrescentava ingredientes, mas estava prestando ateno.
       - Imagino que o FBI tambm tenha checado.
       -  claro que sim. Nosso amigo Devereaux est por dentro de tudo. Mas quando comeo uma coisa, eu gosto de terminar. Existem tantos casais querendo iniciar 
uma famlia. Eles tentam de tudo. Regulam a vida sexual, fazem dietas, danam nus sob li lua cheia. E pagam. Gastam rios de dinheiro nos exames, nas cirurgias, nos 
remdios. E, se nada disso funcionar, pagam qualquer coisa para ter um beb.
       Ela aproximou-se do fogo para cheirar uma das panelas.
       - Est bom - murmurou. - Eu sei que, geralmente, isso  muito caro. Precisam de uma agncia de adoo respeitvel, de um advogado respeitvel. E, na maior 
parte dos casos,  a coisa certa a fazer. O beb ganha um lar, a me biolgica ganha uma segunda chance, e os pais adotivos ganham o seu milagre. Mas, ento, existe 
sempre aquele fator repugnante. O patife que sempre encontra um jeito de ganhar uma grana com a tragdia alheia.
       - Por que voc no arruma os pratos na mesa perto da janela? Estou escutando.
       - Est bem. - Mel ficou andando pela cozinha, seguindo as instrues dele para pegar os pratos, os talheres e os guardanapos, enquanto continuava expondo 
sua teoria. - Mas este no  um patife qualquer, que se contenta com trocados.  esperto, inteligente o bastante para montar um esquema capaz de roubar uma criana 
num extremo do pas; pass-Ia como se fosse uma bola de futebol atravs de vrios Estados para atir-Ia numa famlia rica e afluente, a muitos quilmetros de distncia.
       - Ainda no vi motivos para discordar de voc.
       - Pois bem,  este sujeito que ns temos de agarrar. Os federais ainda no conseguiram encontrar Parkland, mas imagino que o faro em breve. Ele no  um 
profissional. Trata-se apenas de um idiota que tentou um meio rpido de pagar algumas dvidas e evitar uma surra. Ele no ser de grande ajuda, quando o encontrarem, 
mas vai dizer alguma coisa. S posso imaginar que os federais pretendem mant-lo isolado. - At agora, seu raciocnio parece impecvel. Pegue a garrafa e venha se 
sentar.
       Mel fez o que ele dizia, cruzando as pernas sob o corpo na cadeira.
       -  pouco provvel que os federais dem alguma folga a uma testemunha como ele.
       - Concordo. - Sebastian levou os pratos para a mesa: macarro penne com molho de tomates e ervas, fils de frango grelhados no vinho e fatias grossas de po 
crocante.
       - Mas eles daro uma chance a voc - Mel falou. - Eles lhe devem isso.
       Sebastian serviu o prato dela.
       - Talvez.
       - Eles podem lhe dar uma cpia do depoimento de Parkland, quando o pegarem. Talvez at permitam que voc o interrogue. Se voc disser que ainda est interessado 
no caso, eles vo lhe passar as informaes.
       - Sim pode ser. - Sebastian experimentou a comida e achou-a excelente. - Mas ser que ainda estou interessado?
       Mel agarrou-lhe o pulso, antes que ele pudesse cortar mais um pedao do frango macio.
       - Voc no gosta de terminar o que comeou?
       Ele ergueu os olhos para Mel, fitando-a de um jeito profundo, to profundo que ela sentiu, os dedos tremerem, antes de tir-losdo brao dele.
       - Eu gosto, sim.
       Inquieta, ela cortou um pedao de po.
       - Bem, e ento?
       - Vou ajud-la. E usarei todos os contatos que puder. - Agradeo muito. - Embora tivesse o cuidado de no toc-lo novamente, ela sorriu e seus olhos suavizaram-se. 
De verdade, vou ficar lhe devendo esta.
       - No, acredito que no. No quando ouvir as minhas condies. Ns vamos trabalhar juntos.
       Ela colocou o po na mesa.
       - Escute, Donovan, eu agradeo a oferta mas gosto de trabalhar sozinha. Alm disso o seu estilo... as vises e estas coisas... me deixam nervosa.
       -  muito justo. O seu estilo... armas e estas coisas... tambm me deixam nervoso. Portanto, vamos fazer um acordo. Trabalhamos juntos e aceitamos as nossas... 
excentricidades mtuas. Afinal, o que importa  o objetivo, no ?
       Mel ficou pensativa, mexendo na comida em seu prato.
       - Acho que eu tive uma idia, que daria mais certo se fingssemos ser um casal. Um casal sem filhos. - Ainda incerta: olhou para ele. - Mas se realmente concordarmos 
em trabalhar Juntos, pelo menos desta vez, teremos de estabelecer algumas regras.
       - Ah, sim, sem dvida.
       - No d essa risadinha irnica, quando diz isso. - Desligando-se completamente do assunto, ela concentrou-se na comida. - Est muito bom. - Comeu mais uma 
garfada. Muito bom, mesmo. E nem parece que foi to fcil. 
       - Voc me deixa lisonjeado - Sebastian ironizou.
       - No, eu quis dizer que... - Ela riu, encolheu os ombros e comeu mais um pouco. - Acho que sempre pensei que a boa comida significa comida trabalhosa. Minha 
me trabalhou muitas vezes como garonete, ento levava comida pronta para casa. Mas quase sempre era de restaurantes baratos ou lanchonetes. Nada como esta comida 
aqui.
       - Sua me est bem?
       - Ah, claro que sim. Recebi um carto postal de Nebraska, na semana passada. Ela viaja muito por a. Tem "comicho nos ps".
       - E seu pai'?
       Uma breve hesitao, uma leve sombra de tristeza.
       - No me lembro dele.
       - E o que a sua me acha da sua profisso?
       - Ela acha excitante. Mas, enfim, assiste televiso demais. E quanto  sua? - Mel pegou a taa e fez um gesto. - Como seus pais se sentem sobre voc ser o 
mago de Monterey?
       - No creio que este seja o termo que eu usaria - Sebastian falou, aps um momento. - Mas, se pensarem assim, imagino que fiquem contentes por eu estar seguindo 
a tradio da famlia.
       Mel quase engasgou com o vinho.
       - O que vocs so, uma espcie de conveno de bruxos?
       - No - ele respondeu com toda calma, sem ofender-se. - Somos uma famlia.
       - Sabe, eu jamais teria acreditado em nada disso seno estivesse... Bem, eu estava l. Mas isso no significa que tenha engolido a histria toda. - Ela encarou-o, 
com uma expresso cuidadosa e calculadora. - Andei lendo algumas coisas, sobre experincias e pesquisas sobre este assunto. Muitos cientistas respeitveis acreditam 
que fenmenos medi nicos realmente existem.
       - Isso  muito reconfortante.
       - No seja falso - Mel disse, ajeitando-se na cadeira. O que quero dizer  o seguinte: eles reconhecem que no entendem completamente a mente humana. Isso 
 lgico, racional. Eles analisam resultados de eletroencefalogramas, e coisas assim. Voc sabe estudam as pessoas que conseguem adivinhar o que h por trs de um 
carto, estas coisas. Mas no significa que aceitem a feitiaria, profecias ou poes mgicas.
       - Uma poozinha mgica no lhe fana mal algum - ele murmurou. - Preciso conversar com Morgana sobre isso.
       - Estou falando srio - ela comeou.
       - Eu tambm. - Sebastian tomou-lhe a mo. - Eu nasci com o sangue dos elfos. Sou um feiticeiro por herana, e as razes da minha famlia remontam a Finn, 
dos Celtas. Meu dom  a viso. No foi pedido, nem exigido, mas sim concedido. Isso no tem nada a ver com a lgica, a cincia, nem com danar nu sob o luar.  o 
meu legado. O meu destino. .
       - Bem - Mel falou, depois de um longo momento. E repetiu: - Bem... - Umedeceu os lbios e limpou a garganta. - Nessas pesquisas, eles fazem experincias com 
a telecinese, telepatia...
       - Voc quer uma prova, Mel?
       - No. Sim... Isto , se vamos trabalhar juntos neste projeto, gostaria de saber a extenso dos seus... talentos.
       - Muito justo. Pense num nmero, de um a dez. Seis Sebastian disse, antes que ela pudesse abrir a boca.
       - Eu no estava pronta.
       - Mas foi o primeiro nmero que apareceu em sua mente.
       Era verdade, mas Mel balanou a cabea.
       - Eu ainda no estava pronta. - Fechou os olhos. - Agora. Ela era boa, Sebastian pensou. Muito boa. Naquele instante, estava usando toda sua vontade para 
bloque-lo. A fim de distra-Ia, deu uma leve mordida num dos dedos da mo que ele ainda segurava.
       - Trs.
       Mel abriu os olhos.
       - Muito bem. Como faz isso?
       - Vem da sua mente para a minha. - Sebastian roou os lbios na mo dela. - s vezes sob a forma de palavras, s vezes em imagens, s vezes apenas em sensaes 
que so impossveis de descrever. Agora, voc est pensando se bebeu um pouco demais, porque seu corao est batendo rpido, sua pele est quente. E sua cabea 
est leve.
       - Minha cabea est tima. - Mel puxou a mo. - Ou estaria, se voc ficasse longe dela. Eu consigo sentir...
       - Sim: - Satisfeito, ele recostou na cadeira e pegou a taa. - Eu seI que voc consegue. E muito raro que algum que no seja da famlia consiga me sentir, 
especialmente numa sondagem to superficial. Voc tem um bom potencial, Sutherland. E se quiser explor-lo, terei prazer em ajudar.
       Mel no pde disfarar o rpido tremor que a perpassou.
       - No, obrigada. Gosto da minha cabea do jeito que est. - Cautelosa, pousou a mo na testa enquanto olhava para Sebastian. - No me sinto muito bem Com 
a idia de que algum seja capaz de ler a minha mente. E se formos adiante com a nossa sociedade temporria, esta deve ser a primeira regra.
       -: De acordo. No vou espiar em sua mente a no ser que voc me pea. - Reparando na dvida nos olhos dela ele sorriu. - Eu no minto, Mel.
       - Isso faz parte do cdigo de honra dos bruxos?
       - Como quiser.
       Ela no queria, mas iria aceitar a palavra dele.
       - Tudo bem. A prxima regra: vamos compartilhar todas as informaes. Nada de ocultar os fatos.
       O sorriso dele era to encantador quanto perigoso.
       - Estou mais do que disposto a concordar. Alis, estamos ocultando os fatos h tempo demais.
       - Somos profissionais. Vamos deixar tudo no plano profissional.
       - Quando for necessrio. - Sebastian tocou a borda da taa na dela. - Um jantar a dois  considerado profissional?
       - Ora, no precisa ser ridculo. O que quero dizer  que, se vamos fingir que somos um casal que deseja um filho no precisamos deixar que nossa atuao... 
       - Ultrapasse aqueles seus famosos limites - ele completou. - Eu entendo. Voc tem um plano?
       - Bem, ajudaria bastante se tivssemos a cooperao do FBI.
       - Deixe isso por minha conta.
       Mel sorriu. Era exatamente o que estava esperando.
       - Com o apoio deles poderemos estabelecer uma identidade slida. Documentos, antecedentes, declaraes de imposto de renda... essa coisa toda. Precisamos 
chamar a ateno da organizao, portanto teremos de estar bem de vida, mas no to ricos a  ponto de amedront-los. Teremos de ser recm-chegados na comunidade 
que escolhermos. Sem laos, sem, sem famlia. Precisaremos estar inscritos nas listas de espera de vrias agncias de adoo respeitveis. Ter registros em clnicas 
e mdicos especializados em fertilidade Assim que os federais puserem as mos em Parkland, ou em qualquer um dos outros, teremos uma noo melhor de onde nos instalarmos, 
e como.
       - Pode haver um jeito mais fcil.
       -Como?
       Sebastian fez um gesto distrado.
       - Deixe comigo. Mas isso tudo poderia demorar tempo demais.
       - Sim, poderia. E valeria a pena.
       - Vamos fazer um acordo. Eu decido por onde devemos comear, quando e como, e voc cuida dos procedimentos a partir da.
       Mel hesitou, ciente de que nunca fora muito boa em acordos.
       - Se voc decidir sobre quando, onde e como, ser por motivos slidos, e terei de aceit-los.
       - Certo.
       - Certo. - Parecia bem simples. E se havia um frisson e excitao perpassando-a era causado pela antecipao de um trabalho interessante e recompensador. 
- Acho que vou ajud-lo a lavar estes pratos.
       - Ela levantou-se e comeou a empilhar os pratos de porcelana delicada com a competncia que sua me garonete lhe ensinara. Sebastian pousou a mo em seu 
brao. O frisson transformou-se numa labareda.
       - Deixe-os a mesmo.
       - Voc cozinhou - ela disse, afastando-se rapidamente na direo da pia. Uma salinha, pensou. Uma salinha e muito trabalho era tudo o que precisava para manter-se 
equilibrada. - E, pela aparncia desta cozinha~ voc no  do tipo que deixa pratos sujos amontoados na pia.
       Sebastian estava atrs dela, quando Mel se virou, e suas mos seguraram-lhe os ombros para impedir que se deviasse  novamente.
       Ento serei imprevisvel.
       - Ou pode contratar alguns elfos para lav-los para voc - ela murmurou.
       - No costumo contratar elfos... no na Califrnia. - Quando o olhar dela aguou-se, Sebastian comeou a massagear-lhe os ombros. - Voc est ficando tensa 
outra vez, Mel. Durante o jantar estava bem relaxada. At sorriu para mim vrias vezes, o que achei uma mudana muito agradvel.
       - No gosto quando as pessoas me tocam. - Mas ela no se afastou. Afinal, no havia para onde ir.
       - Por que no?  apenas uma forma de comunicao. Existem muitas... vozes, olhos, mos. - As mos dele escorregaram pelos ombros de Mel, transformando seus 
msculos em gua. - Mentes. Um toque no precisa ser perigoso.
       - Mas pode ser.
       Sebastian sorriu, enquanto os dedos deslizavam pelas costas dela.
       - S que voc no  covarde, Mel. Uma mulher como voc enfrenta situaes perigosas sem pestanejar.
       Ela empinou o queixo, exatamente como Sebastian esperava que fizesse.
       - Vim aqui para conversar com voc.
       - E ns conversamos. - Ele puxou-a mais para si, de forma que teria apenas de inclinar a cabea para pressionar os lbios naquela boca macia e carnuda. - 
Gostei muito da nossa conversa.
       Ela no seria seduzida. Era uma mulher adulta com suas prprias convices, e a seduo estava, sempre estivera, fora de questo. Levantou a mo at o peito 
dele e deixou-a ali, os dedos espalmados, sem resistir nem convidar.
       - No estou a fim de brincadeiras, Donovan.
       - Que pena. - Ele roou levemente os lbios sobre os dela antes de virar a cabea e pass-los sob a linha do seu queixo. - Eu gosto de brincadeiras. Mas poderemos 
deix-las para uma outra hora.
       Estava ficando muito difcil respirar.
       - Escute, talvez eu esteja atrada por voc, mas isso no significa... nada.
       -  claro que no. A sua pele  inacreditavelmente delicada neste lugarzinho, Mary Ellen.  como se seu pulso pudesse romper a pele, se continuar batendo 
to forte.
       - Isso  ridculo.
       Mas quando Sebastian puxou-lhe a camiseta para fora da cala e deslizou as mos peIas suas costas nuas, Mel sentiu-se cala to delicada como um botozinho 
de rosa. Com um som que era um misto de gemido e suspiro, ela arqueou-se contra ele.
        - Eu j estava quase perdendo a pacincia - ele murmurou, beijando-a no pescoo. - Esperando que voc viesse a mim.
       - Eu no vim. - Mas os braos dela enlaavam-lhe o pescoo e seus dedos mergulhavam nos cabelos dele. - No foi por isso que eu vim aqui.
       Mas ela no sabia? Em algum lugar dentro de si, j no sabia?
       - Preciso pensar. Isso pode ser um erro. - Porm, mesmo enquanto falava, sua boca movia-se avidamente sobre a dele. - Detesto cometer erros.
       - Humm... Todo mundo detesta. - Sebastian espalmou as mos em torno dos quadris dela. Com um murmrio de aceitao, Mel elevou o corpo, passando as pernas 
pela cintura dele. - Mas no  um erro.
       - Vou pensar nisso mais tarde - ela disse, enquanto Sebastian a levava para fora da cozinha. - S no quero que isso atrapalhe o nosso trabalho.  importante 
demais para mim. Quero que d certo, e irei me odiar para sempre se estragar tudo s porque... - Com um gemido, ela pressionou a boca no pescoo msculo. - Quero 
voc. Quero muito...
       As palavras dela provocaram um latejar na cabea de Sebastian, lento, rtmico, sedutor. Com uma das mos ele segurou-lhe a nuca, para que pudesse beij-la.
       - Uma coisa no tem nada a ver com a outra - disse.
       - Mas poderia. - O corpo de Mel pressionava-se contra o dele, enquanto Sebastian subia os degraus da escada. Ela respirava ofegante, quando seus olhos se 
encontraram. - Poderia. - Ento deixe estar. - Sebastian empurrou a porta do quarto com o p. - Vamos quebrar algumas regras.
       
       
       
    CAPTULO 8
       
       
       
       EIa nunca fora do tipo que joga a cautela para os ares. Correr riscos, tudo bem, mas sempre estando ciente das conseqncias. No havia maneira de calcular 
as probabilidades agora, no com Sebastian. Mais uma vez, dependia dos seus instintos. Embora sua razo lhe dissesse para afastar-se dele e correr, algo mais, algo 
muito mais profundo, a obrigava a ficar.
       A confiar.
       Mel ainda estava enroscada nele, com o corao disparando. No era a timidez que a fazia hesitar. Ela jamais se considerara extremamente sensual, ou com uma 
aparncia melhor do que a mdia, portanto sentia que no tinha nada do que se envergonhar. Era a certeza sbita de que isto era algo vital que a levava a olhar para 
ele, longa e profundamente.
       E o que viu foi exatamente o que queria ver.
       Seus lbios curvaram-se devagar. Quando deixou o corpo escorregar pelo dele, Sebastian apoiou-lhe as costas no espaldar alto da cama, de forma que, quando 
seus ps tocassem o cho, ela estivesse presa entre a madeira lustrosa e entalhada, e o corpo dele.
       Com os olhos fixos nos dela, Sebastian comeou a acarici-la devagar, os dedos deslizando pelas coxas, quadris, os lados dos seios, no pescoo, tmporas. 
Mel estremeceu quando finalmente chegaram em seus cabelos e, prendendo-os, ele colou os lbios nos dela.
       O corpo de Sebastian estava pressionado no dela com tal fora que ela sentia cada linha e Curva. Pressentiu que o poder dentro dele era como um lobo preso 
numa correia, prestes a soltar-se a qualquer instante.  Mas foi a boca que tirou-lhe da mente qualquer possibilidade de raciocnio. Insacivel e possessiva, provocava-lhe 
todas as nuances de emoes. Desejos e dvidas, temores e anseios. Mel sentiu sua prpria vontade sendo entregue a ele como se fosse um presente.
       Sebastian sentiu aquele momento de entrega, quando o corpo dela estava to rijo quanto frgil contra o seu, quando os lbios dela tremeram, para depois ir 
em busca de mais do que ele pudesse lhe dar. O desejo penetrou-o como uma lmina de prata, separando o civilizado do desesperado, e fazendo-o vibrar como um garanho 
que sente o cheiro de cio. 
       Ele afastou a cabea para trs e Mel viu que seus olhos estavam escuros como a noite, repletos de necessidades afoitas e vontades imprudentes. E o poder. 
Ela estremeceu, primeiro com medo e, depois, pelo prazer glorioso. 
       Foi esta resposta que e ele viu. E a reao que ele aceitou.
       Com um puxo violento, Sebastian abriu-lhe a blusa de uma s vez. Mel ofegou contra os lbios dele. E quando atiraram-se na cama, as mos dele estavam em 
toda a parte, acariciando, machucando, tomando e atormentando.
        Em resposta, Mel arrancou-lhe a camisa, arrebentando os botes e tirando-a apressadamente, enquanto rolavam pelos lenis. Quando sentiu a pele dele contra 
a sua, emitiu um grande suspiro de aprovao.
       Sebastian dava-lhe pouco tempo para pensar e nenhum para questionar. Era como se estivesse levando-a para dentro de uma tempestade repleta de relmpagos, 
troves ensurdecedores e ventos avassaladores. Ela sabia que era apenas fsico. No havia nada de mgico nas na habilidade das mos dele, no gosto enlouquecedor 
da sua boca. Mas, ah, parecia magia ser levada daquele jeito, para alm do comum, muito alm da simples beleza de um entardecer rseo e do soar das criaturas noturnas 
que despertavam.
       Para onde ele a levava tudo era velocidade vertiginosa e prazer indescritvel. Um sussurro em algum idioma que ela no conseguiu entender. Um encantamento? 
Uma promessa de amor? O som era bastante para seduzi-la. Um toque, rude ou delicado, era aceito com prazer. O gosto dele, quente e salgado em seus lbios, fresco 
e calmante em sua lngua, era o suficiente para faz-la ansiar por mais.
       
       To generosa, a mente atordoada de Sebastian pensou. To forte e generosa. Sob a luz mortia do anoitecer, a pele dela reluzia como a de Uma deusa guerreira 
preparada para a batalha. Mel era esguia e firme, gil como uma fantasia, receptiva como um desejo. Ele sentiu seu respirar ofegante no ouvido, depois o sbito e 
convulsivo mergulho de suas unhas nas costas, enquanto o corpo dela estremecia com o clmax que ele lhe proporcionava.
       Mesmo quando mos exaustas de Mel deslizaram pelos seus ombros midos, Sebastian j a percorria inteira novamente. Louco para experimentar, para fazer com 
que seu corao disparasse outra vez, at que pudesse ouvi-Ia chamar seu nome gemendo.
       Ele abraou-a, balanando a cabea at que sua viso se clareasse, at que pudesse ver-lhe o rosto, os olhos semicerrados e sonolentos de prazer, seus lbios 
inchados e tremendo a cada respirao.
       - Venha comigo - ele pediu.
       Enquanto ela o abraava, ele penetrou-a. E Soube, enquanto moviam-se juntos, que alguns encantamentos no exigem nada alm de um corao aberto.
       
       Mel pensou que estava ouvindo msica. Linda, suave. Msica do corao. Ela no sabia de onde viera esta frase, mas sorriu com o pensamento e virou-se.
       No havia ningum ao seu lado, na cama.
       Despertando instantaneamente, ela sentou-se no escuro. Embora a noite estivesse escura como breu, soube que estava sozinha no quarto. O quarto de Sebastian. 
Estar com ele no fora um sonho. Nem estar sozinha, naquele momento, era um sonho.
       Acendeu a luz ao lado da cama e protegeu os olhos at que se acostumassem.
       No chamou por ele. Ela teria se sentido muito tola, se chamasse o nome dele numa cama vazia, num quarto sombrio. Em vez disso, arrastou-se para fora da cama 
e pegou a camisa dele que continuava jogada no cho. Enquanto enfiava os braos nas mangas, foi seguindo o som da msica.
       Esta no vinha de nenhuma direo palpvel. Embora fosse suave como um Sussurro, parecia rode-la. Estranho, por mais que aguasse os ouvidos, no conseguia 
ter certeza se ouvia vozes unidas numa cano, ou se eram cordas, flautas e metais. Era simplesmente um som, uma adorvel vibrao do ar, to bela quanto misteriosa.
       Mel flutuou com a msica, deixando-se levar pelo instinto. O som no ficava mais alto, nem mais baixo, mas parecia tornar-se mais fludo, banhando toda sua 
pele, deslizando para sua mente enquanto ela seguia por um corredor serpenteante, que acabava num pequeno lance de escadas.
       Ela viu o brilho de velas acesas, um lampejo etreo que formava uma trilha dourada quando ela aproximou-se de um quarto no fim do corredor. Havia um perfume 
de cera quente, de sndalo, de fumaa pungente.
       Ela no percebeu que estava prendendo o flego quando parou na porta e olhou.
       O cmodo no era grande. Mel pensou que a palavra cmara seria mais apropriada para descrev-lo, mas no teve certeza de como um termo to extico foi surgir 
em sua mente. As paredes eram claras, em tons quentes de madeira, ardendo agora com as luzes msticas de dezenas de velas brancas e finas.
       Havia trs janelas, no formato de meia-lua. Mel lembrou-se de t-las visto do lado de fora e percebeu que o cmodo ficava no alto da casa, de frente para 
os rochedos e o mar.
       No teto, as estrelas reluzentes podiam ser vistas atravs da clarabia que ele abrira para a noite e o ar. Havia cadeiras, mesas e aparadores, todos parecendo 
pertencer a um castelo medieval, em vez de uma casa moderna em Big Sur. Neles, Mel viu esferas de cristal, vasilhas coloridas, espelhos de prata trabalhada, finos 
bastes de vidro transparente, e taas craveja das de pedras brilhantes.
       Ela no acreditava em magia. Mel sabia que sempre haveria uma gaveta falsa na arca do mgico, e um s de paus escondido na manga. Porm, parada ali, na soleira 
daquele cmodo, sentiu o ar pulsar e latejar como se estivesse vivo, com uma centena de coraes.
       E sabia que havia mais coisas, naquele mundo que ela julgava conhecer, do que ela jamais poderia sonhar.
       Sebastian estava sentado no centro do salo, no meio de um pentagrama prateado incrustado no piso de madeira. Estava de costas para ela, e completamente imvel. 
A curiosidade de Mel sempre fora muito forte, mas ela descobriu algo ainda mais forte: a necessidade de deix-lo sozinho, com sua privacidade.
       Mas, no instante em que ela ia sair pela porta, Sebastian falou. - Eu no pretendia acord-la. 
       - No me acordou - Mel brincou com um dos poucos botes que restavam na camida. - Foi a msica. Ou melhor, eu acordei, ouvi a msica e fiquei pensando... 
- Olhou em volta, atnita. No havia nenhum aparelho de som, nenhum gravador. - Fiquei pensando de onde estaria vindo.
       - Da noite.
        Ele levantou-se. Embora jamais tivesse se considerado puritana, Mel sentiu-se ruborizar ao v-lo nu, sob a luz das velas, estendendo-lhe a mo.
       - Sou naturalmente barulliento, mas no queria incomod-la.
       - No me incomudou. - A hesitao dela fez com que Sebastian franzisse a testa, depois desse um passo a frente para tomar-lhe a mo. - Eu precisava limpar 
a mente, e no conseguia fazer isso ao seu lado. - Levou a mo dela aos lbios, beijando-a. - H pensamentos demais atrapalhando a vazo.
       - Acho que eu deveria ter ido para casa.
       - No. - Sebastian inclinou-se e beijou-a, levemente, docemente. - No, de verdade.
       - Bem,  que... - Mel deu um passo para trs, desejando ter alguma coisa a fazer com as mos. - Eu no costumo fazer este tipo de coisa.
       Ela parecia to jovem, Sebastian pensou, e to frgil, parada ali com sua camisa, com os cabelos revoltos de amor e sono, e com os olhos muito abertos. 
        - Ser que posso dizer que, desde que decidiu abrir uma exceo para mim, voc faz este tipo de coisa muito bem?
       - No precisa dizer nada. - Ento sorriu. Eles tinham feito incrivelmente bem. - Mas. Enfim, no faz mal algum dizer. Voc sempre fica sentado no cho, nu 
e sob a luz de velas?
       - Quando sou indizido pelos espritos.
       Sentindo-se mais  vontade, Mel comeou a andar pela sala, olhando os objetos. Pressionando os olhos, examinou um espelho que parecia ter sculos de idade.
       - Essas coisas todas so mgicas?
       Naquele momento, vendo-a espiar desconfiada aquela pea inestimvel, Sebastian adorou-a.
       - Dizem que este espelho pertenceu a Ninian.
       - Quem?
       - Ah, Sutherland, sua educao  lamentavelmente deficiente. Ninian foi uma feiticeira, famosa por ter aprisionado Merlin numa caverna de cristal.
       -  mesmo? - Mel olhou o espelho com mais ateno, achou-o uma pea bonitinha, depois deixou-o para examinar uma esfera de quartzo esfumaado. - E isto, para 
que serve?
       - Diverso.
       Sebastian no tinha necessidade de espelhos mgicos nem de bolas de cristal para ver. Mantinha os objetos por ali apenas pelo prazer da tradio, e por um 
senso de esttica. E era divertido v-la franzir a testa e examinar aquelas ferramentas de poder.
       Havia algo que ele queria lhe dar, um pequeno presente. No se esquecera da furtiva tristeza que vira nos olhos dela, quando Mel lhe contara que no se lembrava 
do pai.
       - Voc gostaria de ver?
       - Ver o qu?
       - De ver - ele falou com delicadeza, aproximando-se dela. - Venha. - Pegou a esfera com uma das mos e a de Mel com a outra, e levou-a para o centro do quarto.
       - Eu realmente acho que no...
       - Ajoelhe-se. - Ele puxou-a para baixo consigo. - Passado ou futuro, Mel? O que voc prefere?
       Com um risinho nervoso, ela sentou nos calcanhares.
       - Voc no deveria estar usando um turbante?
       - Use a imaginao. - Ele tocou-lhe a face. - O passado, eu acho. Voc prefere cuidar do seu prprio futuro.
       - Tem razo quanto a isso, mas...
       - Ponha as mos no globo, Mel. No h nada a temer.
       - No estou com medo. - Ela encolheu-se um pouco e respirou fundo. -  s um pedao de vidro.  estranho, s isso - murmurou enquanto pegava o cristal.
       Sebastian posicionou as mos sob as dela e sorriu.
       - Minha tia Bryna, me de Morgana, deu-me esta bola de cristal como presente de crisma. Para mim, foi o equivalente a aprender a andar numa bicicleta de duas 
rodas.
       O cristal estava frio nas mos de Mel, liso e fresco como as guas de um lago.
       - Eu tive uma bola, quando era criana.  - ela falou - era de plstico preto. A gente fazia uma pergunta para ela, depois balanava e um papelzinho com alguma 
coisa escrita saia atravs de uma abertura. Geralmente dizia algo como "resposta no muito clara, tente outra vez"
       Sebastian tornou a sorrir, achando o nervosismo dela encantador. O poder estava fluindo nele, doce como um vinho, leve como a brisa da primavera. Esta era 
uma coisa simples, que ele poderia lhe mostrar.
       - Olhe dentro da esfera - disse, e sua voz ecoou estranhamente na sala. - E veja.
       Ela foi compelida a obedecer. A princpio viu apenas uma bola bonita, com pequenas fraturas no interior que formavam reluzentes arco-ris. Depois surgiram 
as sombras, sombras dentro de sombras, formas se modificando, cores mesclando-se.
       - Ah... - Ela murmurou, pois o cristal j no estava mais frio, e sim quente como um raio de sol.
       - Olhe - ele falou novamente e, e parecia eu sua voz ecoava no interior da cabea de Mel.
       Mel viu sua maquiagem pesada nos olhos e o batom claro demais nos lbios. Havia um riso em sua expresso, que fazia com que a beleza sobrepujasse a maquiagem. 
Os cabelos eram loiros, na altura dos ombros, e bem lisos. Ela estava rindo para um rapaz num uniforme branco, com um bon de marinheiro cado para o lado.
       O jovem segurava uma criana de cerca de dois anos, usando um vestido cor-de-rosa cheio de babadinhos, sapatos de verniz preto e meias brancas com rendinhas.
       No era qualquer criana. Mel pensou, sentindo o corao disparar. "Esta sou eu. Sou eu."
       Havia um navio ao fundo, um enorme navio cinzento de guerra. Uma banda estava tocando uma vibrante marcha militar e muitas pessoas falavam ao mesmo tempo, 
reunidas ali. Mel no conseguia entender as palavras, apenas ouvia os sons.
       Ela viu o homem atir-la no ar, bem alto. Na sala iluminada pelas velas, viu-se carregada com carinho e alegria. Havia tambm amor, confiana e inocncia. 
Os olhos dele reluziam, fitando-a com orgulho, humor e excitao. Mos fortes segurando-a, um leve perfume de colnia aps barba. Um riso borbulhando em sua garganta, 
quando foi atirada no ar e abraada mais uma vez.
       Viu as imagens mudando. Viu os seus pais beijando-se. Ah, tanta ternura no beijo. Ento o rapaz que era o seu pai fez uma continncia brincalhona para elas, 
jogou a mochila no ombro e encaminhou-se para o navio.
       Novamente, a esfera em suas mos era apenas um cristal bonito, com minsculas fraturas que lanavam arco-ris para ela.
       - Meu pai. - Mel teria derrubado a bola, se as mos de Sebastian no a amparassem com firmeza. - Era o meu pai. Ele... ele estava na Marinha. Queria conhecer 
o mundo. Partiu de Norfolk, naquele dia. Eu tinha apenas dois anos, no me lembro. Minha me disse que fomos nos despedir e que ele estava muito animado e feliz.
       Sua voz vacilou, e ela teve de esperar um minuto.
       - Poucos meses depois, houve uma tempestade no Mediterrneo e ele foi dado como perdido no mar. Tinha vinte e dois anos. Era apenas um menino. Mame tinha 
fotos dele, mas  difcil saber pelas fotos. - Mel olhou para a esfera outra vez e depois, lentamente, para Sebastian. - Eu tenho os olhos dele. Nunca soube que 
meus olhos so iguais aos dele.
       Fechou-os por um momento, esperando que seu sistema se equilibrasse um pouco.
       - Eu realmente vi, no foi?
       - Sim. - Sebastian tocou-lhe os cabelos. - Mas no lhe mostrei para deix-la triste, Mary Ellen.
       - No fiquei triste, apenas lamento. - Com um suspiro, ela abriu os olhos. - Lamento por no conseguir me lembrar dele. Lamento que minha me no consiga 
esquec-lo, e que eu jamais compreendi isso antes. Fiquei feliz por poder v-lo e por v-los juntos... todos ns juntos, pelo menos uma vez. Retirou as mos, deixando 
a esfera na mo dele. - Obrigada.
       - Foi muito pouco, depois de tudo o que voc me deu esta noite.
       - O que eu lhe dei? - ela perguntou, enquanto Sebastian levantava-se para deixar a esfera no lugar.
       - Voc.
       - Ah, bem... - Limpando a garganta, Mel tambm se levantou. - No sei se devemos colocar as coisas desta maneira.
       - E como devemos colocar?
       Ela encarou-o e sentiu aquela nova sensao de fragilidade flutuando em seu estmago.
       - No sei, exatamente. Ns dois somos adultos.
       - Sim. - Sebastian comeou a se aproximar, e ela prpria surpreendeu-se afastando-se.
       - Descomprometidos.
       -  o que parece.
       - Responsveis.
       - Admiravelmente. - Ele passou os dedos pelos cabelos dela. -- Eu queria v-Ia sob.a luz das velas, Mary Ellen.
       - No comece com isso. - Ela afastou-lhe a mo.
       - O qu?
       - No me chame de Mary Ellen e no comece com essa histria de violinos e luz de velas.
       Os olhos de Sebastian fixaram-se nos dela, enquanto deslizava o dedo pela sua garganta.
       - Voc faz alguma objeo ao romantismo?
       - No, exatamente. - As emoes de Mel estavam prximas demais da supefcie, depois do que vira na esfera. Ela precisava certificar-se de que ainda tinham 
algumas regras bsicas. - S no preciso disso. E no saberia o que fazer com isso. Acho que nos entenderamos melhor se soubssemos qual  a nossa posio.
       - E qual e a nossa posio? - Sebastian perguntou escorregando as mos em torno da cintura dela.
       - Como eu disse, somos adultos responsveis e descomprometidos. E estamos atrados um pelo outro.
       Sebastian pousou os lbios em sua testa.
       - At agora, no vejo do que discordar.
       - E contanto que sejamos sensatos ao lidar com este relacionamento.
       - Ah, talvez haja algum problema, aqui.
       - No vejo porque.
       Ele deslizou as mos pelo corpo dela, at alcanar os seios.
       - Eu no me sinto particularmente sensato.
       Mel, sentiu os joelhos dobrarem-se. Pendeu a cabea para trs.
       - E s uma questo de... estabelecer prioridades.
       - Eu tenho as minhas prioridades. - Sebastian obrigou-a a abrir os lbios, provocando-a com a ponta da lngua. - Aprimeira da lista  fazer amor com voc 
at que no tenhamos foras nem para sair da cama.
       - timo. - Mel deixou-se levar sem protestos, quando ele puxou-a para o cho. -  um bom comeo.
       
       Ela realmente trabalhava melhor se fizesse listas e relaes de tudo. Na tarde seguinte, Mel debruava-se sobre sua escrivaninha, fazendo o possvel para 
montar uma lista. Era a primeira hora de folga que tivera desde que chegara correndo da casa de Sebastian s dez da manh, sentindo-se em frangalhos e j atrasada.
       Ela nunca se atrasava. Mas,  claro, nunca antes tivera um caso com um feiticeiro. Obviamente aquele era um ms cheio de novidades e primeiras vezes.
       Se no tivesse um compromisso marcado com um cliente, formulrios para preencher e um depoimento no tribunal  sua espera naquele dia, talvez nem tivesse 
sado da casa dele. Sebastian certamente fizera de tudo para convenc-la, Mel lembrou-se enquanto tamborilava o lpis nos lbios sorridentes.
       Definitivamente, Sebastian tinha um bocado de poder.
       Mas trabalho  trabalho, disse a si mesma. E ela precisava cuidar dos seus negcios.
       A melhor notcia do dia foi que a Polcia Estadual de New Hampshire conseguira apanhar James T. Parkland. E havia um certo sargento, muito grato pela "dica" 
que ela havia lhe passado e zangado com o controle exagerado dos federais, que estava mostrando-se bastante cooperativo. Ele enviara um fax para Mel, com uma cpia 
integral do depoimento de Parkland.
       Era um comeo.
       Mel j tinha o nome do ricao que fazia os pagamentos de Parkland e pretendia fazer bom uso disso. Com alguma sorte, ela iria passar uns dias no lago Tahoe.
       Precisava convencer Devereaux. Ele iria querer usar seus prprios agentes para qualquer tipo de investigao, e Mel teria de apresentar motivos muito slidos 
para persuadi-lo de que ela e Sebastian formariam uma isca bem melhor.
       Sua assistncia e cooperao no caso Merrick trabalhariam a seu favor, porm Mel no achava que isso bastaria para firmarem um acordo. Seus antecedentes eram 
bons, pois ela costumava trabalhar sem grandes estardalhaos, e pressentia que Devereaux desaprovava detetives particulares muito espalhafatosos. A sociedade com 
Sebastian tambm era um ponto a Seu favor. E o fato de que estava perfeitamente disposta a deixar que os federais ficassem com a maior parte do crdito na resoluo 
do caso, acrescentara um pequeno peso em seu lado da balana.
       - O expediente ainda no terminou? - Sebastian perguntou enquanto abria a porta.
       Mel esforou-se para ignorar o rpido arrepio que perpassou-a por inteiro, e sorriu. 
       - Na verdade, vou encerrar daqui a cinco minutos.
       - Ento cheguei na hora certa. O que  isso? - Segurando-lhe a mo, Sebastian puxou-a da cadeira para examinar o elegante terninho cor de pssego que ela 
usava.
       - Fui ao tribunal esta tarde, fazer um depoimento. - Ela moveu os ombros inquieta, quando ele comeou a brincar com seu colar de prolas. - Um caso de divrcio, 
bem desagradvel. Portanto, achei melhor me apresentar com uma aparncia elegante e feminina.
       - E conseguiu.
       - Para voc  fcil falar. Levo o dobro do tempo e tenho muito mais trabalho para me vestir como uma dama do que como uma pessoa normal. - Mel apoiou os quadris 
na mesa e entregou-lhe uma folha de papel. - Recebi uma cpia do depoimento de Parkland. .
       - At que foi rpido.
       - Como pode ver, o sujeito  um pobre coitado. Estava desesperado e no pretendia machucar ningum. Tinha dvidas de jogo e ficou fora de si. Receava pela 
prpria vida. - Mel resmungou um rpido e pouco feminino palavro, expressando a opinio que tinha sobre tais desculpas esfarrapadas. - Fiquei surpresa em ver que 
ele no aproveitou para culpar o pai por t-lo traumatizado quando negou-lhe um trenzinho vermelho no Natal.
       - Ele vai pagar pelo que fez - Sebastian falou. - Sendo um pobre coitado ou no.
       - Certo, porque tambm foi muito burro. Levar David para outro Estado foi realmente uma aposta alta. - Mel tirou os sapatos e massageou o calcanhar. - Agora, 
ele afirma que a oferta do servio foi feita pelo telefone.
       - Parece razovel.
       -  claro. Quer beber alguma coisa?
       - Hum-humm. - Sebastian leu o depoimento pela segunda vez, enquanto Mel saa para a cozinha.
       - Cinco mil dlares para seqestrar uma criana.  uma quantia bem insignificante, se comparada com a sentena que ele ter de cumprir. Ento... - Mel virou-se, 
viu que Sebastian estava parado perto da porta e entregou-lhe um refrigerante. - O sujeito estava devendo trezentos e cinqenta dlares para um cassino em Tahoe 
e sabia que, se no fizesse logo o pagamento, seu rosto passaria por uma "reforma" no muito agradvel. Ento decide roubar uma criana.
       Ele estava acompanhando seu raciocnio, mas tambm estava interessado em seu habitat pessoal.
       - Mas por que David? - Sebastian perguntou, passando por ela e entrando no cmodo contguo.
       - Eu verifiquei isso. Ele levou o carro na oficina de Stan, uns cinco meses atrs. E Stan  do tipo que mostra fotografias de David para qualquer um que esteja 
disposto a olhar. Ento, quando Parkland descobriu que surrupiar uma criana seria melhor do que passar por uma cirurgia plstica forada, calculou que o beb daquele 
mecnico seria seu bilhete premiado. At mesmo um imbecil como Parkland teria concludo que uma criana bonita e saudvel causa boa impresso num comprador.
       - Pode ser. - Sebastian coou o queixo, enquanto observava o quarto dela.
       Pelo menos presumia que fosse um quarto, pois havia uma cama estreita e desarrumada no centro. Tambm poderia ser uma sala de estar, com a poltrona estofada 
repleta de livros e revistas, uma tev porttil numa estante meio torta, e um abajur no formato de um peixe.
       -  aqui que voc mora?
       - ... - Mel chutou um par de botas para fora do caminho. -  o ano de folga da faxineira. Ento - continuou, sentando num ba decorado com adesivos das bandeiras 
de todos os cinqenta Estados americanos, como se no tivesse sido interrompida -, ele pega o servio, recebe as instrues do sr. X pelo telefone. Encontra a tal 
ruiva num local pr-determinado e faz a troca de David por um envelope cheio de dinheiro.
       - O que  isso?
       Mel, olhou para cima.
       - E um cofrinho do Z Colmia. Voc nunca assistiu os desenhos do Z Colmia? 
       - Acho que sim. - Intrigado, Sebastian sacudiu o cofde deix-lo onde estava. - Z Colmia e Catatau 
       - Exatamente. Bem, voltando ao...
       - E isso? - Ele indicou um pster pregado na parede. 
       -  o Manda-Chuva. Escute, voc est prestando ateno em mim?
       Sebastian virou-se e sorriu 
       - Estou pasmo Voc . Voc sabia que  muito livre para se ter a audcia de misturar roxo e cor de laranja num mesmo cmodo.
       - Gosto de cores vivas.
       - E lenis listrados de vermelho e branco.
       - Estavam em liquidao. - ela disse impaciente. - De qualquer forma, eu apago a luz quando vou dormir. Escute, Donovan, quanto tempo vamos perder discutindo 
a decorao de minha casa?
       - S mais um pouco.
       Sebastian pegou um pote no formato de um gato. Mel havia jogado de tudo l dentro. Um prego, um alfinete de segurana, uns dois botes avulsos, uma bala calibre 
22, um cupom de desconto do refrigerante que ela parecia beber a toda hora e o que Sebastian achou que seria uma chave voc no  do tipo ordeiro, no ?
       - Aplico meus talentos organizacionais no meu trabalho. Ele deixou o pote de lado e pegou um livro.
       - "Manual de Mediunidade"?
       - Pesquisa - ela disse, fechando a cara. Peguei na biblioteca, duas semanas atrs.
       - E o que achou?
       - Creio que tem muito pouco a ver com voc 
       - Aposto que est certa. - Largou o livro. - Mas este quarto tem muito a ver com voc. Exatamente como aquele seu escritrio aerodinmico l fora. A sua mente 
 muito disciplinada, como o seu arquivo de pastas.
       Mel no tinha certeza se aquilo era um elogio, apesar de reconhecer a expresso nos olhos dele.
       - Escute, Donovan...
       - Mas as suas emoes - Sebastian continuou, aproximando-se dela -, so muito caticas, muito coloridas.
       Mel afastou-lhe a mo com um tapinha, quando ele comeou a mexer em suas prolas.
       - Estou tentando manter uma conversa profissional.
       - Voc j ia encerrar o expediente do dia, lembra-se?
       - No tenho um horrio fixo. 
       - Nem eu. - Sebastian abriu um boto do casaquinho dela. - Estive pensando em fazer amor com voc desde a hora em que paramos de fazer amor, hoje cedo. 
       Mel sentiu a pele aquecer-se e sabia que suas tentativas de imped-lo de abrir seu casaco eram, no mnimo, determinadas.
       - Voc no deve ter muito em que pensar.
       - Ah, pensar em voc j  o bastante. Dei incio a algumas providncias que devem deix-la satisfeita. Profissionalmente. 
       Mel virou a cabea a tempo de evitar os lbios dele.
       - Que providncias?
       Com o agente Devereaux e seus superiores.
       Mel arregalou os olhos, enquanto tentava desvencilhar-se das mos dele.
       - Quando? E o que eles disseram? .
       - Pode-se dizer que a panela j foi para o fogo. Mas vai demorar uns dois dias para cozinhar. Voc precisa ser paciente.
       - Eu quero falar com ele pessoalmente. Acho que ele poderia...
       - Voc ter sua chance amanh. Ou depois de amanh, no mximo. - Sebastian cruzou os braos dela por trs das costas, usando os dedos como se fossem algemas. 
- O que ter que acontecer vai acontecer em breve. Eu sei quando, e sei onde.
       - Ento... 
       - Esta noite, somos apenas voc e eu.
       - Diga-me...
       Eu vou lhe mostrar - ele murmurou. - Eu vou lhe mostrar - Vou lhe mostrar como  fcil no pensar em nada alm disso, no sentir nada alm disso. E no querer 
nada alm disso.  - Com os olhos fixos nos dela, brincou com seus lbios. - No fui muito delicado com voc, antes.
       - No tem importncia.
       - Eu no me arrependo. - Mordeu levemente o lbio de Mel, depois aliviou a dor com a ponta da lngua. - Mas quando vi voc usando esta roupinha to sria 
me deu vontade de trat-la como uma dama. At deix-la louca de prazer.
       Ela riu, ofegante, sentindo os beijos dele em seu pescoo.
       - Pois acho que j est me deixando.
       - Ainda nem comecei.
       Com a mo livre, Sebastian tirou-lhe o casaquinho, Mel estava usando uma blusa de seda fina, por baixo, que o fez pensar em festas formais no jardim e elegantes 
chs da tarde. Enquanto deslizava a boca pelo seu rosto e pescoo, os dedos formaram uma trilha sobre o tecido macio e as rendas sob ele.
       O corpo de Mel j estremecia. Ela achava ridculo que Sebastian mantivesse seus braos presos, mas permitiu. Havia uma excitao diferente, fantasiosa em 
v-Io tocando-a daquele jeito lento, completo e tentador.
       Sentiu o hlito dele contra a pele, quando Sebastian abriu-lhe a blusa, e o calor mido de sua lngua logo acima, e depois logo embaixo, do seu suti. Sabia 
que ainda estava de p, com as pernas pressionadas contra a cama, mas sentia-se flutuar. Flutuando, enquanto ele a saboreava aos poucos, como se ela fosse um banquete 
a ser provado ao seu bel-prazer.
       A saia escorregou de seus quadris. A mo dele deslizou para cima. O murmrio de aprovao que ela emitiu foi baixo e longo, enquanto os dedos dele brincavam 
com O prendedor de sua cinta-liga.
       -Voc  to inesperada, Mary Ellen. - Com um movimento experiente, ele abriu o fecho.
       - Sou prtica - ela sussurrou ofegante, sentindo os dedos dele deslizarem na direo do calor. - Assim  mais barato, pois estou sempre... desfiando as meias.
       - Deliciosamente prtica.
       Lutando contra a necessidade de apressar-se, Sebastian deitou-a na cama. Em nome de Finn, como poderia saber que a viso daquele corpo forte e anguloso vestido 
em rendas e sedas seria capaz de deixar seu autocontrole em frangalhos?
       Queria devorar, conquistar, possuir.
       Mas havia lhe prometido a ternura.
       Ajoelhou-se sobre ela, inclinou-se para beij-la e manteve sua promessa.
       E ele estava certo, Mel pensou. Em poucos momentos j havia compreendido o quanto ele estava certo. Era to fcil no pensar em nada alm dele, no sentir 
nada alm dele, no desejar nada alm dele.
       Sentiu-se levada pelo embalo de sua delicadeza, o corpo to vivo quanto estivera na noite anterior e certamente to desejado quanto antes mas, agora, com 
o detalhe extra de ser adorado por uma feminilidade que ela muitas vezes esquecia de demonstrar.
       Sebastian saboreava cada milmetro dela, fazendo-a explodir de prazer. Explorava e lhe mostrava novos segredos de si mesma. Toda a pressa e fria com que 
haviam se entregado naquela noite, agora mudava de foco. Agora o mundo era lento, o ar era suave e a paixo era lnguida.
       E quando Mel sentiu o corao dele disparando contra o seu, quando os murmrios tornaram-se mais urgentes, ofegantes, compreendeu que ele estava to seduzido 
quanto ela pelo que haviam conseguido juntos.
       Abriu-se para ele, recebendo-o, calor por calor, pulsar por pulsar. Quando o corpo dele contorceu-se de prazer, foi ela quem o embalou.
       
       
       
    CAPTULO 9
       
       
       
       Estamos perdendo tempo.
       - Pelo contrrio - Sebastian falou, parando na frente de uma vitrine  para examinar um traje num manequim estilizado e sem rosto - O que esamos fazendo  
um trabalho de campo bsico, intrincado e indispensvel para toda a operao.
        - Compras? - Mel emitiu um gemido de desgosto e prendeu os dedos nos bolsos da cala. - Fazer compras o dia inteiro?
       - Minha querida Sutherland, adoro o jeito que voc fica usando esta cala jeans, mas, como esposa de um rico empresrio vai precisar de um guarda roupa um 
pouco mais diversificado. 
       - J experimentei roupas suficientes para vestir trs mulheres durante um ano. Ser necessrio um caminho para levar tudo aquilo para sua casa.
       Ele enviou-lhe um olhar carinhoso.
       - FOI mais fcil convencer o FBI a cooperar do que convencer voc. 
       Mel encolheu-se,  pois isso a fez sentir-se mesquinha e ingrata.
        - Estou cooperando. H horas que estou cooperando. Apenas acho  que j chega. 
       - Ainda no. - Sebastian indicou o vestido na vitrine. - Agora, este sim  um smbolo de status. 
       Ela mordeu o lbio, enquanto analisava a roupa 
       - Tem lantejoulas.
       - Voc tem alguma objeo poltica ou religiosa s lantejoulas? 
       - No. S que no sou do tipo que usa brilhos. Iria me sentir uma idiota. Alm disso, no tem quase nada a. - Passou os olhos pelo minivestido sem alas, 
que ia quase at as coxas do manequim. - Seria impossvel sentar com uma roupa destas.
       - Pois me faz lembrar de uma roupinha que voc usou num bar semanas atrs.
       - Aquilo foi diferente. Eu estava trabalhando. - Ao ver a expresso divertida e paciente nos olhos dele, ela fez uma careta. - Certo, est bem, Donovan. Voc 
venceu.
       - Seja um bom soldadinho - ele disse, dando-lhe uma palmadinha na face. - Entre e v experimentar.
       Mel resmungou, murmurou e praguejou por entre os dentes, mas era um bom soldado. Sebastian ficou vagando pela butique, escolhendo acessrios e pensando nela.
       Mel no era do tipo consumista, refletiu, e parecia estar mais envergonhada do que feliz porque agora era dona de um guarda-roupa de causar inveja  maioria 
das mulheres. Ela faria o seu papel, e da melhor maneira que pudesse. Iria usar as roupas que ele escolhera e continuar totalmente indiferente ao fato de que ficava 
espetacular com todas elas.
       Assim que pudesse, Mel voltaria a usar a cala Jeans, as botas e as camisetas desbotadas. E continuaria igualmente indiferente ao fato de que ficava igualmente 
espetacular com elas.
       "Pelas barbas de Merlin, voc est mesmo fisgado", Donovan pensou enquanto escolhia uma bolsinha de noite prateada com fecho de esmeralda. Certa vez sua me 
lhe dissera que o amor era mais doloroso, mais delicioso e mais incontido quando chegava inesperadamente.
       E como ela estava certa.
       A ltima coisa que Sebastian esperava era sentIr algo mais do que uma divertida atrao por uma mulher como Mel. Ela era dura, controvertida, irritante e 
radicalmente independente. No eram qualidades muito sedutoras numa mulher.
       Mas era tambm boa e carinhosa, leal e corajosa, honesta e sincera.
       Que homem resistiria a uma mulher de lngua afiada com um corao generoso e uma inteligncia aguada? Certamente no ele Sebastian Donovan.
       Precisaria de tempo e pacincia para conquist-la completamente. Ele nem precisava olhar para saber. Mel era cautelosa demais e, embora no demonstrasse, 
muito insegura para entregar o corao com as duas mos antes de estar certa de que seria bem recebido.
       Sebastian tinha tempo e pacincia. Se no olhava para certificar-se, era porque sentia que seria injusto a ambos. E porque, bem no fundo, num canto secreto 
do seu corao, tinha medo de olhar e v-Ia partindo.
       - Bem, consegui entrar no vestido - Mel resmungou atrs dele. - Mas no sei quanto tempo vou agentar.
       Sebastian virou-se. E arregalou os olhos.
       - O que foi? - Alarmada, ela passou as mos pelos seios, por cima das reluzentes lantejoulas, e olhou para baixo. - Ser que vesti ao contrrio, ou algo assim?
       Ele riu, e o corao dela voltou ao normal.
       - No, voc vestiu muito bem. No h nada que aumente a presso sangnea de um homem mais rapidamente do que uma mulher esguia num vestido preto.
       Ela fez uma careta de desprezo.
       - Ora, Donovan, me poupe.
       - Perfeito, perfeito! - A vendedora aproximou-se, olhando e aplaudindo. Mel girou os olhos para Sebastian. - Serviu como um sonho!
       -  mesmo - ele concordou. - Como um sonho.
       - Ns temos uma pantalona de seda vermelha que ficaria linda nela.
       - Donovan... - Mel comeou, num tom de splica, mas ele j estava seguindo a ansiosa vendedora.
       Trinta minutos depois, Mel saiu da loja pisando duro.
       - J chega. Caso encerrado.
       - S mais uma paradinha.
       - Donovan, eu no vou experimentar mais nem uma pea de roupa. Prefiro ser devorada viva por formigas.
       - Chega de roupas - ele prometeu.
       - timo. Nem se ficasse neste caso por dez anos no daria tempo de usar tudo o que compramos.
       - Duas semanas - ele disse. - No vai levar mais do que duas semanas. E depois que tivermos circulado pelos cassinos, pelos clubes e pelas festas, voc ver 
que aproveitou quase todo o guarda-roupa.
       - Duas semanas? - Mel sentiu a excitao comear a abrir caminho atravs do tdio. - Tem certeza?
       - Pode chamar de palpite. - Ele deu-lhe uma palmadinha na mo. - Tenho o pressentimento de que o que vamos fazer em Tahoe ser o suficiente para desencadear 
um efeito domin nessa operao de mercado negro.
       - Voc ainda no me contou exatamente como convenceu os federais a nos deixarem ir em frente com isso.
       - Eu tenho uma longa histria com eles. Digamos que cobrei alguns favores, fiz algumas promessas.
       Mel parou para olhar uma vitrine, no porque estava interessada nos artigos exibidos, mas sim porque precisava de um momento para escolher as palavras.
       - Eu sei que no teria conseguido a cooperao deles se no fosse por voc. E sei tambm que voc no vai obter nenhum lucro financeiro com toda esta operao.
       - Estou nisso exatamente como voc. - Sebastian obrigou-a a encar-lo. - Voc no tem nenhum cliente, Sutherland. Nenhum depsito, nenhum pagamento.
       - Isso no tem importncia.
       - No. -Ele sorriu e beijou-lhe a testa. - No tem mesmo. s vezes a gente se envolve em alguma coisa apenas porque h uma chance de transformar o que est 
errado.
       - Pensei que fosse por causa de Rose - Mel falou, devagar. - E , mas tambm penso na sra. Frost. No consigo esquecer o jeito que ela chorava, quando levamos 
David.
       -Eu sei.
       - No que eu seja do tipo altrusta - Mel acrescentou, subitamente embaraada.
       E Sebastian beijou-a novamente.
       - Eu sei. Existem as regras. - Sebastian tomou-lhe a mo e recomearam a andar.
       Mel esperou mais um pouco e falou num tom cauteloso, tocando num assunto que passara dias remoendo.
       - Se realmente conseguirmos dar incio a tudo at o final da semana, iremos morar juntos por algum tempo.
       - Isso a incomoda?
       - Bem, no. Se no incomodar voc. - Ela estava comeando a sentir-se como uma boba, mas era importante faz-lo entender que no era o tipo de mulher que 
mistura fantasia com realidade. - Vamos fingir que somos casados. Que nos amamos, e tudo o mais.
       -  conveniente que um casal se ame, quando se casa.
       - Certo. - Mel respirou fundo. - S quero que voc saiba que eu posso entrar neste jogo. Sou boa em disfarces. Portanto no precisa pensar que...
       Sebastian brincou com os dedos dela, enquanto caminhavam.
       - No preciso pensar em qu?
       - Bem, eu sei que algumas pessoas se deixam levar pela fantasia, ou acabam misturando a realidade como que esto fingindo ser. Apenas no quero que voc se 
preocupe com a possibilidade de eu agir desta forma.
       - Ah, acho que meus nervos podem suportar o fato de que voc vai fingir que me ama.
       Ele falou com tal descontrao que Mel afastou seus temores no mesmo instante.
       - timo. Ainda bem. S quis esclarecer as nossas posies.
       - E eu acho que devamos praticar. - Ele enlaou-lhe a cintura, fazendo seus corpos colidirem levemente.
       - O qu?
       - Praticar - ele repetiu. - Para termos certeza de que voc se sair bem no papel de esposa amorosa. - Puxou-a mais para si. - Me d um beijo, Mary Ellen.
       - Estamos na rua. Em pblico.
       - Um motivo a mais. Afinal, no importa como nos comportamos em quatro paredes. Voc est ruborizando.
       - No estou, no.
       - Est sim, e precisa tomar cuidado com isso. Duvido que voc ficaria envergonhada de beijar um homem com quem est casada h... quanto tempo? Cinco anos. 
E, de acordo com as nossas novas identidades, moramos juntos por quase um ano antes disso. Voc tinha vinte e dois anos quando se apaixonou por mim.
       - Sei fazer contas de somar - ela resmungou.
       - Voc lava as minhas meias.
       Mel fez uma careta.
       - De jeito nenhum! Ns temos um casamento moderno.Voc lava as roupas.
       - Ah, mas voc desistiu da sua carreira de publicitria para formar um lar.
       - Odeio esta parte. - Mel passou os braos em torno do pescoo dele. - E o que fico fazendo o dia inteiro?
       - Vagabundeando. - Ele sorriu. - No incio, estaremos de frias, arrumando a nossa nova casa. Vamos passar bastante tempo na cama.
       - Ora, tudo bem. - Mel retribuiu o sorriso. - Desde que seja por uma boa causa...
       Ela o beijou, ento, um beijo longo e profundo, deslizando a lngua sobre a dele, sentindo os coraes de ambos dispararem, at encontrarem o mesmo ritmo. 
Depois, lentamente, se afastou.
       - Talvez eu no devesse beij-lo deste jeito, depois de cinco anos de casamento.
       - Ah, deve, sim. - Sebastian pegou-a pelo brao e guiou-a na direo da loja de sua prima.
       - Ora, ora... - Morgana deixou no balco um ovo de malaquita que estava lustrando. Tivera uma excelente viso do show, atravs da vitrine. - Mais alguns minutos 
daquilo e vocs teriam parado o trfego.
       - Foi um treinamento - Sebastian falou. - Morgana est por dentro do caso. - Assim que Mel franziu a testa, ele concluiu: - No tenho segredos para a minha 
famlia.
       - No precisa se preocupar. - Morgana tocou o brao de Sebastian, mas seus olhos estavam fixos em Mel. - Ns no guardamos segredos uns dos outros, mas temos 
bastante experincia em ser... discretos com estranhos.
       - Desculpe-me. Acho que no estou acostumada a confiar nas pessoas.
       - De fato,  um negcio arriscado - Morgana concordou. - Sebastian, Nash est na sala dos fundos, reclamando porque precisa desempacotar uma entrega. Por 
que no vai at l fazer-lhe um pouco de companhia, hein?
       - Se  o que voc quer.
       Quando Sebastian saiu, Morgana foi para a porta e virou a plaqueta de "Fechado" para a parte de fora. Queria alguns momentos de privacidade.
       - Nash est ficando superprotetor - disse, voltando-se para Mel. - No quer que eu carregue peso, nem que mexa nas caixas de mercadorias.
       - Acho que isso  muito natural no seu estado.
       - Sou forte como um touro. - Morgana sorriu e encolheu os ombros. - Alm disso, existem outras maneiras de lidar com mercadorias pesadas.
       - Humm. - Isso foi tudo o que Mel pde pensar em dizer.
       - Ns no temos o hbito de ostentar o que somos. Sebastian usa seus dons publicamente, mas as pessoas consideram isso algo que aparece nas pginas dos tablides. 
No entendem realmente o que ele , ou o poder que possui. Quanto a mim, os fuxicos e rumores so bons para os negcios. E Ana... Ana tem um jeito muito prprio 
de lidar com seus talentos.
       - Sinceramente, eu no sei o que dizer. - Mel levantou as mos, depois tornou a baix-las. - No sei se algum dia poderei acreditar nestas coisas. Eu nunca 
engoli nem a histria da fadinha dos dentes de leite.
       -  uma pena. Por outro lado, acho que uma pessoa prtica e racional seria incapaz de negar o que v. E o que sabe. 
       - No posso negar que ele  diferente. Que tem habilidades... dons. E que... - Frustrada, deixou as palavras sumirem no ar novamente. - Eu nunca conheci ningum 
como ele, em toda minha vida.
       Morgana riu alto.
       - Mesmo entre os diferentes, Sebastian  nico. Um dia desses, talvez, teremos tempo para conversar e ento lhe Contarei algumas histrias. Sebastian sempre 
foi competitivo. E at hoje fica furioso por no conseguir fazer um encantamento realmente decente com um mnimo de finesse.
       Fascinada, Mel aproximou-se dela.
       - E mesmo?
       - Ah, sim. Mas,  claro, no diga a ele o quanto acho frustrante ter de passar por todos os tipos de estgios para ter um simples vislumbre das coisas que 
ele enxerga com um nico olhar. - Morgana afastou o assunto com um gesto. Mas estas so antigas rivalidades de famlia. Eu queria ter esta conversa a ss porque 
percebi que Sebastian confia em voc, e obviamente gosta de voc o bastante para lhe revelar esta parte da vida dele.
       - Eu... -Mel respirou fundo. O que viria em seguida? - Ns trabalhamos juntos - disse, cautelosa. - E pode-se dizer que temos um tipo de relacionamento. Um 
relacionamento pessoal.
       - No quero me intrometer, no demais pelo menos, neste relacionamento pessoal. Mas ele  meu primo e eu o amo muito. Portanto tenho de lhe pedir: no use 
este poder que voc tem para mago-lo.
       Mel estava estupefata.
       - Mas voc  a feiticeira - falou sem pensar. Depois, piscou vrias vezes. - Isto , quero dizer que...
       - Voc disse o que queria dizer, e da maneira certa. Sim, eu sou uma feiticeira. Mas tambm sou mulher. Quem compreende melhor o poder?
       Mel balanou a cabea.
       - No entendo onde voc est querendo chegar. E, certamente, no sei porque pensa que eu posso magoar ou ferir Sebastian. Se acha que o coloquei em perigo 
envolvendo-o neste caso...
       - No. - Pensativa, Morgana levantou a mo. -  verdade, voc no entende. - Os lbios de Morgana curvaram-se num sorriso enquanto seus olhos iluminavam-se. 
Era bvio, maravilhosamente bvio que Mel no tinha a menor idia de que Sebastian estava apaixonado por ela. - Que fascinante - murmurou. - Que maravilha!
       - Morgana, se voc pudesse ser um pouco mais clara...
       - Ah, no, eu odiaria fazer isso. - Pegou as mos de Mel entre as suas. - Perdoe-me por confundi-Ia. Ns, os Donovan, temos esta tendncia de nos proteger 
mutuamente. Eu gosto muito de voc - disse, com um sorriso encantador. - Muito, mesmo. Espero que sejamos boas amigas. - Apertou de leve a mo de Mel. - Eu gostaria 
de lhe dar um presente.
       - Voc no precisa...
       -  claro que no - Morgana concordou, encaminhando-se para uma das prateleiras. - Mas quando escolhi esta pedra, sabia que queria que ela pertencesse a uma 
pessoa muito especial. Aqui est. - Pegou um fino basto de pedra azul preso a uma correntinha de prata.
       - No posso aceitar. Deve ser valioso.
       - O valor  muito relativo. Voc no usa jias. - Morgana passou a corrente pela cabea de Mel. - Mas pense nisto como um talism. Ou uma ferramenta, se preferir.
       Embora nunca se sentisse particularmente atrada pelos objetos que as pessoas penduravam nas orelhas ou enfiavam nos dedos, Mel levou a pedra at a altura 
dos olhos. No era transparente, mas ela enxergava pequenos sinais de luz em seu interior. No era mais longa do que uma unha, mas as nuances de cores variavam desde 
o azul-claro at o marinho.
       - Que pedra  esta?
       - Uma turmalina azul. Excelente para combater o estresse. - E tambm um excelente canal para unir amor com sabedoria. Mas isso Morgana no disse. - Imagino 
que seu trabalho seja muito estressante.
       - Tenho a minha quota, como todo mundo. Obrigada, Morgana. E linda.
       - Morgana - Nash espiou pela porta da salinha de depsIto. - Ah, ol, Mel!
       - Ol.
       - Benzinho, tem um maluco no telefone que quer saber alguma coisa sobre o dioptsio verde no quarto chakra.
       - Cliente - Morgana corrigiu, com um ar desolado -  um cliente, Nash.
       - , certo. Bem, este cliente quer expandir o ncleo do corao. - Nash piscou para Mel. - Para mim isso parece maluquice.
       - Vou atender. - Morgana fez um gesto para que Mel a acompanhasse.
       - Voc sabe alguma coisa sobre chakras? - Nash perguntou a Mel, - quando ela entrou na sala.
       -  alguma coisa que se come ou com que se dana? Nash sorriu e deu-lhe uma palmadinha no ombro.
       - Eu gosto de voc.
       - Parece que h uma epidemia disso, por aqui.
       Morgana entrou na saleta ao lado. Mel observou a quitinete onde Sebastian j ficara  vontade numa mesa de madeira com uma latinha de cerveja.
       - Quer uma?
       - Pode apostar. - Ali tambm havia o perfume das ervas vindo dos vasinhos dispostos no beiral da janela. A voz de Morgana podia ser ouvida, subindo e descendo 
de tom. -  uma loja interessante.
       Sebastian entregou-lhe uma latinha.
       - Vejo que voc j escolheu um pingente.
       - Ah... - Mel tocou a pedra. - Morgana me deu de presente.  linda, no acha?
       - Muito.
       Ento, ela virou-se para Nash.
       - Ainda no tive a chance de lhe dizer que adoro seus filmes. Principalmente o "Transformador". Fiquei apavorada.
       -  mesmo? - Nash estava procurando o pote de biscoitos num armrio. - Este filme tambm tem um lugar especial no meu corao. No h nada como um licantropo 
sexy dotado de conscincia.
       - Gosto da maneira como voc transforma coisas ilgicas em lgicas. - Mel bebericou a cerveja. - Isto , voc faz as regras. Podem ser regras meio malucas, 
mas depois voc as segue  risca.
       - Mel adora regras - Sebastian intercedeu.
       - Desculpe-me - Morgana falou, entrando na saleta. - Uma pequena emergncia. Nash, voc j comeu todos os biscoitos.
       - Todos? - Desapontado, ele fechou a porta do armrio.
       - Cada migalha. - Morgana virou-se para Sebastian. - Imagino que voc esteja se perguntando se sua encomenda chegou.
       - Estou, sim.
       Ela enfiou a mo no bolso e retirou uma caixinha de prata escovada.
       - Creio que vai achar bastante adequado.
       Sebastian levantou-se para pegar a caixa. Seus olhos se encontraram.
       - Confio em seu julgamento.
       - E eu confio no seu. - Morgana segurou-lhe o rosto e beijou-o. - Abenoado seja, primo. - Numa sbita mudana de humor, virou-se para Nash. - Querido, venha 
comigo para a loja. Quero mudar algumas coisas de lugar.
       - Mas Mel estava comeando a alimentar o meu ego...
       - Coisas pesadas - Morgana salientou, dando um aperto na mo do marido. - Espero que nos vejamos em breve, Mel.
       - Sim, obrigada. - No instante em que a porta se fechou, Mel olhou para Sebastian. - O que foi tudo isso?
       - Morgana entendeu que eu preferia fazer isso a ss com voc. - Ele passou o dedo pela caixinha, enquanto olhava para ela.
       Mel esboou um sorriso nervoso.
       - No vai doer, no ?
       - Indolor - ele prometeu. Pelo menos para ela. Abriu a Caixinha e estendeu-a em sua direo. .
       Mel espiou, e teria dado um passo rpido para trs se no estivesse de costas no balco. Dentro do lindo estojinho ornamentado havia um anel. Como a corrente 
que Morgana lhe dera era de prata com finos fios trabalhados num padro intrincado em torno de uma pedra delicadamente rosada com as bordas verdes.
       - O que ?
       - Tambm  uma turmalina - Sebastian falou. -  chamada de turmalina melancia, por causa das cores. - Pegou o anel e ergueu-o para a luz. - Dizem que pode 
transferir energia entre duas pessoas que se gostam. Num nvel mais prtico, que acredito que possa interess-la mais so usadas na indstria eletrnica para sintonizar 
circuitos. Elas no se estilhaam sob altas freqncias, como outros cristais.
       - E muito interessante. - Mel sentia a boca seca. - Mas, para que o anel?
       Embora no fosse exatamente a maneira como ele desejaria por enquanto teria de servir.
       -  um anel de casamento - disse, depositando-o na mo dela.
       - Como?
       - Seria impossvel estarmos casados h cinco anos e voc no ter um anel.
       - Ah... - Certamente ela estava s imaginando que o anel vibrava em sua mo. - Isso faz sentido. E claro. Mas por que no uma aliana comum, de ouro?
       - Porque eu prefiro este. - Com a primeira demonstrao de Impacincia, Sebastian pegou o anel e enfiou-o no dedo dela.
       - Tudo bem, no precisa ficar irritado. Mas acho que no precIsava ter todo este trabalho, quando poderamos ter entrado numa loja de departamentos e escolhido 
uma...
       - Fique quieta.
       Mel estivera ocupada mexendo no anel enquanto falava, mas agora encarou-o, estreitando os olhos.
       - Escute aqui, Donovan...
       - S por uma vez. - Ele ergueu-a na ponta dos ps. S por uma vez faa as coisas do meu jeito, sem discutir, sem questionar, sem me provocar mpetos de estrangul-la.
       Os olhos dela aqueceram-se.
       - Eu estava apenas expressando minha opinio. E se quisermos que nosso plano d certo, temos de esclarecer uma coisa de uma vez por todas. No existe o seu 
jeito, nem o meu jeito. Ter de ser apenas do nosso jeito.
       Desde que, por mais que procurasse, ele no encontrou nenhum argumento contra isso, soltou-a.
       - Eu tenho um temperamento notavelmente calmo - disse, mais para si mesmo. -  muito raro estourar, porque poder e raiva formam uma mistura perigosa.
       Um tantinho ofegante, Mel esfregou os braos no lugar onde os dedos dele apertaram.
       - , est certo.
       - Existe uma regra, Sutherland, uma regra inquebrantvel sob a qual ns vivemos, em meu mundo. "Nenhum mal ser feito". Eu a levo muito a srio. E, pela primeira 
vez em minha vida, deparei-me com algum que me deixa tentado a lanar um feitio capaz de faz-la sofrer todos os tipos de desagradveis desconfortos.
       Mel encolheu os ombros e pegou a cerveja.
       - Ora,  muita pretenso sua, Donovan. Sua prima me disse que voc  pssimo em feitios.
       - Ah, mas tenho sorte com um ou outro. - Sebastian esperou at que ela bebesse um bom gole da cerveja, e ento concentrou-se. Bastante.
       Mel engasgou, tossiu e levou a mo ao pescoo. Parecia que acabara de engolir uma dose de pimenta pura.
       - Principalmente os feitios que envolvem a mente - Sebastian acrescentou com um sorrisinho irnico, enquanto ela lutava para respirar.
       - Bonito. Muito bonito. - Embora o ardor tivesse desaparecido, Mel deixou a cerveja na mesa. Preferia no se arriscar. - No sei porque voc est to irritado, 
Donovan. E realmente agradeceria se guardasse estes truques para o Halloween, ou para o Primeiro de Abril, ou seja l quando vocs se renam para dar boas risadas.
       - Risadas? - ele repetiu num tom baixo demais dando um passo  frente.
       Mel tambm moveu-se para encontr-lo, mas o que quer que pudesse ter acontecido foi adiado quando a porta lateral se abriu.
       - Oh... - Anastsia, com os cabelos caindo nos olhos, manteve a porta ntreaberta enquanto equilibrava nos quadris uma bande]a cheIa de flores secas. - Desculpem-me. 
- No precisava nem entrar para sentir os humores estalando como sabres no ar. - Eu volto mais tarde.
       - No seja tola. - Sebastian empurrou Mel para o lado, sem muita delicadeza, por sinal, e foi ajudar a prima com a bandeja. - Morgana est na loja.
       Apressada, Ana afastou os cabelos rebeldes do rosto.
       - Ento vou avis-la que cheguei.  um prazer v-Ia novamente, Mel. - A boa educao arraigada fez com que oferecesse um sorriso. Depois, os olhos fixaram-se 
no anel. - Ah, mas que lindo! Parece... - Hesitou, lanando um rpido olhar para Sebastian. - Parece que foi feito para voc.
       - Vou us-lo por apenas algumas semanas, mais ou menos emprestado.
       Ana olhou novamente para Mel, com uma expresso bondosa.
       - Entendo. Mas duvido que eu conseguiria devolver algo to bonito. Posso? - Com delicadeza, Ana pegou a ponta dos dedos de Mel e ergueu-lhe a mo. Reconheceu 
a pedra como aquela que Sebastian possura e conservara por toda sua vida.
       - Sim - disse. - Fica perfeito em voc.
       - Obrigada.
       - Bem, tenho apenas uns minutinhos, por isso  melhor deixar que vocs concluam a sua conversa. - Ana enviou um sorriso rpido para Sebastian e saiu para 
a loja.
       Mel sentou na beirada da mesa e inclinou a cabea.
       - Voc quer brigar?
       Ele pegou o que restava da cerveja dela.
       - No creio que v adiantar alguma coisa.
       - No vai, mesmo. Porque no estou com raiva de voc.
       Estou apenas nervosa, pois nunca fiz algo to grande como o que estamos planejando. No  que esteja com medo de falhar.
       Ele sentou-se  mesa ao lado dela.
       - Ento o que ?
       - Acho que esta  a coisa mais importante que j fiz na vida e realmente... Eu realmente quero que d tudo certo. Depois, h esta outra coisa.
       - Que outra coisa?
       - Ns. Voc e eu. Isso tambm  importante.
       Sebastian pegou-lhe a mo.
       - , sim.
       - E eu no quero que os limites entre estas duas coisas importantes se misturem, nem fiquem indistintos. Porque eu realmente me importo com... Realmente me 
importo - concluiu.
       Ele levou a mo de Mel aos lbios.
       - Eu tambm.
       Sentindo que o clima entre eles estava novamente amigvel, ela sorriu.
       - Sabe o que mais gosto em voc, Donovan?
       - O qu?
       - Voc consegue fazer estas coisas... como beijar a minha mo, por exemplo, sem parecer um pateta.
       - Voc me lisonjeia, Sutherland - ele disse, num tom contido. - Definitivamente, voc me deixa lisonjeado.
       
       Horas depois, quando a noite estava silenciosa e o luar muito fraco, ela virou-se para ele no sono. E, no sono, seus braos deslizaram em torno dele, seu 
corpo arqueou-se para o dele. Sebastian afastou-lhe os cabelos do rosto, enquanto ela aninhava a cabea em seu ombro. Passou o dedo sobre a pedra do anel que ela 
usava. Se ele se soltasse, se permitisse que a mente vagasse, poderia reunir-se a ela em qualquer que fosse o sonho que seu corao esboava. Era tentador, quase 
to tentador quanto despert-la.
       Antes que pudesse decidir o que faria, teve uma rpida viso dos estbulos sentindo o cheiro de feno e suor e ouvindo o relinchar doloroso da gua.
       Mel piscou, acordando, ao senti-lo se afastar.
       - O que foi?
       - Continue dormindo - ele ordenou, pegando uma camisa.
       - Onde voc vai?
       - Psique est pronta para dar  luz. Vou para o estbulo.
       - Oh... -Sem pensar, ela levantou-se e comeou a procurar as roupas. - Vou com voc. Devemos chamar o veterinrio?
       - Ana vir.
       - Ah. - Mel atrapalhou-se com os botes, no escuro. - Quer que eu ligue para ela?
       - Ana vir - ele repetiu, saindo enquanto Mel ainda se vestia. Ela correu atrs dele, calando as botas no caminho.
       - O que devo fazer? Ferver gua, ou algo assim?
       A meio caminho da escada Sebastian parou e beijou-a.
       - Para fazer um caf, sim. Obrigado.
       - Eles sempre fervem gua nos filmes - ela resmungou, arrastando-se para a cozinha. No instante em que o cheiro de caf espalhava-se pelo ar, ouviu um carro 
chegando. - Trs xcaras - decidiu, imaginando que seria intil perguntar como.
       Anastsia ficara sabendo que precisava ir para l.
       Encontrou os dois primos no estbulo. Ana estava ajoelhada ao lado da gua, murmurando. Perto dela havia duas algibeiras de couro e um tecido enrolado.
       - Ela est bem, no ? - Mel perguntou. - Isto , no corre nenhum perigo?
       - Ela est bem e saudvel. - Ana afagou o pescoo de Psique. - Est bem... muito bem. - Sua voz era to refrescante quando uma brisa fria num deserto. A gua 
respondeu com um gemido baixo. - No vai demorar muito. Sebastian, relaxe.
       No ser o primeiro potro a nascer no mundo.
       - E o primeiro dela - Sebastian retrucou, sentindo-se um tolo. Sabia que tudo correria bem. Poderia at dizer o sexo do potro. Mas isso no ajudava em nada, 
quando tinha de esperar at que sua adorada Psique passasse pelo sofrimento das contraes.
       Mel ofereceu-lhe uma caneca.
       - Tome um pouco de caf, "papai". Por que no vai para a baia de Eras, ficar andando de um lado para outro?
       - Voc precisa mant-la calma, Sebastian - Ana falou por sobre o ombro. - Isso ajuda.
       - Tudo bem.
       - Caf? - Mel entrou na baa para oferecer a caneca  Ana.
       - Sim, quero um pouquinho. - Ana apoiou-se nos calcanhares, para beber.
       - Desculpe-me - Mel falou, ao ver os olhos de Ana arregalarem-se. - Eu costumo fazer o caf forte.
       - Est tudo bem. Vai me render pelas prximas duas semanas. - Ana abriu uma das sacolas e espalhou algumas folhas e ptalas na mo.
       - O que  isso?
       - Apenas ervas - Ana respondeu, enquanto fazia com que a gua as comesse. - Para ajud-la nas contraes.
       Depois, escolheu trs cristais da outra bolsa e posicionou-os no ventre trmulo do animal. Agora, murmurava palavras em galico.
       Os cristais deveriam escorregar, Mel pensou, olhando-os fixamente. Era uma questo de gravidade, de fsica elementar. Porm, as pedras permaneceram firmes 
e imveis, mesmo quando a gua se contorcia.
       - Voc tem boas mos - Ana lhe disse. - Afague a cabea dela.
       Mel obedeceu.
       - Eu no entendo nada de partos. Bem, tive de aprender o bsico quando trabalhava na polcia, mas nunca... Talvez eu devesse...
       - Apenas afague a cabea dela - Ana repetiu, com delicadeza. - O restante  a coisa mais natural do mundo.
       
       Talvez fosse natural, Mel pensou enquanto ela, Sebastian, Ana e Psique lutavam para trazer o potrinho ao mundo. Mas era tambm miraculoso. Ela estava molhada 
de suor, o seu e o da gua, agitada por causa do caf e deslumbrada com a idia de ajudar uma nova vida vir  luz.
       Por vrias vezes, no decorrer das horas de trabalho, Mel reparou nas mudanas que ocorriam nos olhos de Ana. De um tranqilo cinzento a um esfumaado de preocupao. 
De uma calorosa alegria para uma compaixo to profunda que Mel sentiu lgrimas em seus prprios olhos.
       Num certo momento, teve certeza de ver a dor neles, uma dor terrvel, aguda, que s desapareceu quando Sebastian zangou-se com a prima.
       - Foi para lhe dar um instante de alvio - Ana explicou e Sebastian balanou a cabea.
       Depois disso tudo aconteceu rapidamente, e Mel esforara-se para ajudar.
       - Ah, puxa... - Foi o melhor que ela conseguiu murmurar quando olhou para a gua que limpava o filhote recm-nascido. - No consigo acreditar. A est ele...
       - E sempre uma emoo renovada. - Ana pegou as sacolas e seus instrumentos cirrgicos. - Psique est bem - falou enquanto embrulhava os instrumentos no avental 
que havia vestido antes do parto. - O potro tambm. Eu volto mais  tarde para dar uma espiada, mas diria que me e filho esto perfeitos.
       - Obrigado, Ana. - Sebastian puxou-a e deu-lhe um abrao.
       - O prazer foi meu. Voc saiu-se muito bem em seu primeiro parto, Mel.
       - Foi incrvel.
       - Bem, vou me lavar um pouco e depois direto para casa. Pretendo dormir at meio-dia. - Ana beijou o rosto de Sebastian e ento, com a mesma carinhosa descontrao, 
o de Mel. - Parabns.
       - Que maneira de passar uma noite - Mel murmurou recostando a cabea no ombro de Sebastian.
       - Fiquei contente por voc estar aqui.
       - Eu tambm. Nunca tinha visto ningum nascer. Faz a gente pensar como tudo isso  fantstico. - Mel bocejou ruidosamente. - E exaustivo. Eu bem que gostaria 
de dormir at meio-dia, tambm.
       - E por que no dorme? - Sebastian beijou-a. - Por que ns no dormimos?
       - Preciso trabalhar. E como vou ficar semanas fora do escritrio, tenho uma poro de coisinhas para resolver.
       - H uma coisinha que voc precisa resolver aqui mesmo.
       - O qu?
       Sebastian pegou-ano colo, sem importar-se com a camisa suja, as mos meladas e tudo.
       - Algumas horas atrs, eu estava deitado na cama pensando se deveria esgueirar-me para dentro de um dos seus sonhos ou se simplesmente a acordava. 
       - Esgueirar-se num dos meus sonhos? - Mel ajudou-o a abrir a porta. - Voc consegue fazer isso?
       - Ah, Sutherland, tenha um pouco de f. De qualquer forma - ele continuou, carregando-a atravs da cozinha ate o corredor -, fui interrompido antes que pudesse 
decidir o que fazer. Portanto, antes de voc resolver os seus problemas no trabalho teremos de resolver esta nossa questo aqui.
       - Uma linha de pensamento muito interessante. Mas no sei se reparou que ns dois estamos sujos e horrveis.
       Reparei sim. - Sebastian marchou pelo quarto e entrou no banheiro. - Ns vamos tomar um banho.
       - Boa idia. Eu acho... Sebastian!
       Ela gritou de susto e comeou a rir, quando ele entrou no boxe do chuveiro, completamente vestido, e abriu a torneira.
       - Espere! Eu ainda estou de botas.
       Sebastian sorriu.
       - No por muito tempo.
       
       
    CAPTULO 10
       
       
       Mel no tinha certeza de como se sentia sendo a sra. Donovan Ryan. Mas, sem dvida, achava que Mary Ellen Ryan, o nome do seu disfarce, era uma pessoa extremamente 
cansativa e entediada, mais interessada em moda e manicura do que em qualquer coisa realmente importante.
       Mas tinha de concordar que era um bom plano. Danado de bom, pensou enquanto saa para o terrao da casa e observava o lago Tahoe reluzindo sob a luz da lua.
       A casa em si j era um espetculo. Com dois amplos andares de conforto contemporneo, era mobiliada com muito bom gosto e decorada em tons neutros que refletiam 
o estilo de seus moradores.
       Mary Ellen e Donovan Ryan, vindos de Seattle, formavam um casal moderno que sabia o que queria.
       E o que eles mais queriam, naturalmente, era um filho.
       Mel ficara impressionada com a casa, quando chegaram no dia anterior. Impressionada o bastante para comentar o fato de que no esperava que o FBI fosse capaz 
de providenciar um alojamento to aconchegante em to pouco tempo. E foi ento que Sebastian mencionou, casualmente, que aquela era uma de suas propriedades, algo 
que ele comprara num impulso cerca de seis meses atrs.
       Coincidncia ou feitiaria? Mel perguntou-se com um leve franzir de testa.
       - Pronta para uma noite na cidade, meu docinho?
       A expresso preocupada transformou-se em irritao, quando ela se voltou para Sebastian.
       - Voc no vai ficar me chamando por estes apelidinhos idiotas, s porque estamos supostamente casados.
       - Deus me livre disso. - Ele saiu para o terrao parecendo, Mel foi forada a admitir, to bonito e atraente quanto um homem poderia ficar num terno preto. 
- Deixe-me dar uma olhada em voc.
       - Eu vesti tudo - ela disse, esforando-se para no soar mal-humorada demais. - At a roupa de baixo que voc separou.
       - Voc tem mesmo um belo esprito esportivo - Sebastian ironizou.
       O sarcasmo na voz dele fez com que Mel sorrisse um pouco, a contragosto. Segurando-a pela mo, Sebastian girou-a num crculo. Sim, ele pensou, a pantalona 
vermelha tinha sido uma excelente escolha. Combinava perfeitamente com a jaquetinha prateada e com os brincos de rubi que pendiam das orelhas dela.
       - Voc est linda - disse. - Tente agir como se acreditasse nisso.
       - Odeio usar salto alto. E voc viu o que fizeram com o meu cabelo?
       Sorrindo, ele passou o dedo levemente sobre os cabelos dela. Estavam puxados para trs e presos num coque elegante.
       - Muito chique. .
       -  fcil falar. Voc no ficou  merc de uma manaca com sotaque francs cujas mos amassaram e lambuzaram minha cabea com Deus sabe o qu, espirrando 
coisas estranhas, puxando e prendendo tudo com grampos at que eu estivesse a ponto de gritar.
       - Teve um dia difcil, hein?
       - Isso no foi nem a metade. Tambm fiz as unhas. Voc no faz idia do que . Chegam com aquelas tesourinhas, alicates cremes e esmaltes fedorentos, e comeam 
a falar sobre namorados e fazer perguntas indiscretas sobre sua vida sexual. E voc tem de agir como se estivesse adorando tudo. Queriam me fazer uma limpeza de 
pele. - Mel estremeceu, com total sinceridade. - No sei o que teriam feito comigo, mas eu disse que tinha de vir para casa preparar o jantar.
       - Escapou por pouco.
       - Se eu realmente tivesse de ir a um salo de beleza uma vez por semana, pelo resto da minha vida, acho que cometeria suicdio.
       - No exagere, Sutherland.
       - Certo. - Mel suspirou, sentindo-se melhor. - Bem, pelo menos no foi difcil comear a espalhar a notcia de que tenho um marido maravilhoso e uma casa 
encantadora, e como h anos estamos tentando ter um beb. As pessoas engolem facilmente estas coisas. Continuei falando sobre como fizemos todo tipo de exames e 
que eu j havia tentado todos os remdios para fertilidade, e como as listas de espera nas agncias de adoo so enormes. Todos se mostraram muito simpticos diante 
do meu sofrimento.
       - Bom trabalho.
       - Melhor ainda, consegui o nome de dois advogados e um mdico. O ginecologista tem a reputao de ser milagroso. Um dos advogados  primo da manicura, e o 
outro parece que ajudou a cunhada dela a adotar dois bebs romenos no ano passado.
       - Acho que devemos seguir por este caminho - Sebastian falou, aps um momento.
       - Foi o que pensei, tambm. Amanh vou ao massagista. Enquanto estiverem me amassando e apalpando, aproveito para obter informaes sobre o advogado.
       - No h nenhuma lei que a proba de desfrutar de uma massagem e uma sauna, enquanto estiver l.
       Ela hesitou, e ficou grata pelos bolsos enormes da pantalona lhe darem um lugar onde pr as mos.
       - Isso me deixa... Eu sei que voc est gastando um bocado com este negcio.
       - Tenho bastante dinheiro. - Sebastian segurou-lhe o queixo com a ponta dos dedos. - E se eu no quisesse us-la desta maneira, no usaria. Lembro-me da expresso 
de Rose quando voc levou-a para minha casa, Mel. E lembro-me da sra. Frost Estamos nisso juntos.
       - Eu sei. - Mel fechou as mos em tomo dos pulsos dele. - Eu deveria estar lhe agradecendo, em vez de ficar reclamando.
       - Mas voc reclama to bem. - Quando ela sorriu, Sebastian beijou-a. - Ento vamos, Sutherland. Vamos jogar. Estou me sentindo com sorte, hoje.
       
       O Silver Palace era um dos mais novos e luxuosos cassinos de Tahoe. Cisnes brancos deslizavam nas guas prateadas de um lago artificial instalado no saguo 
e vasos imensos explodiam com flores exticas. Os funcionrios usavam vistosos smokings, com gravatas e faixas prateadas.
       Mel e Sebastian passaram por inmeras lojas elegantes que vendiam de tudo, desde diamantes e peles at simples camisetas. Mel concluiu que a disposio das 
butiques havia sido planejada para ficarem perto o bastante do cassino para tentar quaisquer vencedores a gastar o dinheiro que tinham ganho novamente no hotel.
       O cassino propriamente dito era uma confuso de rudos dissonantes, o tilintar das moedas despejadas dos caa-nqueis ecoando nos tetos altos. Havia um burburinho 
de vozes, o matraquear das roletas, o cheiro de cigarros, bebidas e perfumes. E,  claro, de dinheiro.
       - Bela espelunca - Mel comentou com ironia, observando os cavaleiros e damas medievais pintados nas paredes sem janelas.
       - O que voc joga?
       Ela encolheu os ombros.
       - Todos eles so jogos para otrios. Tentar ganhar de um cassino  o mesmo que tentar subir uma corredeira com um s remo. Voc at pode obter algum progresso, 
mas acaba sendo carregado pela correnteza, mais cedo ou mais tarde.
       Sebastian mordiscou-lhe a orelha.
       - Voc no est aqui para ser prtica. Estamos na nossa segunda lua-de-mel, lembra-se? Docinho de cco?
       -Argh! - ela exclamou, mas sorriu. - Tudo bem, vamos comprar algumas fichas.
       Mel preferiu comear com os caa-nqueis, decidindo que eram inofensivos o bastante para que ela pudesse jogar enquanto observava os arredores. Estavam ali 
para tentar um contato com Jasper Gumm, o sujeito que fora citado no depoimento de Parkland. Mel estava bem ciente de que poderiam demorar vrias noites para atingir 
a etapa seguinte.
       Ela perdeu sem parar, depois ganhou uns poucos dlares de volta, realimentando a mquina com as moedas automaticamente. Descobriu que havia algo estranhamente 
sedutor no rudo produzido pelas moedas e campainhas, os gritinhos ocasionais dos outros jogadores, os sinos e luzes que tocavam e acendiam quando algum ganhava 
uma bolada.
       Era relaxante, percebeu, e enviou um sorriso a Sebastian.
       - No creio que a casa precise se preocupar com a possibilidade de eu quebrar a banca.
       - Talvez se voc jogasse com um pouco menos de... agressividade. - Sebastian pousou a mo sobre a dela, enquanto Mel puxava a alavanca. Luzes se acenderam. 
Sinos tocaram.
       - Ah. - Ela arregalou os olhos, quando as moedas comearam a ser despejadas em seu baldinho de plstico. - Uau! So quinhentos dlares! - Danou de alegria, 
depois abraou-o com fora. - Eu ganhei quinhentos dlares! - Deu-lhe um grande e sonoro beijo, depois afastou-se um pouco Ah - meu Deus, Donovan, voc trapaceou!
       - Que coisa mais feia para se dizer. Ser mais esperto do que uma mquina no e trapacear. - Mas ele pde sentir que o senso de justia de Mel batalhava com 
o prazer de vencer. - Vamos, voc pode perder tudo isso no vinte-e-um.
        - Acho que no tem problema.  por uma boa causa.
       - Sem dvida.
       Rindo, ela juntou as moedas no baldinho.
       - Gosto de vencer.
       - Eu tambm.
       Ficaram passeando pelas mesas, bebericando champanhe e fazendo o papel de um casal afetuoso que saiu para uma noite de diverso. Mel  tentava no levar muito 
a srio a ateno que ele lhe dedicava, nem o fato de que a mo dele estava sempre por perto, quando a procurava.
       Eles eram amantes, mas no estavam apaixonados. Gostavam-se e respeitavam-se mutuamente, mas isso estava bem distante de qualquer coisa do tipo "viveram felizes 
para sempre". O anel em seu dedo era apenas um acessrio e a casa onde estavam morando era somente uma fachada.
        Chegaria o dia em que ela lhe devolveria o anel e sairia da casa. Poderiam continuar se encontrando, pelo menos por algum tempo. At que o trabalho dele, 
e o seu prprio, os levassem para direes diferentes.
        As pessoas nunca ficavam em sua vida por muito tempo e isso era algo que ela j comeava a aceitar. Ou que sempre aceitara. Agora, quando pensava em partir 
para uma direo diferente, sozinha, sem ele, sentia um vazio em seu peito que era quase insuportvel.
       - O que foi? - Instintivamente Sebastian passou a mo na nuca de Mel, massageando-a. - Voc est ficando tensa.
       - No foi nada. Nada. - Mesmo obedecendo  regra de no espiar em sua mente; Sebastian era sensitivo demais. Acho que estou Um pouco impaciente. Vamos tentar 
esta mesa, ver o que acontece.
       Ele no pressionou, embora tivesse quase certeza de que algo mais do que aquele caso a estava preocupando. Quando sentaram-se numa mesa cujo limite de apostas 
era cinco dlares, Sebastian passou o brao em seus ombros, para que jogassem juntos.
       Ela jogava bem, ele notou, e graas ao seu jeito prtico e raciocnio rpido, ficou quites com a mesa pela primeira hora. Sebastian percebeu, pela maneira 
distrada que ela perscrutava os sales de vez em quando, que Mel prestava ateno em tudo. Os guardas de segurana, as cmeras escondidas, os espelhos de duas faces 
no segundo andar.
       Sebastian pediu mais champanhe e comeou a sua prpria sondagem.
       O homem ao seu lado estava suando sobre as cartas do baralho e perguntando-se sua esposa suspeitaria que ele estava tendo um caso. A esposa estava do outro 
lado, fumando um cigarro atrs do outro e tentando imaginar como o crupi ficaria sem roupas.
       Sebastian preferiu deix-la a ss com tal imagem.
       Ao lado de Mel havia um sujeito do tipo cowboy, encharcando-se com usque com gua enquanto ganhava num ritmo lento, mas constante. A mente dele era um emaranhado 
de pensamentos sobre aes do tesouro, gado e a mo de cartas. Estava tambm desejando que a linda potranquinha ao seu lado estivesse desacompanhada.
       Sebastian sorriu consigo mesmo, perguntando-se como Mel reagiria se soubesse que havia sido chamada de "potranquinha".
       Enquanto perscrutava mentalmente a mesa, Sebastian captou impresses de tdio, excitao, desespero e ganncia. E descobriu o que queria no jovem casal sentado 
bem  sua frente.
       Eles eram de Columbus, e estavam na terceira noite da lua-de-mel. Mal tinham idade suficiente para entrar no cassino, estavam loucamente apaixonados e haviam 
decidido, depois de muitos clculos, que a excitao do jogo valia os cem dlares que tinham apostado.
       Estavam com apenas cinqenta dlares, agora, mas divertiam-se como nunca.
       Sebastian viu o marido, Jerry era o nome dele, hesitar sobre os quinze que tinha na mo, e deu-lhe um empurrozinho.
       Jerry fez sinal pedindo outra carta e arregalou os olhos ao ver que tirara um seis.
       Com uma magia sutil e divertida, Sebastian fez com que o jovem Jerry dobrasse a aposta inicial, e depois triplicasse enquanto o jovem casal ofegava e ria 
diante da sorte sbita e impressionante.
       - Eles j esto tendo lucro - Mel comentou.
       - Hu-hum. - Sebastian bebericou a champanhe.
       Indiferente  persuaso, Jerry comeou a aumentar as apostas. A notcia se espalhou, como sempre acontece nestes lugares, de que havia um vencedor na mesa 
trs. As pessoas comearam a se aglomerar em volta, aplaudindo e batendo no ombro do atnito Jerry, enquanto as fichas acumulavam-se, num total de trs mil dlares.
       - Ah, Jerry! - A esposa, Karen, agarrou-se a ele. - Acho que devemos parar. J  quase o suficiente para darmos a entrada na casa. Acho que deveramos parar.
       Desculpe, Sebastian pensou, e deu-lhe um leve cutuco mental.
       Karen mordeu o lbio.
       - No. Continue. - Escondeu o rosto no ombro do marido e riu. - Parece mgica!
       0 comentrio fez com que Mel desviasse os olhos das prprias cartas e os estreitasse na direo de Sebastian.
       - Donovan... 
       - Shh. - Ele deu uma palmadinha na mo dela. - Tenho os meus motivos.
       Mel comeou a compreend-los quando o quase delirante Jerry atingiu a marca dos dez mil dlares. Um homem de aparncia sombria, usando um smoking, aproximou-se 
da mesa.
       Tinha uma aparncia respeitvel junto com a pele bronzeada, o bigode claro e os cabelos impecveis. Mel tinha certeza de que era o tipo de homem para o qual 
a maioria das mulheres olhava duas vezes.
       Porm, sentiu uma antipatia instantnea assim que viu os olhos dele. Eram de um azul muito claro e, embora ele estivesse sorrindo, Mel sentiu um frio subir 
pela espinha.
       - Encrencas - murmurou, e sentiu a mo de Sebastian fechar-se sobre a sua.
       A pequena multido aplaudiu outra vez, quando Jerry ganhou mais uma rodada.
       - Parece que  a sua noite de sorte.
       - Puxa, nem me diga.- Jerry ergueu os olhos vidrados para o recm-chegado. - E a primeira vez que ganho alguma coisa, em toda minha vida.
       - O senhor est hospedado em nosso hotel?
       - Estamos. Eu e minha esposa. - Jerry deu um aperto em. Karen. - Esta  a primeira noite que tentamos as mesas de vinte-e-um.
       - Ento permita-me que o congratule pessoalmente. Sou Jasper Gumm. Dono deste hotel-cassino.
       Mel enviou um rpido olhar para Sebastian.
       - Um jeito bem tortuoso de dar uma espiada no sujeito - disse.
       - Uma rota indireta - ele concordou. - Mas muito divertida.
       - Humm... E os seus jovens heris, j encerraram por esta noite?
       - Ah, sim, eles j encerraram.
       - Com licena. - Pegando a taa, Mel deu a volta pela mesa, lentamente.
       Sebastian estava certo. O jovem casal j se alvoroava para trocar as fichas por dinheiro e agradeciam profusamente a Gumm.
       - Voltem sempre - Gumm lhes dizia. - Gostamos de pensar que todos que vem ao Silver Palace saiam como vencedores.
       Quando Gumm virou-se, Mel certificou-se de ficar diretamente em seu caminho. Um movimento rpido, e o champanhe dela derramou-se.
       - Ah, me desculpe... - Ela limpou a manga mida do palet dele. - Como sou desajeitada.
       - De maneira alguma. A culpa foi minha. - Abrindo caminho pela multido que comeava a dispersar, ele pegou um leno para enxugar a mo dela. - Eu estava 
distrado. - Olhou para a taa vazia e juntou: - Agora estou lhe devendo uma bebida.
       - No,  muita gentileza sua, mas quase no havia nada na taa. - Mel lanou-lhe um sorriso radioso. - Felizmente para o seu terno. Acho que fiquei curiosa 
em ver todas aquelas fichas. Meu marido e eu estvamos sentados bem em frente daquele jovem casal. E no tivemos nem a metade da sorte deles.
       - Ento, definitivamente, devo-lhe uma bebida. - Gumm segurou-lhe o brao no instante em que Sebastian se aproximou.
       - Querida, voc devia beber o champanhe e no ficar derramando-o nas pessoas.
       Como se estivesse embaraada, ela riu e passou a mo pelo brao dele.
       - J pedi desculpas.
       - No h nada do que se desculpar - Gumm assegurou-Ihes enquanto oferecia a mo para Sebastian. - Jasper Gumm.
       - Donovan Ryan. Minha esposa, Mary Ellen.
       - Muito praazer. Esto hospedados no hotel?
       - No. Na verdade, acabamos de nos mudar para Tahoe. - Sebastian olhou para Mel com afeio. - Estamos tirando uns dias de folga, como numa segunda lua-de-mel, 
antes do retomarmos aos negcios.
       - Sejam bem-vindos  comunidade. Agora no tenho mais dvidas de que preciso substituir aquela champanhe. - Gumm fez um sinal para uma garonete.
       -  muito gentil, sr. Gumm. - Mel olhou em volta, com um ar de aprovao. - O senhor tem um lugar maravilhoso, aqui.
       - Agora que somos vizinhos, espero que apaream sempre para desfrutar das nossas instalaes. Temos um excelente restaurante.
       Enquanto falava, Gumm fazia um inventrio geral. As jias da mulher eram discretas e caras. O temo escuro do homem tinha um talhe perfeito. Os dois exibiam 
os sinais da riqueza discreta, moderada. Exatamente o tipo de clientela que ele preferia.
       Quando a garonete voltou com uma garrafa de champanhe e taas, Gumm fez questo de servi-los.
       - Qual  o seu ramo de negcios, sr. Ryan?
       - Imobilirio. Mary Ellen e eu passamos alguns anos em Seattle e decidimos que estava na hora de algumas mudanas. Meus negcios permitem esta flexibilidade.
       - E a senhora? - Gumm perguntou para Mel.
       - Eu parei de trabalhar recentemente. Pensei que seria bom dedicar-me um pouco mais  casa.
       - Ah, e aos filhos.
       - No. - O sorriso dela vacilou, enquanto baixava os olhos para a taa. - Ainda no. Mas acho que o clima daqui, o sol, o lago... seria um excelente lugar 
para se criar uma famlia.
       - Havia um trao, bem leve, de desespero em sua voz.
       - Estou certo que sim. Por favor, aproveitem o Si/ver Palace. E voltem sempre.
       - Ah, sim, ns voltaremos - Sebastian assegurou-lhe. - Foi perfeito - murmurou para Mel depois que o homem se afastou.
       - Tambm achei. Ser que devemos voltar para as mesas, ou apenas ficar andando por a nos olhando com ar de apaixonados?
       Ele riu e comeou a pux-la para um beijo, e ento parou, com a mo em seu ombro.
       - Ora, ora... s vezes as coisas encaixam-se direitinho.
       - O qu?
       - Beba seu champanhe, amor, e sorria. - Sebastian a fez virar devagar e, mantendo o brao em seu ombro, seguiu na direo da mesa de roleta. - Agora, olhe 
para l, a mulher que est conversando com Gumm. A ruiva, perto da escada.
       - Estou vendo. - Mel recostou a cabea no ombro dele. - Um metro e setenta, uns sessenta quilos, pele clara. Vinte e oito, talvez trinta anos.
       - O nome dela  Linda... ou melhor,  agora. Era Susan, quando hospedou-se no motel com David.
       - Ela ... - Mel deu um passo  frente, antes de deter-se. - O que ela est fazendo aqui?
       - Dormindo com Gumm, imagino. Esperando pelo prximo servio. .
       - Temos de descobrir o quanto eles sabem. O quanto esto prximos do "cabea". - Preocupada, Mel acabou de beber o champanhe. - Voc trabalha do seu jeito, 
eu trabalho do meu.
       - Combinado.
       Quando Mel viu que Linda dirigia-se para o toalete das senhoras, deixou a taa vazia na mo de Sebastian.
       - Segure isso aqui.
       -  claro, meu amor - ele murmurou s suas costas.
       Mel ficou "fazendo cera" no toalete, sentada diante de uma das penteadeiras espelhadas, passando batom, empoando o nariz. Quando Linda sentou-se  mesinha 
ao seu lado, recomeou todo o processo.
       - Droga! - Mel falou com desgosto, olhando para as mos. - Lasquei uma unha.
       Linda enviou-lhe um olhar de solidariedade.
       - Odeio quando isso acontece.
       - Eu que o diga. Principalmente porque fiz as unhas hoje mesmo. No tenho muita sorte com elas. - Procurou uma lixa de unhas na bolsa, embora soubesse que 
no havia nada ali.
       - Suas unhas so lindas.
       - Obrigada. - A ruiva levantou a mo para examin-las. - Tenho uma manicura maravilhosa.
       - E mesmo? - Mel virou-se e cruzou as pernas. - Ser que... Meu marido e eu acabamos de nos mudar, viemos de Seattle. Eu realmente estou precisando encontrar 
o salo de beleza certo, a academia de ginstica, estas coisas.
       - No h lugar melhor, do que aqui mesmo no hotel. Voc pode inscrever-se num programa para no-hspedes, que inclui academia e salo de beleza. As taxas 
so um pouquinho caras, mas vale cada centavo. - Ela afofou os cabelos luxuriantes.- E o salo de beleza  nota dez.
       - Agradeo a informao. Acho que vou experimentar.
       - Diga apenas que foi Linda quem indicou. Linda Glass.
       - E o que vou fazer. - Mel levantou-se. - Muito obrigada.
       - Sem problema. - Linda passou mais batom nos lbios. Se a mulher entrasse para o clube, pensou, ela receberia uma boa comisso. Negcios so negcios.
       
       Poucas horas depois, Mel estava deitada de bruos no meio da cama, fazendo uma lista. Usava um camiso de pijama, seu traje preferIdo para dormir, e j havia 
desarrumado o complicado penteado com seus prprios dedos impacientes.
       Iria comear a desfrutar das instalaes do Silver Palace sem dvida, pensou. A comear pelo dia seguinte, quando faria a inscrio para a academia e depois 
iria checar o salo de beleza. E, que Deus a ajudasse, marcaria uma hora para fazer a tal limpeza de pele, ou qualquer que fosse a tortura que tivessem em mente 
para ela.
       Com um pouco de sorte, num espao de vinte e quatro horas ela j estaria ntima de Linda Glass, trocando segredinhos femininos.
       - O que est aprontando, Sutherland?
       - O "plano B" - ela respondeu, distrada. - Gosto de ter um "plano B" de reserva, para o caso do "plano A" no dar certo. Ser que depilao com cera di 
muito?
       - No vou arriscar um palpite. - Ele passou a ponta do dedo pelas pernas dela. - Mas, por mim, voc no precisa de depilao nenhuma.
       - Bem, preciso estar preparada para passar metade do dia neste lugar, portanto tenho de pensar em coisas que eles possam fazer comigo. - Mel inclinou a cabea 
para olh-lo.
       Sebastian estava parado ao lado da cama, usando a parte de baixo do pijama e girando uma taa de conhaque na mo.
       Acho que estamos parecendo um casal, ela pensou. Como um casal de verdade, conversando um pouco antes de dormir.
       A idia fez com que pegasse o bloquinho e recomeasse a rabiscar rapidamente.
       - Voc gosta mesmo deste negcio?
       - Que negcio?
       - Conhaque. Sempre achei que tem gosto de remdio.
       - Talvez porque voc nunca tenha experimentado o tipo certo. - Sebastian passou-lhe o copo. Mel apoiou-se nos cotovelos para experimentar, enquanto subia 
na cama e sentava-se por trs dela. - Voc ainda est tensa - disse, e comeou a massagear-Ihe os ombros.
       - Um pouco, talvez. Acho que estou comeando a pensar que tudo isso pode dar certo... O nosso plano, digo.
       - Vai dar certo. Enquanto voc estiver depilando estas suas pernas incrivelmente longas e lindas, eu vou jogar golfe. No mesmo clube que Gumm freqenta.
       Longe de ser convencida de que o conhaque tinha qualquer de to especial, ela olhou por cima do ombro.
       - Ento veremos quem consegue descobrir mais, no ?
       - De fato, veremos.
       - Tem um pontinho, aqui no meu ombro... - Mel arqueou-se como um gato. - , a mesmo. Eu queria lhe perguntar sobre aquele casal do cassino. Os grandes vencedores.
       - Perguntar o qu? - Sebastian levantou a camisa, tirando-a do caminho enquanto satisfazia-se em explorar as costas macias e esguias.
       - Sei que foi o jeito que voc encontrou para levar Gumm at a mesa, mas no parece exatamente honesto, no acha? Fazer o rapaz ganhar dez mil dlares.
       - Eu simplesmente influenciei as decises dele. E imagino que Gumm j embolsou muito mais do que isso com as vendas de bebs.
       - Sim, sim, eu reconheo que h alguma justia nisso. Mas aquele casal... e se amanh,eles tentarem jogar novamente e perderem tudo? Talvez no consigam mais 
parar e...
       Ele riu, pressionando os lbios no centro de suas costas.
       - Sou bem mais sutil do que isso. Os jovens Jerry e Karen vo dar a entrada para a casa que querem comprar nos subrbios e deixar os amigos impressionados 
com a sorte que tiveram. Ambos iro concordar que usaram todo o estoque de sorte nesta nica tentativa e voltaro a jogar apenas de vez em quando. Tero trs filhos. 
Vo enfrentar srias dificuldades no casamento no sexto ano, mas conseguiro superar.
       - Bem. - Mel perguntou-se se algum dia se acostumaria com aquilo. - Nesse caso...
       - Nesse caso - ele murmurou, passando os lbios pela sua espinha. - Por que voc no esquece tudo isso e se concentra em mim?
       Sorrindo consigo mesma, Mel deixou o conhaque na arca aos ps da cama.
       - Pode ser. - Ela arqueou 'o corpo e girou, segurando-o com fora antes de atir-la de volta na cama. Prendendo-o com as duas mos, abaixou-se at que estivessem 
cara-a-cara. - Peguei voc.
       Ele fez uma careta, depois mordeu-lhe o lbio.
       - Sim, pegou mesmo.
       - E talvez eu queira mant-lo preso, s mais um pouco. - Mel beijou-lhe a ponta do nariz, depois o rosto, o queixo, os lbios.
       - O conhaque fica mais gostoso em voc do que no copo.
       - Experimente outra vez, s para ter certeza.
       Com um brilho de humor nos olhos, ela abaixou o rosto e provou, longa e profundamente.
       - Melhorou muito. Eu realmente gosto do seu gosto, Donovan. Entrelaou os dedos nos dele, feliz por ele no ter se movido quando escorregou para beijar-lhe 
o pescoo.
       Mel ficou provocando-o, brincando com seu desejo, e com o prprio, enquanto saboreava a sua pele. Quente aqui, mais fresca ali, o intenso pulsar do corao 
sob os lbios dele. Adorava o formato do corpo dele, a largura de seus ombros, o peito forte e macio, o rpido estremecimento da barriga sob seu toque.
       Gostava da maneira como sua mo parecia deslizar sobre ele, com sua pele vrios tons mais clara, o anel reluzindo em suas nuances de cores contra a prata. 
Esfregando o rosto no corpo dele, sentiu no apenas paixo, mas uma emoo mais profunda e intensa que a atordoava como um vinho e embotava seus sentidos.
       Sentiu um sbito ardor na garganta, os olhos ardendo, e seu corao parecia dissolver-se no peito.
       Com um suspiro, levou os lbios at os dele.
       Ela era a feiticeira naquela noite, Sebastian pensou, rolando sobre ela. Mel possua o poder e o dom. Ela tomara seu corao, sua alma, seus desejos e seu 
futuro e os segurava delicadamente nas mos.
       Ele murmurou seu amor por ela, muitas e muitas vezes, mas o idioma do seu sangue era o galico, e ela no entendeu.
       Moviam-se juntos, flutuando sobre a cama como se estivessem num lago encantado. Quando a lua comeou a se recolher, transformando a noite em madrugada, eles 
estavam perdidos um no outro, rodeados pela magia a que entregavam-se mutuamente.
       Quando Mel ergueu-se sobre ele, o corpo reluzindo sob a luz mortia, seus olhos escuros de desejos, pesado de prazeres, Sebastian pensou que ela jamais fora 
to linda. Nem to sua.
       Ele a procurou. E ela respondeu. Seus corpos se mesclaram. O momento foi doce, lindo e intenso.
       Ela arqueou o corpo para trs, exigindo mais dele, estremecendo com o prazer que isso lhe dava.
       Suas mos se encontraram, agarrando-se com fora enquanto ambos elevavam-se juntos at o clmax seguinte.
       Quando no conseguiram chegar mais longe, quando ele esvaziou-se nela e seus corpos estavam fracos e molhados de amor, Mel escorregou por cima dele, sem saber 
que seus olhos estavam midos. Mergulhou o rosto em seu peito, tremendo quando ele a abraou,
       - No me solte - ela pediu, num sussurro. - No me solte, a noite inteira.
       - No vou solt-la.
       Sebastian a manteve nos braos enquanto o corao dela lutava contra a certeza de que estava amando, e at que seu corpo se entregasse ao sono e ao esquecimento.
       
       
       
    CAPTULO 11
       
       
       No foi difcil dar uma espiada nas agendas do salo de beleza e da academia de ginstica do Silver Palace. Se sorrisse bastante e desse boas gorjetas, Mel 
j sabia, seria capaz de dar uma espiada em qualquer coisa. E, com uma gorjeta um pouquinho melhor, foi fcil marcar um horrio que coincidisse com o de Linda Glass.
       Esta foi a parte simples. A parte complicada para Mel era a perspectiva de passar um dia inteiro usando o colante de ginstica.
       Quando escolheu seu lugar na aula de aerbica, em meio a uma dzia de outras mulheres, enviou um sorriso amigvel na direo de Lnda.
       - Ento, resolveu experimentar? - A ruiva olhou no espelho, verificando se a cabeleira ainda mantinha-se devidamente presa sob a faixa.
       - Agradeo muito a sua "dica" - Mel respondeu. - Com a mudana, acabei perdendo mais de uma semana de ginstica. No precisa muito tempo para se perder a 
forma.
       - E eu no sei? Sempre que viajo... - Linda interrompeu-se quando a instrutora mudou a fita no gravador. Um rock mais lento ressoou pelo salo.
       - Est na hora de alongar, meninas. - Toda sorriso e msculos, a instrutora virou-se de frente para o espelho e de costas para a turma. - Agora, estiquem! 
- disse, numa vozinha animada, enquanto demonstrava.
       Mel seguiu os movimentos de alongamento, aquecimento e depois para os exerccios mais pesados. Embora se considerasse em excelente forma, teve de prestar 
toda a ateno aos movimentos. Obviamente havia se matriculado numa turma bastante adiantada e era uma questo de graciosidade e estilo alm do condicionamento fsico. 
       Antes que a aula estivesse na metade, Mel j desenvolvera uma profunda antipatia pela alegre instrutora, com seu rabinho-de-cavalo e voz animada.
       - Mais um levantamento de perna e sou capaz de pular em cima dela - Mel resmungou. 
       Embora no tivesse a inteno de falar em voz alta aparentemente foi a jogada perfeita. Linda enviou-lhe um largo sorriso.
       - Eu ajudo. - Linda estava ofegando, enquanto executava o que a instrutora alegremente chamara de "chutes rpidos". - Ela no deve ter mais do que vinte anos. 
Merece morrer.
       Mel deu uma risadinha e bufou. Quando a msica finalmente parou, as mulheres todas curvaram-se num alvio molhado de suor.
       Depois das checagens de pulso e relaxamento, Mel arrastou-se ,at onde Linda estava e mergulhou o rosto numa toalha.
       - E isso que ganho por tirar dez dias de folga. Com um suspiro cansado, Mel abaixou a toalha. - No acredito que me programei para o dia inteiro!
       - Sei o que est sentindo. Eu tenho aula de musculao agora.
       -  mesmo? - Mel ofereceu-lhe um sorriso surpreso. - Eu tambm.
       - Est brincando! - Linda massageou o pescoo e levantou-se. - Ento acho que ao menos poderemos sofrer juntas.
       Passaram a hora seguinte deslocando-se de pesos para bicicletas, de bicicletas para esteiras. Quanto mais transpiravam mais amigas se tornavam. A conversa 
transcorria dos exerccioo para os homens, e dos homens para os antecedentes pessoais.
       Foram juntas  sauna, depois para a hidromassagem. Encerraram a sesso com uma massagem.
       - No posso acreditar que voc desistiu da carreira para cuidar da casa. - Estendida na mesa forrada, Linda cruzou os braos sob o queixo. - No consigo imaginar 
uma coisa destas.
       - Eu tambm no me acostumei  idia, ainda. - Mel suspirou quando a massagista comeou a trabalhar em suas costas. - Para dizer a verdade, ainda nem sem 
exatamente o que vou fazer. Mas  um tipo de experincia.
       -?
       Mel hesitou, apenas o bastante para que Linda soubesse que tratava-se de um assunto delicado.
       - Voc entende, meu marido e eu estamos tentando iniciar uma famlia. No tivemos sorte, at agora. Desde que j percorremos todo o caminho de exames e procedimentos 
mdicos sem nenhum resultado, eu tive esta idia de que, se parasse de trabalhar, talvez afastasse um pouco da tenso e... bem, alguma coisa pudesse acontecer.
       - Deve ser muito difcil.
       - mesmo. Ns dois... Suponho que por sermos filhos nicos e no termos ningum alm de ns mesmos, desejamos tanto uma famlia grande. Parece to injusto, 
sabe? Ns temos uma linda casa, estabilidade financeira, nosso casamento  bom. Mas parece que no conseguimos ter filhos.
       Se as engrenagens no estivessem girando na cabea de Linda, ela disfarou muito bem.
       - Imagino que vocs estejam tentando h bastante tempo. - H anos. Na verdade, o problema  comigo. Os mdicos nos disseram que haveria muito poucas chances 
de que eu pudesse conceber.
       - No tenho inteno de ofend-la, mas vocs j pensaram em adoo?
       - Se pensamos? - Mel esboou um sorriso triste. - Nem sei lhe dizer em quantas listas nos inscrevemos. Ns dois concordamos que poderamos amar uma criana 
que no fosse biologicamente nossa. Sentimos que temo$ tanto para dar, mas... - Ela suspirou novamente. - Pode at ser egosmo, mas ns realmente queremos um beb. 
Talvez fosse mais fcil adotar uma criana mais velha, porm estamos relutantes quanto a isso. E nos disseram que a adoo pode demorar anos. No sei como conseguiremos 
suportar todos aqueles cmodos vazios. - Fez com que lgrimas enchessem seus olhos e depois afastou-as. - Desculpe-me. Eu no deveria ficar falando sobre isso. Fico 
emocionada demais.
       - Est tudo bem. - Linda estendeu o brao entre as mesas e apertou a mo de Mel. - Acho que ningum entende estas coisas melhor do que uma mulher.
       Almoaram juntas, suco gelado e salada de espinafre. Mel permitiu que Linda guiasse a conversa delicadamente de volta para sua vida pessoal. No papel da ingnua 
e emotiva Mary Ellen Ryan, ela despejou informaes sobre seu casamento, suas esperanas e seus temores. Derramou algumas lgrimas para dar um efeito melhor, mas 
enxugou-as bravamente.
       - E quanto a voc, no pensa em se casar? - Mel perguntou.
       - Eu? Ah, no. - Linda riu. - Tentei uma vez, anos atrs. Mas gosto de liberdade. Jasper e eu temos um acordo muito bom. Gostamos um do outro, mas no deixamos 
que isso interfira nos negcios. Gosto qe poder ir e vir quando quiser.
       - Eu admiro voc. - Sua rameira fria e sem corao. - Antes de conhecer Donovan, eu achava que iria viver sozinha, ter o meu prprio cantinho. No que me 
arrependa de ter me apaixonado e casado com ele, mas acho que todas ns invejamos um pouco as mulheres que -conseguem abrir seus prprios caminhos.
       - Para mim, deu certo. Mas voc est indo bem. Tem um marido que  louco por voc e  bem-sucedido o bastante para lhe dar conforto e uma bela casa. Isso 
 quase perfeito, Mel olhou para o copo vazio.
       - Quase.
       - Assim que vocs tiverem o beb, ser perfeito. - Linda deu-lhe uma palmadinha na mo. - Eu lhe dou a minha palavra.
       
       Mel arrastou-se para dentro de casa, jogando a mochila de ginstica para um lado e chutando os tnis para outro.
       - A est voc. - Sebastian a olhava do balco no andar de cima. - Eu estava prestes a enviar uma equipe de resgate.
       - Deveria ter mandado uma maca.
       O sorriso dele desapareceu.
       - Voc se machucou? - J estava descendo a escada. Eu sabia que devia ter ficado de olho em voc.
       - Se me machuquei? - Mel rosnou para ele. - Voc no sabe nem a metade. A instrutora de ginstica aerbica deve ter sido contratada no inferno. O nome dela 
 Penny, s para voc ter uma idia. E  bonitinha como um maldito boto de rosa. Depois, ca nas mos de uma rainha das amazonas chamada Madge, que me fez carregar 
pesos e correr em todas aquelas terrveis mquinas reluzentes. Pedalei, corri, levantei e abaixei. - Com uma careta de dor, ela pousou a mo na altura do estmago. 
- E, o dia inteiro, comi apenas umas folhinhas murchas.
       - Uau! - Sebastian beijou-a na testa. - Pobrezinha. Mel estreitou os olhos.
       - Estou a fim de dar um soco em algum, Donovan. Poderia ser voc.
       - E se eu lhe preparar um belo lanche?
       Os lbios dela formaram um biquinho.
       - Por acaso temos pizza congelada?
       - Sinceramente, eu duvido. Venha. - Ele passou o brao em torno dos ombros dela, num gesto amigvel, e levou-a para a cozinha. - Voc pode me contar tudo 
enquanto come.
       Mel desabou na cadeira da cozinha e apoiou os braos na mesa de tampo de vidro.
       - Foi um dia e tanto. Sabia que ela... Linda... faz tudo isso duas vezes por semana? - Inspirada, Mel levantou-se e foi vasculhar os armrios em 'busca de 
um saquinho de batatas chips. - No sei por que algum precisa ficar to saudvel assim - disse, com a boca cheia. - Ela parece ser boa gente, isto , quando voc 
conversa ela responde como uma pessoa normal, inteligente. - Com os olhos sombrios, Mel tornou a sentar-se. - Ento, conforme voc vai conversando, percebe que ela 
 inteligente demais. E tambm fria como um peixe.
       - Imagino que vocs conversaram bastante. - Sebastian ergueu os olhos do super sanduche que estava montando.
       - E como. Abri meu peito para ela. Ela sabe que perdi meus pais quando tinha vinte anos. Como conheci voc, uns dois anos depois. Toda a histria do amor 
 primeira vista. E que voc era bem romntico. - Mel mastigou uma batatinha.
       - Eu era? - Sebastian deixou o sanduche e um copo do refrigerante preferido de Mel diante dela.
       - Pode apostar. Vivia me mandando rosas, levava-me para danar e para longos passeios ao luar. Voc era louco por mim.
       Sebastian sorriu, enquanto Mel dava uma mordida voraz no sanduche.
       - Tenho certeza disso.
       - Voc implorou para casar comigo. Meu Deus, isso aqui est timo. - Mel fechou os olhos e engoliu. - Onde parei?
       - Eu estava implorando para voc casar comigo.
       - Certo. - Ela fez um gesto com o copo, antes de beber. - Mas eu fui cautelosa. Realmente fui morar com voc depois de algum tempo, e depois deixei que voc 
me mimasse completamente. Desde ento, voc tem feito de tudo para tornar minha vida um verdadeiro conto de fadas.
       - Eu pareo um timo sujeito.
       - Ah, sim, eu enfatizei muito este ponto. Ns somos o casal mais feliz do mundo. Exceto por uma nica tristeza. - Mel franziu a testa e continuou comendo. 
- Sabe, no incio eu estava me sentindo muito mal por ficar mentindo e inventando estas coisas. Sabia que era um trabalho, um trabalho importante, mas me parecia 
calculista demais. Ela era uma boa pessoa, amigvel, e incomodou-me a maneira como eu a estava enganando.
       Mel pegou o saquinho de batatas novamente, lambiscando enquanto organizava seus prprios pensamentos.
       - Ento, assim que surgiu o assunto do beb, eu praticamente vi a maneira como ela mudou, entende? Toda aquela doura desapareceu, dando lugar a uma coisa 
fria, dura. Ela continuava sorrindo e mostrando-se simptica e amiga, mas parecia estar guardando tudo naquele crebro e calculando os lucros. Portanto, depois disso, 
no me senti mal em deix-la arrancar mais informaes. Eu quero aquela mulher, Donovan.
       - Quando ir v-Ia novamente?
       - Depois de amanh. No salo de beleza, servio completo. - Com um gemido, Mel afastou o prato. - Ela acha que sou uma mulher  procura de coisas para preencher 
o tempo. - Fez uma careta. - Uma tarde de compras tambm foi mencionada.
       - Como sofremos para cumprir nossa misso.
       - Muito engraado. Considerando-se que voc passou a manh inteira batendo numa bolinha branca.
       - Acho que no mencionei que detesto golfe.
       - No. - Ela sorriu. - timo. Conte-me como foi.
       - Ns nos encontramos no quarto tee. Por acaso,  claro.
       -  claro.
       - Ento, acabamos jogando o restante da partida juntos. - Sebastian pegou o copo dela e bebeu um gole do refrigerante. - Ele achou minha esposa muito encantadora.
       - Naturalmente.
       - Falamos sobre negcios, os dele e os meus. Ele est interessado em fazer investimentos, portanto fiz algumas sugestes sobre imveis.
       - Foi esperto.
       - Eu tenho mesmo uma propriedade no Oregon que estou pensando em vender. De qualquer forma, fomos beber alguma coisa depois do jogo e conversamos sobre esportes 
e outras coisas. Eu consegui incluir na conversa o fato de que gostaria de ter um filho.
       - Um filho homem, especificamente?
       - Sim, como eu disse foi uma conversa do tipo masculina. Um filho para herdar o nome da famlia, para se jogar bola, parece que deu mais veracidade  conversa.
       - Meninas tambm jogam bola - Mel murmurou.- No importa. Ele pegou a isca? 
       - Apenas de leve. Eu enrolei um pouco, mostrei-me um tanto aborrecido e mudei de assunto.
       - Por qu? - Mel endireitou-se na cadeira. - Se voc o tinha no anzol, por que soltou?
       - Porque achei que seria melhor. Voc precisa confiar em mim nisso, Mel. Gumm ficaria desconfiado se eu comeasse a fazer confidncias to depressa. Com as 
mulheres  diferente  mais natural. 
       Ela refletiu um pouco sobre isso e, embora ainda estivesse franzindo a testa, assentiu.
       - Est certo, eu concordo. E, sem dvida, ns j fizemos o trabalho de base.
       - Falei com Devereaux um pouco antes de voc chegar. Amanh mesmo eles devem ter um relatrio minucioso sobre os antecedentes de Linda Glass. E Devereaux 
ficou de nos avisar assim que Gumm comear a agir para confirmar a nossa histria.
       - Isso  bom.
       - Mais uma coisa: fomos convidados para jantar com Gumm e senhora, sexta-feira  noite.
       Mel arqueou a sobrancelha.
       - Isso  melhor ainda. - Inclinou-se sobre a mesa para beij-lo. - Voc fez um bom trabalho, Donovan.
       - Creio que formamos um bom time. Voc acabou de comer?
       - Por enquanto.
       - Ento acho que devemos nos preparar para sexta-feira.
       - Preparar o qu? - Mel enviou-lhe um olhar desconfiado, enquanto ele a obrigava a levantar-se. - Se vai comear a me enlouquecer com as roupas que devo usar...
       - No  nada disso.  o seguinte - Sebastian falou, levando-a para fora da cozinha. - Teremos de parecer um casal devotado e delirantemente feliz.
       - , e da?
       - Loucamente apaixonados - ele continuou, empurrando-a para as escadas.
       - Eu sei qual  o plano, Donovan.
       - Bem, eu acredito na escola "mtodo de atuao". Por isso tenho certeza de que nossa performance ser bem melhor se passarmos o maior tempo possvel fazendo 
amor.
       - Ah, entendo. - Mel virou-se, enlaou os braos no pescoo dele e entrou no quarto de costas. - Bem, como voc disse, temos de sofrer para cumprir nossa 
misso.
       
       Mel tinha certeza de que algum dia se lembraria daquilo e daria boas risadas. Ou, pelo menos, daria um sorriso de alvio por ter sobrevivido.
       Desde o incio de sua carreira de policial, e depois de detetive, ela havia sido insultada, chutada, empurrada, tivera portas batidas na cara e no p. J 
fora ameaada, recebera propostas ofensivas e, numa ocasio memorvel, levara um tiro.
       Porm, tudo isso era nada se comparado com o que estava sendo feito com ela no Silver Woman.
       O exclusivo e caro salo de beleza do hotel oferecia de tudo, desde uma simples lavagem de cabelos at algo com o nome extico, e aterrorizante, de "crioterapia".
       Mel no teve coragem de experimentar este, mas estava recebendo tratamentos da cabea aos ps, e cada centmetro do seu corpo se ressentia disso.
       Havia chegado ao salo alguns minutos antes de Linda e, entrando novamente em seu papel, cumprimentara a mulher como se fosse uma velha amiga.
       Durante a depilao com cera quente que, Mel no demorou a descobrir, realmente doa, conversaram sobre roupas e estilos de penteados. Sorrindo por entre 
os dentes cerrados, Mel deu graas por ter passado horas, na noite anterior, folheando revistas de moda.
       Mais tarde, enquanto esperava secar a gosma que a esteticista passara em seu rosto, Mel tagarelou sobre como estava adorando morar em Tahoe.
       - Nossa vista do lago  incrvel. Mal posso esperar para conhecer as pessoas e fazer amigos. Adoro dar festas e receber.
       - Jasper e eu podemos apresent-los aos nossos amigos Linda ofereceu, enquanto a pedicura lixava suas unhas. Estando neste ramo de hotelaria, ns conhecemos 
praticamente todo mundo por aqui.
       - Isso seria maravilhoso. - Mel arriscou um olhar para baixo e tentou parecer satisfeita, em vez de horrorizada, ao ver que as unhas dos seus ps estavam 
sendo pintadas de fcsia. - Donovan comentou comigo que encontrou Jasper no clube de golfe. Donovan adora jogar golfe - disse, esperando com isso obrig-lo a passar 
horas no campo. -  mais uma paixo do que um hobby.
       - Com Jasper  a mesma coisa. Mas eu no consigo me interessar por este esporte. - Linda comeou a falar sobre as diversas pessoas que gostaria de apresentar 
a Mel, e sobre como poderiam reunir-se para jogar tnis ou velejar.
       Mel concordava com animao, perguntando-se se seria possvel algum realmente morrer de tdio.
       Seu rosto foi esfregado e limpo, depois lambuzado com um creme. Passaram algum tipo de leo nos seus cabelos e envolveram-nos numa touca trmica.
       - Eu adoro ser mimada deste jeito - Linda murmurou. As duas estavam recostadas em poltronas macias, tendo as mos massageadas e as unhas manicuradas.
       - Eu tambm - disse Mel, e rezou para que a tortura estivesse quase no fim.
       - Creio que  por isso que me dou to bem no meu trabalho. Na maior parte do tempo trabalho  noite, portanto tenho os dias livres. E posso aproveitar todos 
os benefcios do hotel.
       - Faz tempo que voc trabalha aqui?
       - Quase dois anos. - Linda suspirou. - Nunca fiquei entediada.
       - Voc deve conhecer todo tipo de pessoas interessantes. - Interessantes, ricas e poderosas.  disso que eu gosto. E, pelo que voc disse no outro dia, seu 
marido tambm no  pouca coisa.
       Mel teve vontade de rir, mas achou melhor esboar um sorriso modesto.
       - Ah, ele est muito bem. Pode-se dizer que Donovan tem um "toque mgico".
       Seus cabelos foram enxaguados, massageados, Mel at que achou essa parte agradvel, e j estava quase na hora dos toques finais. Mel percebeu que,se Linda 
no comeasse logo a lhe fazer perguntas, ela prpria teria de encontrar um jeito de tocar no assunto.
       - Sabe, Mary Ellen, eu estive pensando no que voc me falou no outro dia.
       - Ah... - Mel fingiu um certo desconforto. - Sinto muito sobre aquilo, Linda. Eu no devia t-la envolvido nos meus problemas logo depois que nos conhecemos. 
Acho que estava me sentindo um pouco perdida e sozinha.
       - Bobagem. - Linda balanou as unhas gloriosas. - Ns nos demos bem, s isso. Voc se sentiu  vontade comigo.
       - Sim,  verdade. Mas fico um pouco envergonhada quando penso que aborreci voc com toda essa histria da minha vida pessoal.
       - Eu no fiquei nada aborrecida. Fiquei emocionada. - A voz de Linda era suave como seda, com o toque certo de simpatia. Mel sentiu seus plos eriarem. - 
E pensei muito, tambm. Por favor, me perdoe se eu estiver me intrometendo, mas voc j considerou a idia de uma adoo particular?
       - Est se referindo a fazer a adoo atravs de um advogado que trabalha com mes solteiras? - Mel emitiu um suspiro desanimado. - Na verdade, ns tentamos 
esse caminho uma vez, mais ou menos um ano atrs. No estvamos muito seguros se seria a maneira certa. O dinheiro no era problema, mas ficamos preocupados acerca 
da legalidade e da moralidade. Mas tudo parecia perfeito. Chegamos at a conversar com uma das mes. Nossas esperanas foram despertadas, demais, at. Comeamos 
a escolher o nome, olhvamos vitrines com roupinhas de bebs. Realmente parecia que tudo iria dar certo. Porm, na ltima hora a garota acabou desistindo.
       Mel mordeu o lbio, como se estivesse se controlando para no chorar.
       - Deve ter sido terrvel para voc.
       - Ns dois passamos por momentos difceis. Chegamos to perto e depois... nada. Desde ento, nunca mais conversamos sobre tentar novamente este caminho. .
       - Posso entender porqu. Mas, por acaso eu conheo algum que tem. muita sorte em localizar bebs para pais adotivos.
       Mel fechou os olhos. Tinha medo que eles se enchessem de escrnio, e no de esperana.
       -  um advogado? - perguntou.
       - Sim. Eu no o conheo pessoalmente, mas, como disse, a gente encontra muitas pessoas neste ramo de negcios, e ouvi falar nele. No quero prometer nada 
nem lhe dar muitas esperanas, mas se voc quiser eu posso verificar.
       - Eu lhe agradeceria muito. - Mel abriu os olhos e encontrou os de Linda atravs do espelho. - Nem sei lhe dizer o quanto eu ficaria agradecida.
       
       - Uma hora mais tarde, Mel correu para fora do hotel e para dentro dos braos de Sebastian. E riu quando ele abraou-a, dando-lhe um beijo exagerado.
       - O que est fazendo aqui?
       - Bancando o marido gentil e amoroso que vem buscar a esposa. - Sebastian afastou-se para admir-la e sorriu.
       Os cabelos dela estavam penteados de um jeito leve e sexy, os olhos pareciam maiores e mais profundos, graas  maquiagem perfeita, e os lbios estavam pintados 
no mesmo tom fcsia das unhas.
       - Em nome de Finn, Sutherland, o que fizeram com voc?
       - No me venha com gracinhas.
       - E claro que no. Voc est fantstica. Deslumbrante. Nem parece a minha Mel. - Ele segurou-lhe o queixo para mais um beijo. - Quem  esta mulher to arrumada 
e elegante que estou abraando? .
       No to irritada quanto gostaria, ela fez uma careta.
       - E melhor no fazer piadinhas depois de tudo o que eu passei. Imagine que depilei at a virilha. Foi uma tortura selvagem. - Rindo, ela passou as mos em 
torno do pescoo dele. - E minhas unhas dos ps esto pintadas de cor-de-rosa-choque.
       - Mal posso esperar para ver. - Sebastian beijou-a de leve. - Tenho novidades.
       - Eu tambm.
       - Que tal caminharmos um pouco, minha linda esposa, enquanto lhe conto como Gumm est iniciando as sondagens sobre o estimvel casal Ryan, de Seatle?
       - Tudo bem. - Mel entrelaou a mo na dele. - E eu vou lhe contar como, levada pela extrema bondade de seu corao, Linda Glass vai nos ajudar a entrar em 
contato com um advogado. Sobre uma adoo particular.
       - Ns trabalhamos bem, juntos.
       - Sim, Donovan, ns trabalhamos bem. - Satisfeita consigo mesma, ela caminhou ao lado dele. - Sem dvida nenhuma.
       
       Na sute presidencial no ltimo andar do hotel Silver Palace, Gumm olhava pela janela.
       - Um casal encantador - comentou com Linda.
       - E parecem loucos um pelo outro. - Ela bebeu um gole de champanhe enquanto 8ebastian e Mel seguiam pela calada de mos dadas. - O jeito que ela fica quando 
diz o nome dele quase me faz pensar se so realmente casados.
       - Eu recebi por fax as cpias da certido de casamento e outros documentos. Parece que est tudo em ordem. - Gumm tamborilou os dedos nos lbios. - Se fossem 
espies, no creio que tivessem tanta intimidade.
       - Espies? - Linda enviou-lhe um olhar preocupado. Ora, Jasper, por que est pensando nisso?  impossvel que algum tenha chegado at ns.
       - No sei. Aquela histria com os Frost me deixou preocupado.
       - Bem,  uma pena que tenham perdido o beb. Mas ns recebemos a nossa parte e no deixamos nenhum rastro.
       - Deixamos Parkland. Eu no consegui localiz-lo.
       - Ento ele desapareceu, e pronto. - Linda encolheu os ombros e aproximou-se para pressionar o corpo contra o de Gumm. - Voc no tem nada com que se preocupar. 
Voc guardou a promissria que ele lhe devia, e isso era legtimo.
       - Parkland viu voc.
       - Ele no estava nem enxergando direito, de to apavorado. Alm disso, estava escuro e eu usei um leno na cabea. Parkland no me preocupa nem um pouco. 
- Linda beijou-o levemente. - Ns temos o "dom", benzinho. Estando numa organizao como esta teremos tantos disfarces e sadas de emergncia que eles jamais chegaro 
at ns. E o dinheiro... - Ela afrouxou-lhe a gravata. - Pense s em todo aquele dinheiro entrando...
       - Voc gosta de dinheiro, no ? - Jasper abriu o zper do vestido dela. - Isso ns temos em comum.
       - Temos muitas coisas em comum. E esta pode ser a nossa grande chance. Vamos cuidar bem dos Ryan e haver uma bela comisso nos esperando. Eu garanto que 
eles so capazes de pagar o mximo por um beb. A mulher est desesperada para ser mame.
       - Vou esperar um pouco mais. - Ainda calculando, ele desabou com ela no sof.
       - No h mal nenhum em fazer isso, mas estou lhe dizendo, Jasper, estes dois so de primeira qualidade. No temos como perder. De jeito nenhum.
       
       Mel e Sebastian tornaram-se companheiros constantes de Gumm e Linda. Saam juntos para jantar, para jogar no cassino, para almoos no clube e animados jogos 
de tnis.
       Dez dias daquela vida agitada j estavam deixando Mel impaciente e irritada. Vrias vezes ela arriscou-se a perguntar  Linda sobre o advogado e a resposta, 
gentil e paciente, sempre era para que tivesse pacincia.
       Foram apresentados a dezenas de pessoas. Algumas Mel achou interessantes, outras escorregadias e suspeitas. Ela passava seus dias seguindo a rotina de "dondoca", 
com muito dinheiro e tempo  disposio.
       E passava as noites com Sebastian.
       Mel tentava no preocupar-se com seu corao. Tinha um trabalho a fazer e se, no decorrer dele, acabasse se apaixonando, era um problema que teria de resolver 
mais tarde.
       Sabia que Sebastian gostava dela e que tambm a desejava. O que mais a preocupava era o fato de que ele parecia gostar ainda mais da mulher que ela estava 
fingindo ser... e que deixaria de ser assim que o trabalho terminasse.
       Nem parece a minha Mel. Minha Mel, ele dissera. Havia uma esperana naquelas palavras e ela no conseguia afast-la.
       E por mais que quisesse que aquele caso se encerrasse a que a justia fosse feita, Mel comeou a temer o dia em que teriam de ir embora, encerrando tambm 
aquele casamento de fachada.
       Porm, quaisquer que fossem suas necessidades pessoais e suas esperanas secretas, ela no poderia permitir-se coloc-las na frente do que estavam tentando 
fazer.
       Aceitando uma sugesto de Linda, Mel concordou em dar uma festa. Afinal, seu papel dizia que era uma anfitri entusistica, uma dona de casa perfeita e uma 
jia da sociedade.
       Enquanto esforava-se para entrar no vestidinho preto, rezou para que no cometesse nenhuma gafe terrvel, capaz de revelar a todos a sua falsa identidade.
       - Maldio - praguejou baixinho no instante em que Sebastian entrou no quarto.
       - Algum problema, querida?
       - O zper ficou preso. - Ela estava metade dentro e metade fora do vestido, rubra, descabelada e furiosa como uma gata selvagem.
       Sebastian ficou tentado a ajud-la a sair do vestido, em vez do contrrio.
       Com um leve puxo, soltou o zper e puxou-o at o final, na altura do meio das costas dela.
       - Pronto. Voc est usando a turmalina - ele disse, estendendo a mo por trs dela a fim de tocar a pedra entre seus seios.
       - Morgana disse que era boa contra o estresse. E estou precisando de toda ajuda que puder obter. - Virando-se, Mel calou os sapatos de salto alto, no sem 
lamentar. Isso fez com que ficasse da mesma altura que ele. - Sei que  ridculo, mas estou realmente nervosa. Nunca dei uma festa que tivesse algo alm de pizza 
e cerveja. Voc viu tudo aquilo l embaixo?
       - Sim, e tambm vi o buf que contratamos, que vai cuidar de tudo.
       - Mas eu sou... bem, eu sou a anfitri. Deveria saber o que fazer.
       - No, voc deve dizer s pessoas o que fazer e depois receber os elogios.
       Ela sorriu um pouco.
       - No parece to ruim. Mas alguma coisa ter de acontecer, e logo. Acho que vou ficar maluca se no acontecer. Linda fica enviando mensagens enigmticas sobre 
ser capaz de ajudar, mas eu me sinto como se no estivesse fazendo nada, nas ltimas semanas.
       - Pacincia. Daremos o prximo passo ainda esta noite.
       - O que est dizendo? - Mel segurou-o pela manga. Ns combinamos no esconder nada um do outro. Se voc sabe de alguma coisa, se tem alguma informao, precisa 
me contar.
       - Nem sempre funciona como um reflexo perfeito dos acontecimentos. Eu sei que a pessoa que estamos procurando vir aqui esta noite, e que vou reconhec-la. 
Ns estamos jogando bem at agora, Mel. E iremos at o fim.
       - Tudo bem. - Ela respirou fundo. - O que me diz, benzinho? Est na hora de descermos para receber nossos convidados?
       Sebastian fez uma careta.
       - No me chame de benzinho.
       - Puxa, e eu que pensava estar pegando o jeito! - Ela comeou a descer, depois parou no meio da escada, com a mo no estmago. - Ah, meu Deus, a campainha... 
L vamos ns.
       
       De fato, no foi to ruim quanto imaginava, Mel concluiu enquanto a festa transcorria por toda a casa e pelo terrao. Todos pareciam estar se divertindo como 
nunca. Uma agradvel seleo de msicas clssicas, que Sebastian escolhera, suavizava o ambiente. A noite estava fresca o bastante para que deixassem as portas abertas 
e os convidados podiam entrar e sair  vontade. A comida estava excelente. E, mesmo se ela no reconhecesse os ingredientes de metade dos canaps, no teve nenhuma 
importncia. Aceitou os elogios do mesmo jeito.
       Havia vinho, risos e conversas interessantes. O que, ela supunha, eram os requisitos de uma boa festa. E era bom observar Sebastian movimentando-se pela sala, 
v-lo sorrir para ela, ou parar ao seu lado para toc-la ou trocar uma palavra ntima.
       Qualquer um que olhar para ns vai acreditar, ela pensou.
       Somos o casal mais feliz do mundo, loucamente apaixonados um pelo outro.
       Ela prpria quase poderia acreditar, quando o olhar de Sebastian deslizava em sua direo e aquecia-se, enviando-lhe aqueles secretos sinais por todo seu 
corpo.
       Linda reluzia, parecendo deslumbrante num vestido branco sem alas.
       - Eu juro, Mary Ellen, seu marido no tira os olhos de voc. Se eu conseguisse encontrar o irmo gmeo dele, talvez at desse mais uma chance ao casamento.
       - No h ningum como ele - Mel falou, com toda sinceridade. - Acredite, Donovan  nico.
       - E  todo seu.
       - Sim,  todo meu.
       - Bem, alm de ter sorte no amor, voc sabe como organizar uma festa. Sua casa  um espetculo. - E, Linda calculou, devia valer meio milho de dlares.
       - Obrigada, mas realmente devo a voc por ter-me recomendado o buf. Eles so timos.
       -  um prazer ajud-la. - Linda apertou-lhe a mo e enviou-lhe um olhar significativo. - E estou falando srio, Mary Ellen.
       Mel captou depressa.
       - Voc... Ah, desculpe estar insistindo, mas no consigo pensar em outra coisa nestes ltimos dias.
       - No posso prometer nada - Linda falou, mas deu uma piscadela. - H uma pessoa que gostaria de lhe apresentar.
       Voc disse que eu poderia convidar alguns amigos.
       - Sim,  claro. - Mel recolocou sua mscara de anfitri. - Sabe, eu sinto que esta festa  to sua quanto minha. Voc e Jasper se tornaram grandes amigos 
para ns.
       - Eu digo o mesmo de vocs. Venha por aqui, para que eu possa apresent-la. - Segurando a mo de Mel, Linda comeou a abrir caminho por entre os convidados. 
- Vou traz-la de volta - dizia, rindo. - Preciso roub-la s por um minuto.- Ah, aqui est voc, Harriet. Harriet querida, quero que conhea a nossa anfitri e 
minha amiga, Mary Ellen Ryan. Mary Ellen, esta  Harriet Breezeport.
       - Como vai? - Mel apertou levemente a mo fina e muito clara.
       A mulher devia ter bem mais de sessenta anos, com uma aparncia frgil que era acentuada pelos cabelos brancos e os culos de aros finos.
       - Muito prazer em conhec-la. Foi gentileza sua nos convidar. - A voz dela era quase um sussurro. - Linda contou-me o quanto voc  encantadora. Este  o 
meu filho, Ethan.
       Ele era to claro quanto a me e extremamente magro. O aperto de mo foi rspido e seus olhos negros pareciam com os de um pssaro.
       - Linda festa.
       - Obrigada. No gostaria de se sentar, sra. Breezeport? Ou beber alguma coisa?
       - Ah, eu aceitaria um pouco de vinho. - A mulher deu um sorrisinho. - No quero incomodar.
       - No  incmodo algum. - Mel guiou-a para uma cadeira. - Vou buscar-lhe uma taa de vinho.
       - Ah, no, Ethan pode fazer isso. No , Ethan?
       -  claro. Com licena.
       -  um bom menino - Harriet falou quando o filho seguiu para a mesa do buf. - Cuida to bem de mim... - Ela sorriu para Mel. - Linda me disse que voc mudou-se 
para Tahoe recentemente.
       - Sim, meu marido e eu viemos de Seattle. Foi uma mudana e tanto.
       - De fato, de fato. Ethan e eu s vezes passamos nossas frias aqui. Temos uma casa agradvel num condomnio.
       Ficaram conversando enquanto Ethan trazia um prato com canaps e uma taa de vinho. Linda j havia se esgueirado para longe quando Mel ergueu os olhos e viu 
Sebastian se aproximando.
       - Este  o meu marido - Mel deslizou a mo sob o brao dele. - Donovan, estes so Harriet e Ethan Breezeport.
       - Linda comentou mesmo que vocs formam um par adorvel. - Harriet ofereceu a mo a Sebastian. - Receio estar monopolizando a sua linda esposa.
       - Geralmente sou eu o culpado disso. Na verdade, preciso roub-la por um instante. Acho que h um probleminha na cozinha. Fiquem  vontade, por favor.
       Sebastian levou-a atravs da sala at que, encontrando um cantinho isolado, entrou com ela dentro de um armrio embutido.
       - Donovan, pelo amor de Deus...
       - Shh. - Sob a fraca luz, os olhos dele brilhavam. -  ela - cochichou.
       - Quem  ela, e o que estamos fazendo dentro do armrio?
       - A senhora idosa. E ela 
       -  ela? - Mel repetiu: boquiaberta. - Desculpe, mas no espera que eu acredite que aquela frgil velhinha  a "cabea" de uma organizao especializada em 
raptos de bebs?
       - Exatamente. - Sebastian beijou a boca atnita. - Estamos fechando o cerco, Sutherland.
       
       
       
       
       
    CAPTULO 12
       
       
       
       Mel encontrou Harriet Breezeport mais duas vezes nos dois dias seguintes, uma vez para um ch e outra numa festa. Se no fosse pela sua f em Sebastian, ela 
teria rido da idia de que aquela senhora de vozinha fina e sussurrante fosse a cabea de uma organizao criminosa.
       Mas acreditava nele e por isso continuou observando, mantendo-se em seu papel.
       Foi Devereaux quem passou-lhes a informao de que nem Harriet ou Ethan Breezeport possuam uma casa em Tahoe.
       Na verdade, no havia nenhum registro da existncia de qualquer um deles.
       Ainda assim, quando finalmente o contato apareceu no foi atravs deles, mas por um homem jovem e bronzeado, com uma raquete de tnis na mo. Mel acabara 
de jogar uma' partida com Linda e estava bebendo Um ch gelado, enquanto esperava que Sebastian completasse o jogo de golfe com Gumm. O rapaz aproximou-se, usando 
a roupa branca de tnis e com um sorriso devastador.
       - Sra. Ryan?
       - Sim?
       - Meu nome  John Silbey. Um amigo comum indicou-me a senhora. Ser que poderamos conversar por um instante?
       Mel hesitou, como imaginava que faria uma mulher bem casada diante da aproximao de um homem desconhecido.
       -Est bem.
       Ele sentou, pousando a raquete entre os joelhos bronzeados.
       - Sei que pode parecer um tanto estranho, sra. Ryan, mas, como disse, temos amigos comuns. Fui informado de que a senhora e o seu marido esto interessados 
em meus servios.
       -  mesmo? - Mel arqueou a sobrancelha, mas seu corao acelerava-se. - Voc no parece ser um jardineiro, embora meu marido e eu estejamos desesperados atrs 
de um.
       - No, de fato. - Ele riu alto. - Receio no poder ajud-Ios neste ponto. Eu sou advogado, sra. Ryan.
       - Ah? - Mel tentou uma expresso de esperanosa confuso, e aparentemente conseguiu.
       Silbey inclinou-se um pouco mais e falou suavemente.
       - No  assim que costumo contatar os meus clientes, mas quando fiquei sabendo que a senhora estava aqui achei que seria uma boa oportunidade de nos conhecermos. 
Soube que a senhora e seu marido esto interessados numa adoo particular.
       Ela umedeceu os lbios e balanou o gelo em seu copo, para causar um efeito.
       - Eu... ns temos esperana disso - falou, devagar. - At j tentamos. mas tem sido muito difcil. Todas as agncias que procuramos tm listas de espera enormes.
       - Eu entendo.
       E Mel percebia que ele entendia mesmo, e que estava contente em descobrir que ela era to emocional, desesperada e fragilizada. Tocou a mo dela com simpatia.
       -Ns j tentamos fazer a adoo atravs de um advogado, mas todo o processo acabou fracassando no ltimo minuto. - Mel pressionou os lbios, como se quisesse 
impedir que tremessem. - No sei se conseguiria passar por todo aquele desapontamento outra vez.
       - Tenho certeza de que  muito estressante. No quero lhe dar muitas esperanas antes de discutirmos o assunto em detalhes, mas posso afirmar que j representei 
vrias mulheres que, por um motivo ou por outro, decidem entregar seus filhos para adoo. Tudo o que elas desejam para eles  um bom lar, onde sejam amados. O meu 
trabalho  ajud-Ias, sra. Ryan. E quando consigo, eu confesso que  uma das experincias mais gratificantes que uma pessoa pode ter.
       E uma das mais lucrativas, Mel pensou, mas esboou um sorriso trmulo.
       - Ns queremos muito proporcionar um bom lar para uma criana, sr. Silbey. Se puder nos ajudar... nem sei lhe dizer o quanto ficaremos gratos.
       O advogado tocou-lhe a mo novamente.
       - Neste caso, se a senhora estiver de acordo, poderemos conversar mais sobre o assunto.
       - Ns iremos ao seu escritrio, a qualquer hora que lhe for conveniente.
       - Na verdade, prefiro conversar com a senhora e seu marido num ambiente mais descontrado. Pode ser na sua casa, pois assim terei condies de informar  
minha cliente onde vocs moram, como vivem e se comportam em seu prprio lar.
       - Sim,  claro.  claro - ela disse, transbordando de excitao. - Voc nem tem um escritrio, no , patife? - A qualquer hora que o senhor quiser marcar.
       - Bem, infelizmente estou com minha agenda cheia pelas prximas duas semanas.
       - Ah... - Mel no precisou fingir o desapontamento. Mas, enfim, para quem j esperou tanto...
       Silbey aguardou um instante, depois sorriu com bondade.
       - Acho que posso desmarcar um compromisso ainda esta tarde, a no ser que a senhora...
       - Oh, no. - Ela agarrou-lhe as duas mos. - Seria maravilhoso. Estou, to agradecida. Donovan e eu... Obrigada, sr. Silbey.
       - Espero poder ajud-las. s sete horas est bem para a senhora?
       - Sim, est timo. - Mel enxugou as lgrimas de gratido.
       Depois que o homem se afastou, Mel continuou no personagem, certa de que algum estaria observando. Enxugou os olhos com um leno, pressionou a mo na boca. 
Sebastian encontrou-a fungando sobre o ch aguado.
       - Mary Ellen. - Ao ver os olhos vermelhos e os lbios trmulos, ele ficou imediatamente preocupado. - Querida, o que aconteceu?
       Mas no instante em que tomou-lhe as mos sentiu o sbito impacto da excitao dela,  ponto de quase derrub-lo. Apenas um tremendo esforo de autocontrole 
impediu que demonstrasse o seu espanto.
       - Ah, Donovan... - Mel levantou-se, avistando Gumm por cima do ombro dele. - Estou fazendo um pequeno escndalo, aqui. - Deu uma risadinha e enxugou as lgrimas. 
- Desculpe-me, Jasper.
       - Ora, o que  isso. - Num gesto cavalheiresco, Gumm ofereceu-lhe um leno de seda. - Algum a incomodou, Mary Ellen?
       - No, no. - Mel soluou, baixinho. - So boas notcias. timas notcias. Acho que fiquei emocionada demais. Ser que pode nos dar licena, Jasper? Envie 
minhas desculpas  Linda. Eu realmente preciso conversar a ss com Donovan.
       - E claro. - Gumm afastou-se para dar-lhes privacidade, e Mel encostou o rosto no ombro de Sebastian.
       - O que diabos est acontecendo? - ele indagou num murmrio tranqilizante, enquanto afagava-lhe as mos.
       - Contato. - Sempre mantendo os olhos lacrimejantes e os sorrisos trmulos, Mel afastou-se para encar-lo. - Apareceu aqui um advogado metido  besta, bem, 
duvido que seja advogado, e se ofereceu para nos ajudar com uma adoo particular. Faa uma cara de quem adorou a notcia.
       - Eu adorei mesmo. - Sebastian beijou-a, por sua prpria alegria e para o beneficio da platia. - O que ficou combinado?
       - Guiado pela bondade do seu corao e pela considerao por uma mulher desesperada, ele concordou em ir  nossa casa esta noite e discutir nossas necessidades 
em mais detalhes.
       - E muita gentileza dele.
       - Ah, sim. Posso no ter os seus dons, mas consegui ler a mente dele direitinho. S de olhar para mim ele pensou: "otria". Quase pude ouvi-lo calcular os 
lucros. Vamos para casa. - Mel passou o brao em torno do dele. - Este lugar est cheirando mal.
       - Ento? - Linda perguntou a Gumm, enquanto observavam Sebastian e Mel se afastando.
       - Foi como tirar o doce de uma criana. - Contente consigo mesmo, Gumm fez sinal para o garom. - Eles esto to encantados com a idia que faro o mnimo 
de perguntas e pagaro o preo mximo. Talvez ele se mostre um pouco mais cauteloso, mas do jeito que  louco pela mulher far qualquer coisa para deix-la contente.
       - Ah, o amor... - Linda fez um muxoxo de desprezo. O pior negcio que existe. Ento, voc j escolheu a mercadoria?
       Gumm pediu as bebidas e recostou-separa acender um cigarro.
       - Ele quer um menino, portanto acho que devemos lhe fazer a vontade. Afinal, vai pagar um bocado por isso. Temos uma enfermeira em Nova Jersey pronta para 
selecionar um menino saudvel, talvez ainda no prprio hospital.
       - timo. Sabe, eu at que gosto de Mary Ellen. Talvez eu faa um ch de beb para ela.
       - Uma idia excelente. Eu no ficaria surpreso se, daqui a um ou dois anos, eles comearem a procurar outro beb. Jason olhou no relgio. - Acho melhor ligar 
para Harriet e avis-Ia de que pode comear a acionar as engrenagens.
       - Antes voc do que eu - Linda falou com uma careta.
       - Aquela velhota me provoca arrepios.
       - Aquela velhota dirige um negcio que  uma mina de ouro - ele lembrou-a.
       - Sim, e negcios so negcios. - Linda pegou o copo que o garom deixara na mesa e ergueu-o num brinde. - Aos felizes futuros papai e mame.
       - Aos vinte e cinco mil que ganharemos facilmente.
       - Melhor ainda. - Linda bateu o copo no dele. - Melhor ainda. .
       
       Mel j sabia de cor o seu papel e estava pronta para entrar em cena quando Silbey chegou, s sete em ponto. A mo dela tremia um pouco, quando cumprimentou-o.
       - Estou to contente que tenha vindo.
       - O prazer  meu.
       Ela o levou para a ampla sala de estar, falando sem parar.
       - Ns estamos nesta casa h duas semanas, apenas. Ainda quero fazer muitas modificaes. Temos um quarto l em cima, que seria excelente para o beb. Espero 
que... Donovan. - Sebastian estava do outro lado da sala, servindo uma bebida.
       - O sr. Silbey est aqui.
       Sebastian tambm j sabia o seu papel. Mostrava-se um tanto reservado e nervoso, quando ofereceu a bebida para Silbey. Aps as trocas de gentilezas de praxe, 
todos sentaram. Mel e Sebastian ficaram juntos no sof, de mos dadas para apoio mtuo.
       Todo solcito, Silbey abriu a pasta de couro.
       - Ser que se importam se eu lhes fizer algumas perguntas? Apenas para conhec-los um pouco melhor?
       Ambos informaram os dados de suas identidades pr-estabelecidas, enquanto Silbey tomava notas. Mas foi a linguagem corporal entre eles que realmente contou. 
Os olhares rpidos e esperanosos que trocavam, a maneira como se tocavam. Silbey continuou a entrevista, ignorando totalmente que cada palavra que dizia estava 
sendo transmitida para dois agentes federais num quarto do andar de cima.
       Nitidamente satisfeito com o progresso que estava obtendo, Silbey enviou-lhes um olhar encorajador.
       - Posso afirmar que, na minha opinio pessoal e profissional, os senhores seriam excelentes pais. A seleo de um lar para uma criana  uma questo muito 
delicada.
       Silbey fez um breve discurso sobre a estabilidade, responsabilidade e os requisitos especiais necessrios para se criar uma criana adotada. Mel sentia o 
estmago revirar, embora continuasse sorrindo para ele.
       - Posso ver que vocs dois pensaram neste assunto com muita seriedade e profundidade. No entanto, existe um detalhe que talvez queiram discutir com um pouco 
mais de tempo. As despesas. Sei que parece insensvel colocar um preo em algo que deveramos considerar um milagre, mas temos de aceitar a realidade. Existem as 
questes das despesas mdicas, da compensao para a me, a minha remunerao, os custos legais e de cartrio. Tudo isso, naturalmente, ficar ao meu encargo.
       - Ns entendemos - Sebastian falou, desejando ter a liberdade de torcer o pescoo de Silbey.
       - Pois bem, ns vamos precisar de vinte e cinco mil dlares de depsito, e depois mais cento e vinte e cinco mil ao final dos procedimentos legais. Nisso 
esto includas todas as despesas com a me.
       Sebastian comeou a falar. Afinal, ele era um homem de negcios. Porm, Mel apertou-lhe a mo com fora e enviou-lhe um olhar de splica.
       - O dinheiro no  problema - ele disse, tocando o rosto dela.
       - Tudo bem, ento. - Silbey sorriu. - Eu tenho uma cliente. Ela  muito jovem, solteira. Quer terminar a faculdade e, depois de muito pensar, chegou  difcil 
concluso de que isto seria impossvel se tivesse de criar um filho sozinha. Posso lhes fornecer todos os antecedentes mdicos, tanto dela quanto do pai do beb, 
mas ela est firmemente decidida a no divulgar mais nenhuma informao. Com sua permisso, vou recomend-los a ela e falar a respeito de tudo o que conversamos.
       - Oh! - Mel pressionou os dedos na boca. - Ah, sim, por favor.
       - Para ser franco, vocs so exatamente o tipo de pais que ela esperava encontrar para o beb. Creio que seremos capazes de concluir tudo de forma que todas 
as partes fiquem satisfeitas.
       - Sr. Silbey. - Mel recostou a cabea no ombro de Sebastian.
       - Quando... Isto , quanto tempo pode demorar para termos uma resposta? E o beb? O que pode nos dizer sobre a criana?
       - Eu diria que teremos uma resposta nas prximas quarenta e oito horas. Quanto  criana... - Ele sorriu, benevolente. - Minha cliente. dever entrar em trabalho 
de parto a qualquer momento. E tenho a impresso de que, quando souber da notcia, ficar extremamente aliviada.
       Quando finalmente acompanharam Silbey at a porta, Mel j havia derramado mais algumas lgrimas. Mas assim que ficou a ss com Sebastian, o brilho de fria 
secou-os imediatamente.
       - Homenzinho horroroso!
       - Eu sei. - Sebastian segurou-a pelos ombros. Ela vibrava como uma corda esticada. - Ns vamos apanh-lo, Mel. Vamos agarrar todos eles.
       - Pode apostar todo seu dinheiro nisso! - Ela marchou at as escadas, depois voltou. - Voc sabe o que isso significa, no sabe Eles vo raptar um beb, um 
recm-nascido, provavelmente ainda no hospital!
       - Lgica como sempre - ele murmurou, observando-a.
       - Eu no agento isso. - Mel pressionou a mo no estmago, que revirava-se. - No posso suportar a idia de alguma pobre mulher deitada numa cama de hospital, 
tendo de ouvir a notcia de seu beb foi raptado.
       - No vai demorar mais muito tempo. - Sebastian queria entrar nos pensamentos dela, ver por si mesmo o que ela estava pensando. Porm, dera-lhe a sua palavra. 
- Ns temos de continuar neste jogo at o fim.
       - ... - Era exatamente isso que ela iria fazer. Sebastian no aprovaria, pensou, nem tampouco os federais. Mas existem ocasies em que se tem de seguir o 
que o corao diz. - Temos de nos certificar de que os rapazes l em cima conseguiram gravar tudo. - Respirou fundo. - Depois, acho que devemos fazer o que qualquer 
casal feliz e ansioso faria.
       - O qu?
       - Sair e contar aos nossos amigos mais chegados. E comemorar.
       
       Mel estava no saguo do Silver Palace com uma taa de champanhe na mo e um sorriso nos lbios.
       - Aos nossos novos e valiosos amigos.
       Linda riu e brindou.
       - Ah, no, aos felizes futuros pais!
       - Acho que nunca serei capaz de lhe agradecer o bastante.
       - Mel olhou de Linda para Gumm. - A vocs dois.
       - Tolice. - Gumm deu uma palmadinha na mo dela. Linda simplesmente fez algumas perguntinhas a uma amiga. Mas ns dois ficamos felizes em saber que um gesto 
to pequeno resultou em tantas alegrias.
       - Ainda temos de assinar os papis - Sebastian salientou. - E esperar a aprovao da me.
       - No vamos nos preocupar com nada disso. - Linda afastou tais detalhes com um gesto. - O que temos de fazer agora  planejar um ch de beb. Eu adoraria 
organiz-lo para voc, Mary Ellen, na minha cobertura.
       Embora j estivesse mais do que farta de chorar, Mel deixou os olhos encherem-se de lgrimas.
       - Isso tudo  to... - As lgrimas derramaram-se enquanto ela se levantava. - Desculpem-me, com licena. - Como se estivesse tendo um ataque emocional, correu 
para o toalete das senhoras.
       Como ela esperava, Linda a seguiu momentos depois.
       - Que idiota eu sou.
       - Ora, no seja tola. - Linda sentou ao seu lado, passando o brao em seu ombro. - Dizem que as futuras mames choram mesmo por qualquer coisinha.
       Com um risinho trmulo, Mel enxugou os olhos.
       - , acho que sim. Ser que voc se importaria muito de buscar-me um pouco d'gua, enquanto eu tento recuperar os danos na minha maquiagem?
       - Fique aqui mesmo.
       Mel calculou que teria vinte segundos, no mximo, portanto moveu-se rpido. Abriu a bolsinha de noite de Linda, remexeu entre o batom e o perfume e agarrou 
a chave da cobertura. Estava guardando-a no bolso da pantalona quando Linda voltou trazendo um copo.
       - Obrigada. - Mel sorriu. - Muito obrigada.
       
       
       O passo seguinte era afastar-se do grupo por pelo menos vinte minutos, sem ser detectada. Sugeriu um jantar de comemorao, mas que fossem jogar um pouco 
antes, como aperitivo. Sempre um anfitrio atencioso, Gumm insistiu em fazer ele mesmo os preparativos para o jantar. Cronometrando o tempo, Mel conseguiu esgueirar-se 
para longe de Sebastian e Linda em meio  pequena multido da mesa de vinte-e-um. Pegou o elevador expresso, mantendo-se bem encostada s paredes espelhadas. O andar 
da cobertura estava silencioso, quando saiu do elevador. Mel checou o relgio, depois enfiou a chave na fechadura.
       No precisava de muita coisa. Com as provas que j haviam conseguido, precisava apenas encontrar provas da ligao entre Gumm e Linda com Silbey ou com os 
Breezeport. E achava que Gumm era o tipo de homem que guardava registros de tudo e os mantinha muito bem escondidos.
       Talvez estivesse sendo precipitada, pensou enquanto encaminhava-se diretamente para a escrivaninha de bano. Mas a idia de que, naquele exato momento, a 
quadrilha estivesse planejando raptar um beb fazia seu sangue fervilhar. Ela no iria ficar parada enquanto uma outra pessoa passava por tudo o que Rose e Stan 
tinham passado. No quando havia uma chance de fazer a coisa certa.
       No achou nada de interessante na escrivaninha, e gastou cinco dos seus vinte minutos na procura. Destemida, continuou olhando em toda parte, examinando. 
as mesas em busca de tampos falsos, localizando um cofre atrs de uma fileira de livros. Adoraria ter tempo e habilidade para abrir o cofre, mas teve de admitir 
a derrota. Com menos de trs minutos restando, encontrou o que procurava num local bem  sua vista.
       O segundo quarto da sute tinha uma decorao toda cheia de fricotes e era usado por Linda, como um pequeno escritrio. Ali, em cima da escrivaninha provenal, 
estava um livro contbil com capa de couro.
        primeira vista, era exatamente o que parecia ser: Um registro dirio das entregas para as lojas do hotel. Mel quase fechou-o novamente, com desgosto, quando 
reparou nas datas.
       Mercadoria adquirida 21/1. Tampa. Recolhida 22/1. Little Rock. Entregue 23/1. Louisville. Recebida CQD 25/1. Detroit. Comisso: $ 10.000.
       Respirando mais devagar, Mel virou as pginas.
       Mercadoria adquirida 5/5. Monterey. Recolhida 6/5. Scuttlefield. 7/5. Entregue 8/5. Recebida COD 11/5. Atlanta. Comisso: $ 12.000.
       David, ela pensou, e no incomodou-se em conter uma torrente de palavres. Estava tudo ali, todas as datas e cidades. E mais. Crianas relacionadas como se 
fossem pacotes a ser entregues e pagos no recebimento.
       Pressionando os lbios com fora, ela examinou as pginas e assoviou baixinho por entre os dentes.
       B.B. encomendou nova mercadoria azul, West Bloomfield, Nova Jersey. Recolhimento entre 22/8 e 25/8. Rota normal, recebimento e pagamento final com prazo at 
31/8. Comisso estimada: $ 25.000.
       - Sua desgraada - Mel murmurou enquanto fechava o livro.
       Lutava contra o impulso de quebrar alguma coisa mas, em vez disso, examinou rapidamente o cmodo. Certificando-se de que no havia nada fora do lugar, preparou-se 
para sair.
       - Ah, provavelmente ela teve outra crise de choro - Linda dizia ao entrar pela porta principal, encaminhando-se para a sala. - Ele vai encontr-la.
       Mel olhou rapidamente em volta, e optou pelo armrio embutido.
       - No posso afirmar que esteja ansioso em passar mais uma noite com eles - Gumm falou. - Aposto que ela vai ficar a noite inteira tagarelando sobre fraldas 
e mamadeiras.
       - Ns conseguiremos agentar, amor. Principalmente pelo dobro da nossa comisso normal. - A voz dela ficou mais baixa, quando foi para o quarto no lado oposto. 
- Acho que foi uma boa idia mandar trazer o jantar para c. Quanto mais agradecidos e emocionados eles estiverem, menos sero capazes de raciocinar. Assim que estiverem 
com a criana, no questionaro nada.
       -  exatamente o que Harriet pensa. Ela j mandou Ethan dar incio. ao processo. Fiquei surpreso quando ela veio at aqui para conhec-los pessoalmente, pois 
tem agido com mais cautela desde o caso com os Frost.
       Mel mantinha a respirao lenta e calma. Pressionou o dedo na pedra do seu anel. A comunicao entre pessoas que se gostam, lembrou-se, e fechou os olhos. 
Bem, s lhe restava esperar. "Venha, Donovan, carregue seu traseiro para c e traga a cavalaria."
        Era arriscado, ela sabia, mas achou que os ventos estavam a seu favor. Enfiou a mo na bolsa, sentindo o volume reconfortante da sua arma. No, deste jeito 
no. Respirou fundo, acalmando-se, e guardou o livro contbil na bolsa, em vez de tirar a arma. Deixou a bolsa no cho e abriu o armrio.
       - Eles vo entregar a mercadoria ao nosso contato em Chicago. - Gumm estava dizendo.
       - Eu preferia peg-la em Albuquerque - Linda falou. Sempre posso aproveitar uns duzentos dlares extra para a corrida. - Ela levantou a cabea de repente 
quando Mel trombou de propsito numa cadeira. - O que diabos...?
       Gumm atravessou a sala como um raio, torcendo os braos de Mel por trs das costas, enquanto ela se debatia.
       - Solte-me! Jasper, voc est me machucando.!
       - As pessoas que  invadem as casas dos outros correm o risco de se machucar.
       -Eu... eu s vim me deitar um pouco.. - Mel tentou dar uma expresso enlouquecida aos olhos, para tornar a mentira ainda mais ridcula. - No pensei que voc 
fosse se incomodar.
       - O que temos aqui? - Linda perguntou.
       - Uma espi.  Eu deveria ter percebido. Devia ter sentido o cheiro.
       - Da polcia? - Linda considerou.
       -Polcia? - Com os olhos arregalados de espanto, Mel fez um esforo para se soltar. - Eu no sei do que vocs esto falando. Estava apenas descansando um 
pouco.
       - Como foi que ela entrou? - Jasper disparou, e Mel deixou a chave que estava segurando escorregar para o cho.
       -  a minha. - Praguejando com raiva, Linda abaixou-se para peg-la. - Ela deve ter tirado da minha bolsa.
       - Eu no sei o que... - Mel comeou, mas Jasper calou seu protesto com um tapa que deixou-a atordoada. Decidiu que estava na hora de trocar de cena. - Tudo 
bem, tudo bem, no precisa ficar violento. - Estremeceu e engoliu ruidosamente. - Estou apenas fazendo o meu trabalho.
       Jasper empurrou-a para a sala e jogou-a no sof.
       - Que trabalho?
       - Escute, eu sou apenas uma atriz. Estou trabalhando para Donovan. Ele  um detetive particular. - Enrole, Mel pensou. Enrole bastante, ganhe tempo, porque 
ele est chegando. Sabia que ele estava indo para l. - Fiz apenas o que me mandaram fazer. No dou a mnima para os seus negcios. Na verdade, at aprecio um plano 
bem-feito.
       Gumm foi at a escrivaninha e tirou um revlver da gaveta.
       - 0 que est fazendo aqui?
       - Voc no vai precisar disso. - ela falou, engolindo em seco.- Donovan mandou-me pegar a chave e subir para dar uma olhada. Achou que poderia haver alguns 
papis a na escrivaninha. - Fez um gesto na direo da mesa de bano. - Parecia ser coisa importante, voc sabe. E ele est me pagando cinco mil pratas pelo trabalho.
       - Uma atriz de segunda classe e um detetive particular! - Linda disparou, furiosa. - O que vamos fazer agora?
       - O que temos de fazer.
       - Escute, espere um pouco.  s voc mandar e eu dou o fora daqui. Para fora do Estado, do pas. - Mel tentou um tipo de charme mais ostensivo. - Isto , 
foi timo enquanto durou, as roupas bonitas e tudo, mas no quero me meter em encrencas. No ouvi nada, no vi nada.
       - Voc ouviu bastante - Gumm retrucou.
       - Tenho uma pssima memria.
       - Cale a boca - Linda gritou, e Mel estremeceu.
       - Temos de falar com Harriet. Ela voltou para Baltimore para acertar os detalhes do ltimo servio. - Gumm passou a mo nos cabelos. - Ela vai ficar muito 
zangada. E vai precisar ligar para a enfermeira, No podemos pegar uma criana se no temos um comprador.
       - Vinte e cinco mil indo embora pelo ralo. - Linda enviou a Mel um olhar de profundo desgosto. - Eu gostava de voc de verdade, Mary Ellen. - Aproximou-se 
de Mel e se abaixou, apertando a mo em torno de seu pescoo. - Mas agora terei muito prazer em deixar que Jasper cuide de voc.
       - Ei, escute...
       - Cale a boca! - Linda atirou Mel para trs. -  melhor voc arrumar algum para fazer o servio ainda esta noite. E precisa pegar o detetive, tambm. Acho 
que uma visitinha  casa deles seria bom. Um belo caso de assassinato seguido de suicdio.
       - Eu cuido disso.
       Ouvindo as batidas na porta, Mel tentou se levantar e, como esperava, Linda tapou-lhe a boca com a mo.
       - Servio de quarto, sr. Gumm.
       - O maldito jantar - Jasper resmungou. - Leve-a para o quarto e faa com que fique quieta. Eu vou atender.
       - Com todo prazer. - Linda pegou a arma que Gumm lhe entregava e fez um gesto para que Mel fosse para o quarto ao lado.
       Ajeitando os cabelos, Gumm abriu a porta e fez o garom entrar com o carrinho.
       - No precisa arrumar a mesa. Nossos convidados ainda no chegaram.
       - Chegaram, sim. - Sebastian entrou logo atrs do garom. - Jasper, quero lhe apresentar o agente especial Devereaux, do FBI No quarto, Linda praguejava e 
Mel sorria.
       - Com licena - Mel falou educadamente antes de dar uma rasteira no p de Linda e chutar a arma para longe.
       - Sutherland - Sebastian falou com uma fria contida, aparecendo na porta. - Acho que vai ter de me dar algumas explicaes.
       - Num minuto. - Sem pestanejar, Mel virou-se e deu um soco direto no rosto atnito de Linda. - Este aqui foi por Rose.
       
       Ele no estava nada contente. Sebastian deixou isso absolutamente claro pelo restante daquela noite, atravs de todos os meios. Devereaux tambm no estava 
exatamente encantado, mas Mel achou que era uma ingratido da parte dele, desde que ela s faltara amarrar as provas comum lao e entreg-las de presente numa bandeja.
       Sebastian tinha o direito de ficar zangado, pensou. Afinal, ela agira por conta prpria. Mas ela era a profissional e, alm disso, tudo sara exatamente como 
havia planejado. Ento, qual era o problema?
       Mel fez a mesma pergunta a ele vrias vezes, enquanto arrumavam as malas para voltar para casa, durante o vo para Monterey, e quando Sebastian a deixou em 
seu escritrio.
       A nica resposta dele foram aqueles olhares longos e enigmticos. E a ltima coisa que ele lhe disse deixou-a em silncio, sentindo-se miservel.
       - Eu mantive minha palavra, Mary Ellen, e voc no. Numa questo de confiana, isso  o que basta.
       Isso tudo fora h dois dias, ela pensou enquanto remoa-se sentada na escrivaninha. E, desde ento, ele no dera o menor sinal de vida.
       Mel at chegara ao ponto de engolir o orgulho e ligar para ele, mas fora atendida pela secretria eletrnica. No que sentisse que lhe devesse desculpas. 
Mas realmente achava que ele merecia uma segunda chance de ser razovel.
       Brincou com a idia de procurar Morgana ou Anastsia e pedir que intercedessem. Mas isso j seria fraqueza demais. Tudo o que ela queria era acertar novamente 
as coisas entre eles. No, admitiu, ela queria muito mais. E era isso que a estava matando aos poucos.
       S havia um jeito de resolver isso, ela decidiu, e pulou para fora da escrivaninha. Iria ca-lo onde quer que ele estivesse, empurr-lo contra a parede, 
se necessrio, mas o obrigaria a ouvir o que tinha a lhe dizer.
       Durante todo o trajeto pela estrada tortuosa da montanha, Mel foi praticando o que iria dizer, e como iria falar. Experimentou ser dura, depois calma e solene, 
e at fez uma tentativa de parecer penitente. Quando nada disso deu certo, optou pela ttica agressiva. Iria simplesmente marchar para dentro da casa dele e obrig-lo 
a sair daquela greve de silncio. J estava farta daquilo.
       E se ele no estivesse em casa, ela esperaria.
       Mas ele estava ali, Mel descobriu assim que atingiu o topo da montanha. Mas, certamente, no estava sozinho. Havia trs outros carros estacionados na frente 
da garagem, inclusive o que parecia ser a limusine mais comprida do mundo.
       Ela saiu do carro e ficou ali parada, perguntando-se o que faria em seguida.
       - Eu lhe disse, no disse? - Mel olhou em volta e avistou uma mulher bonita, usando um vestido vaporoso na altura dos tornozelos. - Uma loira de olhos verdes 
- a mulher continuou com uma evidente satisfao no sotaque irlands. - Eu disse que alguma coisa o estava incomodando.
       - Sim, querida. - O homem ao lado dela era alto e desajeitado, com os cabelos grisalhos formando um dramtico bico-de-viva no alto da testa larga. Parecia 
bastante atraente usando culotes e botas de montaria. Uma lente de aumento vitoriana pendia de um cordo em seu pescoo. - Mas fui eu quem lhe disse que era por 
causa de uma mulher.
       - Ainda assim. - A mulher praticamente deslizou pelo gramado, estendendo os dois braos gorduchos na direo de Mel. - Ol, ol, seja bem-vinda!
       - Ah, obrigada. Eu, ahn, estou procurando...
       - E claro que est - a mulher falou, com um riso alegre. - Qualquer um pode ver isso, no  mesmo, Douglas?
       - Bonita - o homem falou em resposta. - Difcil de conquistar. - Ele perscrutou-a com olhos to parecidos com os de Sebastian. que Mel comeou a juntar dois 
mais dois. - Ele no falou sobre ns, o que explica tudo.
       - Acho que sim - Mel respondeu, aps um instante. Eram os pais dele, pensou, desanimada. Uma reunio de famlia no era a melhor ocasio para um confronto. 
- No quero incomod-lo, se est com visitas. Talvez o senhor pudesse avis-lo que estive aqui.
       - Bobagem. A propsito, eu sou Camilla. Me de Sebastian.
       - Ela pegou Mel pelo brao e levou-a na direo da casa. Entendo muito bem porque voc o ama, minha querida criana. Eu mesma o amo h muitos anos.
       Em pnico, Mel procurou uma sada de emergncia.
       - No, eu... Isto , eu... eu acho que deveria voltar mais tarde.
       - No h momento como o presente - Douglas falou, e deu-lhe um empurrozinho amigvel para a porta. - Sebastian, olhe s o que trouxemos para voc. - Levou 
a lente ao olho e espiou em volta, parecendo uma coruja. - Onde est aquele menino?
       - L em cima. - Morgana apareceu, vindo da cozinha. Ele vai... Ah, ol.
       - Ol. - O frio cumprimento confirmou  Mel que fora m idia entrar. - Eu j estava... indo embora. No sabia que sua famlia estava de visita.
       - Ah, eles costumam aparecer de vez em quando. - Depois de um longo e profundo exame nos olhos de Mel, o sorriso de Morgana aqueceu-se. - Pisou na bola, no 
? - murmurou. - Tudo bem, ele vai superar.
       - Eu realmente acho que devia...
       - Venha conhecer o restante da famlia - Camilla falou com alegria, mantendo o brao de Mel firmemente preso enquanto marchava na direo da cozinha.
        Os aromas mais deliciosos enchiam o ar e o cmodo cheio de gente. Uma mulher alta e majestosa estava rindo gostosamente enquanto mexia alguma coisa no fogo. 
Nash estava numa banqueta ao lado de um homem de meia-idade cujos cabelos prateados pareciam brilhar. Quando o homem ergueu os olhos para ela, Mel sentiu-se como 
um inseto sentado num alfinete. 
       - Ei, Mel! - Nash acenou-lhe e ela foi introduzida na fraternidade. Seguiram-se as apresentaes, sempre comandadas por Camilla.
       - Meu cunhado, Matthew - ela comeou, indicando o homem ao lado de Nash. - Minha irm Maureen, l no fogo. - Maureen acenou distrada e cheirou o contedo 
da panela. - E minha outra irm, Bryna.
       - Ol. - Uma mulher to bela quanto Morgana adiantou-se para cumprimentar Mel. - Espero que no esteja assustada demais com tudo isso. Ns todos chegamos 
hoje cedo, um tanto inesperadamente. .
       - No, no... de verdade. Eu no quero atrapalhar. Realmente devia ir...
       Mas era tarde demais. Sebastian entrou na cozinha, seguido por Ana e um homem baixo, moreno, com olhos reluzentes.
       - Ah, Sebastian! - Bryna continuou segurando a mo de Mel. - Temos mais companhia. Mel, este  Padrick, pai de Ana.
       - Ol. - Mel achou mais fcil olhar para ele do que para Sebastian. - Muito prazer.
       Ele aproximou-se com passos largos e deu-lhe um beliscozinho na bochecha.
       - Fique para o jantar - disse. - Vamos pr um pouco de carne em seus ossos. Maureen, minha flor do campo, o que  este cheiro maravilhoso?
       - Goulash hngaro.
       Padrick piscou para Mel.
       - E nem um olho de salamandra no caldo, eu garanto.
       - Sim, bem, agradeo o convite, mas realmente no posso ficar. - Arriscou-se e lanou um olhar para Sebastian. Desculpe-me - murmurou quando ele limitou-se 
apenas a fit-la com aqueles olhos calmos, inescrutveis. - Eu no devia... Isto , eu devia ter ligado antes. Falo com voc mais tarde.
       - Nos dem licena - Sebastian falou para o grupo, pegando o brao de Mel quando ela tentava se afastar. - Mel no viu o potrinho, desde que ele nasceu.
       Embora soubesse que era covardia, Mel lanou um olhar desesperado para trs, enquanto ele a empurrava porta afora.
       - Voc est com visitas.
       E as visitas correram para a janela todas ao mesmo tempo, para observar os acontecimentos.
       - Famlia no  visita - ele disse. - E, j que voc se deu ao trabalho de vir at aqui, creio que tem alguma coisa a dizer.
       - Bem, eu tenho mesmo. E vou dizer quando voc parar de me empurrar.
       - timo. - Sebastian parou perto do estbulo, onde o potro estava ocupado mamando. - Ento fale.
       - Eu queria... Eu conversei com Devereaux. Ele disse que Linda resolveu cooperar e entregou tudo. Eles tm o bastante para trancar Gumm e os Breezeport por 
um bom tempo. Alm dos outros envolvidos, como Silbey.
       - Eu sei de tudo isso.
       - Ah, bem, eu no tinha certeza. - Mel enfiou as mos nos bolsos. - Vai demorar algum tempo para que localizem todas as crianas e devolv-las para os verdadeiros 
pais, mas... Deu certo, droga! - ela explodiu. -: No sei por que voc est to inflexvel quanto a isso.
       Ele falou num tom calmo, que a deixou decepcionada.
       - No sabe mesmo?
       - Eu fiz o que achei que seria o melhor. - Ela chutou a terra, depois comeou a andar ao longo da cerca. - Eles j estavam fazendo planos para raptar outro 
beb. Estava bem ali, no livro.
       - O livro que voc foi procurar e encontrou. Sozinha.
       - Se eu lhe contasse o que pretendia fazer, voc tentaria me impedir.
       - Errado. Eu teria impedido.
       Mel franziu a testa.
       - Viu s? Fazendo do meu jeito, evitei uma poro de sofrimentos.
       - E arriscou-se a ter mais sofrimentos ainda. - A raiva que ele estava lutando para conter explodiu de repente. Voc ficou com o rosto machucado.
       - Um acidente de trabalho - ela retrucou. - Alm disso, o rosto  meu.
       - Bom Deus, Sutherland! A mulher tinha uma arma apontada para voc.
       - Apenas por um minuto. Escute, Donovan, o dia em que no puder lidar com uma "babaca" como aquela Linda Glass, eu me aposento. Estou lhe dizendo que simplesmente 
no consegui suportar a idia de que estavam prestes a raptar outro beb, por isso segui meus instintos. - Os olhos dela eram to eloqentes que Sebastian sentiu 
a raiva diminuir um pouco. - Eu sabia o que estava fazendo, e tambm sei que parece que estava abandonando voc. Mas no estava. Eu o chamei.
       Sebastian respirou fundo, tentando se acalmar. Mas no conseguiu.
       - E se tivesse sido tarde demais?
       - Bem, no foi. Ento, qual  o problema?
       - O problema  que voc no confiou em mim.
       -  claro que confiei! Em quem mais eu estava confiando quando fiquei presa naquele armrio e tentei usar o anel, ou qualquer outro contato que tivssemos, 
para cham-lo e tambm aos federais? Se no confiasse em voc, teria sado dali naquele mesmo instante, levando o livro. - Mel agarrou-o pela camisa e encarou-o. 
- Foi porque confiava em voc que agi daquela maneira. Fiquei l, permitindo que eles me apanhassem... porque eu sabia que podia confiar em voc para me salvar. 
Tentei lhe explicar tudo isso, antes. Eu sabia que eles me diriam coisas que Devereaux poderia usar e, tendo o livro como prova, poderiam acabar com a quadrilha 
de uma vez.
       Aprumando-se, Sebastian virou-se. Por mais zangado que estivesse, via a verdade naquilo. Talvez no fosse o tipo de confiana que ele queria, mas era confiana.
       - Voc podia ter sido ferida.
       -  claro. Eu posso ser ferida todas as vezes que aceito um caso.  o que fao, o que sou. - Mel engoliu em seco, lutando para desfazer o n na garganta. 
- Eu tive de aceitar voc, e o que voc . E, acredite, no foi fcil. Se quisermos continuar sendo... amigos, acho que voc pode fazer o mesmo.
       - Talvez voc tenha razo. Mas eu no gosto do seu estilo.
       - timo - ela disparou de volta, piscando para clarear a viso. - Pois eu digo o mesmo.
       Na janela da cozinha, Camilla balanou a cabea.
       - Ele sempre foi to teimoso...
       - Aposto dez libras que ela vai venc-lo pelo cansao. Padrick apalpou o traseiro da esposa afetuosamente. - Dez libras, sem truques.
       - Shh - ela falou. - Assim no conseguimos escutar.
       Mel exalou um suspiro trmulo.
       - Bem, de qualquer forma, agora j sabemos como ficamos. Sinto muito.
       - O qu? - Sebastian virou-se e ficou atnito ao ver as lgrimas no rosto dela. - Mary Ellen...
       - No. Eu vou superar tudo isso. - Ela limpou as lgrimas, com raiva. - Eu tenho de fazer o que acho que  certo. E ainda acredito que o que fiz estava certo, 
mas lamento que tenha ficado to zangado comigo. Porque eu... Ah, odeio isso! - Mel esfregou as mos no rosto, esquivando-se quando ele quis se aproximar. - No. 
No quero. No preciso ser acalmada, nem acariciada, mesmo que esteja agindo como um beb. Voc estava com raiva e acho que no posso culp-lo por ter-me dado um 
fora.
       - Dado um fora em voc? - Ele riu. - Eu a deixei sozinha e bem longe de meu alcance at me certificar de que poderia impedir-me de esgan-la, ou de lhe dar 
um ultimato que voc teria atirado em minha cara.
       - Seja l o que for. - Mel fungou e recuperou um pouco do controle, -            Acho que o que fiz realmente magoou voc, mas no tive essa inteno.
       Sebastian sorriu um pouco.
       - Digo o mesmo.
       - Tudo bem. - Devia haver algum jeito de encerrar aquilo com um pouco da dignidade intacta. - Ento  isso, eu queria esclarecer as coisas e lhe dizer que 
acho que ns fizemos um bom trabalho. E, agora que est terminado, achei melhor lhe devolver isso. - Foi difcil, uma das coisas mais difceis que ela j fizera, 
tirar o anel do dedo. - Parece que os Ryan esto se divorciando.
       -  verdade.
       Sebastian pegou o anel e segurou-o na palma da mo enquanto a observava. No era necessrio mergulhar nos pensamentos dela para saber que estava sofrendo. 
No que fosse particularmente nobre de sua parte, mas isto o deixou bem satisfeito.
       -  uma pena - Sebastian acrescentou, roando as costas da mo no rosto dela. - Mas, de qualquer jeito, eu prefiro voc a ela.
       Mel piscou. -  mesmo?
       - Sem dvida. Estava comeando ach-la um pouco chata. Ela nunca discutia comigo e no saa da manicura, - Com delicadeza, ele espalmou a mo no rosto dela 
e puxou-a para si. - E, certamente, nunca ningum a apanharia usando uma cala jeans como esta.
       - Acho que no - ela murmurou, entregando-se a ele, ao b~ijo. Mel sentiu-se tremer, sentiu as lgrimas emergindo novamente quando abraou-o. - Sebastian, 
eu preciso... - Abraou-o com mais fora, colando os lbios nos dele.
       - Fale.
       - Eu quero... Ah, meu Deus, voc me assusta. - Ela afastou-se, os olhos molhados e aterrorizados. - Apenas leia a minha mente, est bem? Pelo amor de Deus, 
veja o que estou sentindo e me d um tempo.
       Os olhos dele obscureceram-se, as mos seguraram-lhe o rosto. Ele olhou e viu tudo o que sempre estivera esperando.
       - Mais uma vez - ele murmurou, beijando-a. Mas desta vez foi um beijo sedutor, delicado. - No pode me dizer? No consegue dizer as palavras. Elas so a magia 
mais verdadeira.
       - No quero que voc pense que estou pressionando. Mas  que eu...
       - Eu amo voc - ele completou.
       - Sim. - Mel esboou um sorriso fraco. - Voc pode dizer que eu atravessei os limites. Eu no ia tocar neste assunto mas achei que deveria. Achei que deveria 
falar com voc, frente a frente. E foi um tanto estranho, quando voc est com a casa cheia de visitas.
       - Que esto todos com o nariz colado na janela da cozinha, adorando tudo isso quase tanto quanto eu.
       - O qu? - Mel fez um giro para trs, ruborizou e virou-se novamente. - Ah, meu Deus. Escute, eu vou embora. No posso acreditar que fiz uma coisa destas. 
- Nervosa, levantou a mo para arrumar os cabelos. E viu que o anel retornara ao seu dedo.
       Enquanto ela o olhava, Sebastian deu um passo para trs.
       - Eu dei esta pedra  Morgana.  uma pedra que guardei como se fosse um tesouro, por toda minha vida. Pedi a ela que mandasse fazer um anel. Para voc. Para 
voc - ele repetiu, esperando at que ela erguesse os olhos para encar-la. Porque voc  a nica mulher que eu quero que use esta pedra. E a nica mulher com quem 
quero compartilhar minha vida. Eu o coloquei em seu dedo pela segunda vez, agora, e nas duas vezes foi como um pedido para voc. - Ele estendeu a mo, oferecendo-a. 
- Ningum, em nenhum tempo, em nenhum lugar, ir am-la tanto.
       Mel tinha os olhos secos, naquele momento, e estava subitamente calma.
       - Est falando srio?
       Sebastian sorriu.
       - No, Sutherland, estou brincando.
       Rindo, ela atirou-se nos braos dele.
       - Tarde demais. Eu tenho testemunhas. - O aplauso espontneo vindo da cozinha a fez rir novamente. - Ah, Donovan, eu o amo tanto. Vou fazer o possvel para 
tornar sua vida memorvel.
       .Ele pegou-a no colo e a fez girar no ar.
       - Eu sei. - Depois de mais um longo beijo, tomou-lhe a mo. - Venha, vamos ao encontro da sua famlia. Ns estvamos, todos, esperando por voc. 
       
       FIM
Fascinado        Famlia Donavan 02        Destino 102
       
       


~ 179 ~
       
